Isto é que é traduzir

Francamente

      «O site do PÚBLICO foi considerado a publicação online mais bem desenhada na edição deste ano do congresso ÑH, organizado pelo capítulo espanhol da Society for News Design, que anualmente distingue as publicações e trabalhos jornalísticos com melhor desenho» («Site do PÚBLICO ganha prémio para o mais bem desenhado da Península Ibérica», Público, 2.10.2013, p. 13).
      Faz-me lembrar uma maluca que eu conheço que falava da «estética das contas». Era só estética, porque estavam todas absurdamente erradas. E no Público, isto: está chapter no original, vá de traduzir à letra. Só que — santinhos — em português nada significa. Em inglês é que é, no contexto, «a local branch of an organization».
[Texto 3348]

E não a tal

Este não

      «Portanto, o problema que se punha naquela altura», escreveu o autor, num livro agora no prelo, «no capítulo da ordem política, era realmente o da existência de dois mundos: o ocidental, já na altura capitaneado pelos Estados Unidos, e, do outro lado, o mundo da União Soviética.» Cá está: «capitaneado». Bem sabem que palavrinha 90 % dos autores actuais poriam ali.
[Texto 3347]

Plural de «cortesão»

Pois pode ser

      O Padre Manuel Morujão, porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, entrevistado hoje pela Antena 1 a propósito das afirmações do Papa Francisco e a lepra que é a Cúria Romana, usou — e bem — o plural «cortesões». «Cortesão» tem dois plurais: «cortesãos», de longe o mais usado, e «cortesões». E até há substantivos com plurais triplos. No caso, poucas gramáticas indicam o duplo plural de «cortesão»; indicam apenas «cortesãos». Regular ou não, existe, é usado.
[Texto 3346]

«Ao fim e ao cabo»

Confundem tudo (porra?)

      Ora aqui temos nós um grande escritor a escrever «ao fim ao cabo», castelhanismo (boa noite, Fernando) agora já irremediavelmente enraizado. Mas espera: não é «ao fim ao cabo», é ao fim e ao cabo. Tresleram Vasco Botelho de Amaral, que recomendava que em vez desta expressão se usassem outras equivalentes em português, como ao fim, ao cabo, finalmente, por fim... Mas tem graça.
[Texto 3345]

«Mnemósine»

Pois com certeza, mas

      Está bem, queres mostrar cultura clássica, mas os acentos não são onde nos apraz. É Mnemósine ou Mnemósina. E para quê usares as duas formas com três linhas de intervalo?
[Texto 3344]

Léxico: «partita»

BWV 825–830

      Aqui este (elemento da GNR, digamos) toca partitas de Bach. Ora, também neste caso quase todos os dicionários falham. O Michaelis, porém, regista: «1 Designação, primitivamente, de uma série de danças. 2 Mús Suíte.»
[Texto 3343]

«Idem, aspas»

Em toda a parte, pelo menos

      «Onde se levantasse arraial, era sabido, aparecia padre; onde cheirasse a desgraça idem, aspas. E assim é que devia ser porque a palavra de Deus tem de estar em toda a parte, pelo menos» (O Burro-em-Pé, José Cardoso Pires. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 3.ª ed., 2011, p. 65).
      É expressão que devia estar registada em todos os dicionários gerais da língua. Provavelmente, porém, não está em nenhum.
[Texto 3342]

Léxico: «zunga»

E quando é preciso, não usam

      «Zunga é como se chama a venda ambulante em Angola. A ela se dedicam essencialmente mulheres, conhecidas como zungueiras. Muitas vivem na “pobreza extrema”» («Human Rights Watch denuncia violência policial em Angola contra vendedores de rua», Ana Dias Cordeiro, Público, 1.10.2013, p. 35).
      «Pobreza extrema» com pinças, para não nos comprometermos, cara Ana Dias Cordeiro? E «zunga» e «zungueiras», mais abaixo — que até estão no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora — em itálico.
[Texto 3341]

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