Ortografia: «multiúso»

Pelo menos isso

      «A Nave da Estufa Fria [construída na década de 1950 e com 800 metros quadrados, da autoria do Eng. Edgar Cardoso], espaço que sofreu uma remodelação, é hoje inaugurada pelo presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa. Este espaço é agora um multiúsos disponível para a realização de qualquer evento» («Nave da Estufa Fria passa a ser um multiúsos», Diário de Notícias, 21.10.2013, p. 21).
      É uma barbaridade, bem o sabemos, mas pelo menos agora já lhe põem o necessário acento agudo.

[Texto 3415]

«Recriar/recrear»

Da pressa, hem?

      «Sob um céu cinzento, os soldados avançam em linha enquanto decorrem escaramuças de cavalaria e se ouvem disparos de artilharia. Foram cerca de seis mil figurantes a recrearem no fim de semana, nos arredores de Leipzig, o confronto que ditou o fim da influência de Napoleão na Europa: a Batalha das Nações, que opôs 185 mil franceses a 320 mil alemães, russos, austríacos e suecos entre 16 e 20 de outubro de 1813» («Alemanha. 200 anos da Batalha das Nações», Diário de Notícias, 21.10.2013, p. 8).
      Quando têm de escrever «recrear», escrevem «recriar». Eles dirão que é da pressa; alguns até me perguntam, estocada final, se já trabalhei num jornal.
[Texto 3414]

Léxico: «contraplano»

Pouco cinéfilo

      «A estranheza inicial das duas personagens dilui-se rapidamente na extraordinária beleza com que são filmadas. E não falo apenas das técnicas cinematográficas que regulam a luz, que ditam as horas para obter as melhores filmagens ou que revelam os planos e os contraplanos adequados à emoção de cada momento» (Coisas da Vida, Laurinda Alves. Alfragide: Oficina do Livro, 2009, 2.ª ed., pp. 122-24).
      Tive de ser eu a propor «contrapicado» ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, e agora é este «contraplano». Ou seja, tenho de fazer tudo.
[Texto 3413]

«Mezanino/sobreloja»

Duas perguntas

      «A partir de uma escola com a tipologia típica da arquitectura do Estado Novo, a equipa de Fernando Maia Pinto apostou no máximo aproveitamento do espaço: o edifício principal foi desmultiplicado em três pisos, que acolhem um arquivo na cave, um auditório e sala de exposições no piso térreo, e um mezanino também para exposições» («Mário Cláudio, um vizinho em Paredes de Coura», Sérgio C. Andrade, Público, 20.10.2013, p. 39).
      Pior ainda é quando os autores querem deixar, à viva força e a despropósito, o termo em italiano, mezzanino. E agora uma pergunta: «sobreloja» não é exactamente o mesmo? E porque é que os dicionários, tão lestos noutros casos, não fazem aqui uma remissão?
[Texto 3412]

Clássicos

O português que não se usa

      «O português sem gramática que se usa na televisão e nos jornais desceu à “língua de pau”. A “língua de pau” costumava ser um exclusivo do Partido Comunista, agora é a língua quase oficial da política, uma pasta mastigada e remastigada, que não exprime nada e não convence ninguém. [...] Do século XVI para a frente não faltava um único autor dos que mudaram e moldaram o português que hoje se usa ou, mais precisamente, não se usa. Para medir bem a nossa pobreza literária os “clássicos Sá da Costa” foram um instrumento único» («Os clássicos Sá da Costa», Vasco Pulido Valente, Público, 18.10.2013, p. 52).

[Texto 3411]

Ardeatinas

Depende de quem o diz

      Na pequena cidade de Albano Laziale, a 30 quilómetros de Roma, milhares de pessoas impediram que o ex-comandante nazi Erich Priebke fosse ali enterrado. «Priebke», disseram no Telejornal de ontem, «foi extraditado para Itália, condenado em 1998 a prisão perpétua pelo massacre das grutas Ardeatinas.» Ora dizem que são fossas, ora grutas, ora cavernas... É tudo o mesmo, querem ver? Bem, em italiano sabemos como é: fosse Ardeatine.
[Texto 3410]

«Gramática do Português»

Com 16 mil exemplos

      Acabam de me chamar a atenção para uma notícia do Diário Digital: é publicada hoje a Gramática do Português, «resultado de 13 anos de trabalho coordenado pelo Centro de Linguística da Universidade de Lisboa», com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian. «“É uma gramática descritiva e explicativa acessível que responde a dúvidas que não são esclarecidas nas atuais gramáticas”, afirmou a investigadora Maria Bacelar do Nascimento, num encontro esta semana com jornalistas. A obra, que faz a ponte “entre a tradição gramatical” dos séculos XIX e XX e “os resultados da investigação linguística contemporânea”, destina-se “a um público com nível de instrução acima da média”, mas com explicações “tão simples quanto possível”.»
[Texto 3409]

«Cartola», uma acepção

A propósito de futebol

      «A presidente da República, Dilma Rousseff, sancionou a Medida Provisória 620, que inclui alterações na Lei Pelé e fixa, entre outros, a limitação dos mandatos e reeleições de dirigentes de entidades esportivas, a exigência de transparência financeira e administrativa e a participação de atletas e ex-atletas em conselhos e órgãos técnicos das instituições» («Dilma aprova lei contra a reeleição dos cartolas», F. S. P., Agora, 17.10.2013, p. B8).
      Para nós, coloquialmente, cartolas eram os indivíduos importantes. No Brasil, cartola é termo popular e pejorativo para designar os dirigentes de clubes desportivos.
[Texto 3408]

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