Léxico: «rectossigmoidoscopia»

É só mais um

      Também não encontramos no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora o termo médico rectossigmoidoscopia (exame endoscópico no qual se utiliza um tubo rígido, o rectossigmoidoscópio, inserido através do ânus para examinar o canal anal, recto e porção mais distal do intestino grosso), o que é razão quase suficiente para alguns médicos não o escreverem correctamente.
[Texto 3324]

«Cursar», uma acepção

Sempre se aprende

      «A maioria dos doentes», lê-se no texto, «recupera no período de uma semana, contudo, a infecção pode evoluir com agravamento dos sintomas e cursar com risco de vida.» Nunca tinha visto ser usada esta acepção do verbo «cursar» — seguir o curso de.
[Texto 3323]

«Croça da aorta»

Lá se foi uma convicção

      Vai para sete anos (!), escrevi esta nota de rodapé num texto que publiquei no Assim Mesmo: «É curioso, na verdade, que ninguém tenha dúvidas em designar o arcus aortae como “crossa da aorta”, pela semelhança, a curvatura, que tem com o báculo episcopal. Neste caso, parece não haver dúvidas de que o étimo é o francês.» Ninguém? Algo mudou. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, à parte recurvada da artéria aorta dá-se o nome de... «croça». E o Dr. Google também dá clara vantagem a esta grafia, o que jamais me deixaria abalado, se não fora juntar-se-lhe a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. E esta foi publicada há décadas. A coisa é muito simples: para muitos dicionários, «crossa» nem sequer existe. Bem, assim pelo menos é mais simples...
[Texto 3322]

«Sentenciar» e «comprazer»

À escolha

      «Está a perder o cabelo, como um homem; é verdade, tem a testa devastada dum sujeito idoso: “testa de pensador”, sentenceia em voz baixa» (O Fim da Noite, François Mauriac. Tradução de Cabral do Nascimento. Lisboa: Estúdios Cor, 1957, p. 13). «Teresa representara um bom papel, comprouvera-se nas atitudes tomadas» (idem, ibidem, p. 82).
      Igualmente correctas — meras variantes —, agora optar-se-ia, decerto, por «sentencia» e «comprazera-se».

[Texto 3321]

«Conforme»

Só à medida


1. «Jorge não sabia que ripostar. Conforme se aproximava a hora da partida, Maria menos afastava os olhos dele, observando-o com atenção — como se bebesse antecipadamente, prevendo que ia ter sede» (p. 84).

2. «E, conforme falava, ela tinha a certeza de que as suas palavras indispunham o convidado mais e mais contra Maria» (p. 108).

3. «Conforme ia enumerando os motivos que tinha um rapaz de vinte anos para amar a vida, Teresa recuperava pouco a pouco o tom de ironia: Jorge apurou então o ouvido e ergueu o rosto ávido e triste» (p. 121).

4. «– Até à distribuição dos prémios, tornei-me mais irritado e duro conforme o via mais triste» (p. 127).

      São os quatro exemplos da obra O Fim da Noite, de François Mauriac, com tradução de Cabral do Nascimento (Lisboa: Estúdios Cor, 1957). Hoje, já se sabe que nem um «conforme» ali estaria naquelas frases. É triste ver-se assim a língua a afunilar, a empobrecer. Bela história, este O Fim da Noite. Agora vou ler a primeira parte, Teresa Desqueyroux, na tradução publicada dois anos antes também pelos Estúdios Cor.
[Texto 3320]

«Rua du Bac», por exemplo

É só não ceder

      «Como pudera ele cumprir a sua função desde a quinta de Argelouse até ao terceiro andar dum prédio antigo da rua du Bac?» (O Fim da Noite, François Mauriac. Tradução de Cabral do Nascimento. Lisboa: Estúdios Cor, 1957, p. 12).
     E não, como se vê mais vezes do que é normal, «rue du Bac». Ou avenue, ou street, ou calle... Sim, é verdade que é tolice dos tradutores, mas nós também temos, essa é que é essa, culpas no cartório.

[Texto 3319]

E o advérbio «incontinente»?

Sem perda de tempo

      «O mais assisado era regressar incontinente a Saint-Clair, antes que Jorge soubesse daquela viagem sinistra» (O Fim da Noite, François Mauriac. Tradução de Cabral do Nascimento. Lisboa: Estúdios Cor, 1957, p. 46).
      Este advérbio, lembrar-se-ão, já passou aqui pelo Linguagista. Mas esperem... O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não sabe de nenhum advérbio assim. Regista apenas «incontinentemente». Demasiadas letras.
[Texto 3318]

Léxico: «mestre-de-capela»

Juntem-lhes este

      O compositor e musicólogo espanhol do século XVI Diego Ortiz foi mestre-de-capela ou mestre de capela? O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora tem vários mestres — mestre-cuco, mestre-de-cerimónias, mestre-de-obras, mestre-escola, mestre-sala —, mas não «mestre-de-capela». Além destes, Rebelo Gonçalves regista mais três vocábulos compostos com «mestre» como primeiro elemento no seu Vocabulário da Língua Portuguesa, todos com hífen.
[Texto 3317]

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