«Alfabloqueador, betabloqueador»

Pois, mas

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista o vocábulo «betabloqueador». Beta- é elemento de formação que exprime a ideia de segundo numa ordenação ou classificação. Tinha curiosidade em saber se registaria também aglutinado «alfabloqueador», mas nada, não regista. Para o leitor Franco e Silva, como «a palavra não representa exactamente um prefixo, mas a transcrição de uma letra grega, justificada pela dificuldade tipográfica de a escrever (e substituindo-a, pois, pelo seu nome, alternativamente). Isto é, pode equivalentemente escrever-se α, β, γ, etc., seguida de hífen e posteriormente qualquer outra palavra (comece por que letra comece, vogal ou consoante) desde que isso seja tipograficamente possível». E assim, α-bloqueador e alfa-bloqueador, β-bloqueador e beta-bloqueador. Não é, como sabem, a minha opinião: não são exactamente prefixos — mas funcionam como tal. É por razões gráficas, tão-somente, que se usa hífen se usarmos as letras gregas. Quando se usa a palavra por extenso, aglutinam-se os elementos. É o que eu faço e recomendo, com uma excepção: se o último carácter do primeiro elemento for o mesmo do primeiro carácter do segundo elemento, uso hífen.

[Texto 3316]

«Poliosídica»?

Ou não?

      «Vacina adsorvida pneumocócica poliosídica conjugada», leio aqui. Vem do francês polyosidique, ao que me parece. Só uma pergunta: não devíamos duplicar o s, «poliossídica»? Não escrevemos nós «polissacárido» e «polissacarídeo»?

[Texto 3315]

Ortografia: «cata-vento»

Muito adiantados

      «As declarações não foram de Christina [sic] Lagarde, mas o “seu” FMI voltou esta semana a fazer uma coisa de que já vários o acusavam: papel de catavento» («Christine Lagarde. A contraditória», Público, 22.09.2013, p. 4).
      Na substância, será tudo verdade; mas falha, mais uma vez, a ortografia, pois é cata-vento que se escreve. Escreve e continuará a escrever-se, pois neste caso e noutros semelhantes, incongruentemente (veja-se «mandachuva», composto em que se perdeu, dizem eles, a noção de composição; e em «cata-vento», manteve-se?) o Acordo Ortográfico de 1990 deixou a ortografia intocada.
[Texto 3314]

«Macaréu», de novo

Nada mudou, ou 钱塘江

      «Na China, dezenas de milhares de pessoas concentraram-se nas margens do rio Qiantang para observar um fenómeno natural chamado de [sic] macaréu. Tal como podemos ver nestas imagens, trata-se de uma onda com várias dezenas de metros de largura e que percorre o caudal de um rio a uma velocidade constante. As ondas podem chegar a ter 9 metros de altura» (Jornal do Meio-Dia, 22.09.2013).
      Já tínhamos visto a palavra aqui, no Assim Mesmo. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, continua, infelizmente, aquele espúrio «após ter vencido a força da corrente», mas já os avisei.

[Texto 3313]

Sobre «cinetoscópio»

É pouco

      «À imagem do cinetoscópio com que se iniciou a história do cinema — resumidamente, imagens em movimento dentro de uma pequena caixa escura com um buraco por onde espreitava uma pessoa de cada vez —, a companhia de teatro de marionetas A Tarumba criou, em 2009, os “mironescópios”, caixas escuras com marionetas dentro que contam histórias eróticas (e para maiores de 16 anos). Como um peep-show, só que sem carne humana» («Um peep-show de marionetas pela Europa fora», «Ípsilon»/Público, 20.09.2013, p. 12).
      Vejamos. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «cinetoscópio» é o «aparelho percursor [sic] do cinematógrafo». Bem, parece que se pode dizer muito mais. (Em todos os dicionários de inglês que consultei é peepshow ou peep show que leio.)
[Texto 3312]

«Moto-quatro» ou «moto quatro»?

Eu ligo

      «Salvu Vella, 61 anos, chega à torre de Santa Maria, na ilha de Comino, cavalgando numa moto-quatro. É a mesma torre onde o realizador Kevin Reynolds filmou uma adaptação do romance O Conde de Monte Cristo, em 2002. Salvu chega à hora combinada. Veste um macacão de padrão camuflado e um chapéu cinzento — indumentária que torna mais fácil distingui-lo de um qualquer turista» («O homem pós-moderno da ilha não deserta», Fábio Monteiro, «Fugas»/Público, 21.09.2013, p. 12).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o sem hífen, «moto quatro», mas creio que é melhor com hífen.
[Texto 3311]

Léxico: «circanual»

Há quarenta anos

      Muita gente (mas sempre menos do que se possa pensar) conhece o conceito e a palavra circadiano: relativo à duração de 24 horas ou um dia; em fisiologia, diz-se do ciclo biológico de aproximadamente 24 horas. Os médicos, porém, usam, em relação a outros fenómenos (as enxaquecas em salvas, por exemplo), outro termo, que não está nos nossos dicionários: circanual. Está nos dicionários de língua inglesa: «noting or pertaining to a biological activity or cycle that recurs yearly».
[Texto 3310]

«Ruptura», um caso triste

Mas este é o pior

      Aquele jornalista disfarçado não pôs o dedo na ferida, não senhor: sou mesmo contra o Acordo Ortográfico de 1990. Mas temos de usar a cabeça. E já fiz mais do que muitos contra o AO: a minha opinião foi, em alguns casos, decisiva para não se adoptarem as novas regras ortográficas, além de todo o meu continuado labor de divulgação. Vamos lá ver: faz algum sentido afirmar, como se lê por todo o lado, que, em relação ao vocábulo «ruptura», se inventou uma terceira variante? Porque havia de ser logo neste caso que o princípio fonético ia ceder em favor do princípio histórico-etimológico? Porque é que só em relação a este caso aduzem o argumento de que houve «esquecimento das raízes das palavras», pois «ruto» não existe em português? Há muito por onde atacar o AO, a começar na necessidade e na oportunidade, não percam tempo com invencionices apalermadas.
[Texto 3309]

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