«Aporte», um galicismo

Seria menos um

      Já que andamos, nos últimos tempos, a falar tanto de termos médicos, não podemos substituir o galicismo aporte, em frases como «o aporte de oxigénio às células cerebrais», por termo genuinamente português?
[Texto 3308]

«Hemorróide/hemorróida»

Contra o AO

      «Em Junho e Julho pode apanhar folhas de figueira sãs, secá-las à sombra e depois pode utilizá-las para fazer infusões, às quais são reconhecidas propriedades anti-helmínticas, e são também usadas no tratamento de dermatites e hemorroides» («Estamos em tempo de figos», José Alberto Pereira, «Fugas»/Público, 21.09.2013, p. 31).
      Têm de dizer ao autor, engenheiro agrícola e professor universitário, que o Público não adoptou ainda (nunca?) o Acordo Ortográfico de 1990 (por vezes, nem o de 1945), para ele escrever «hemorróides», assim, com acento. Digam-lhe também que é «anticarcinogénicas» que se escreve. Não lhe digam, mas fiquem a saber que o termo «hemorróidas» (ou «hemorróides») designa propriamente os vasos sanguíneos que existem na porção terminal do recto e do ânus, e que talvez só por facilidade usamos para referir a dilatação varicosa das veias do plexo hemorroidário, acompanhada de edema e inflamação.
[Texto 3307]

Léxico: «unífero»

«Poético», lê-se no Aulete

      «Quando os figos crescem em ramos do ano anterior e a sua maturação ocorre pelo final de Junho/início de Julho, são figos lampos; por sua vez, quando frutificam em ramos do ano e a maturação ocorre a partir de Agosto até às primeiras chuvas, são figos vindimos. Há variedades que produzem só um destes tipos (uníferas), enquanto outras produzem figos lampos e vindimos (bíferas)» («Estamos em tempo de figos», José Alberto Pereira, «Fugas»/Público, 21.09.2013, p. 31).
      O adjectivo bífero — que dá flor ou fruto duas vezes no ano — está em todos os dicionários; o adjectivo unífero não está em nenhum.

[Texto 3306]

Ortografia: «megaespaço»

Sem esperança de mudança

      «Os fundadores dos Yotel foram beber à primeira classe da aviação, mas também ao Japão, claro. Agora, preparam-se finalmente para encetar operações na Ásia com um mega-espaço em Singapura, cujas 600 cabines devem abrir em 2018» («Dormir no aeroporto? Num sarcófago, se faz favor», Joana Amaral Cardoso, «Fugas»/Público, 21.09.2013, p. 21).
      Ortografia não é com eles, e especialmente se envolve elementos de formação de palavras. E a existência da analogia escapa-lhes completamente, claro está. E diz-se «os Yotels», sem qualquer dúvida.

[Texto 3305]

Sobre pontuação

O cru e o cozido

      A frase era semelhante a esta — até o nome do autor tinha também hífen. «Tal como ressalta Lévi-Strauss (1964, 48), “le savant n’est pas l’homme qui fournit les vraies réponses, c’est celui qui pose les vraies questions”.» Esperem, está aqui um recado para mim: «Aqui não deve haver vírgula.» Como disse? Tem a certeza disso que está a afirmar? Não, não: trata-se de uma oração subordinada conformativa. O local normal desta oração seria após o verbo da oração principal; como está invertida, é necessária a vírgula. Aliás, pela sua natureza adjunta, é sempre necessário estar entre vírgulas.

[Texto 3304]

Tradução: «work through»

Só falta o verbo

      O original, uma obra de medicina, falava em «work through», que o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora regista: trabalhar sem parar; influenciar, afectar; avançar (em); (problema, situação) lidar com, resolver». O tradutor, contudo, verteu por «perlaborar». Work through é termo da psicologia: «to resolve (a problem, esp an emotional one), by thinking about it repeatedly and hence lessening its intensity either by gaining insight or by becoming bored by it». «Perlaborar», na verdade, não vejo em nenhum dicionário. «Perlaboração» está no Aulete: «Processo pelo qual o psicanalisando integra uma interpretação e supera as resistências que ela suscita; elaboração interpretativa.»

[Texto 3303]

Mais uns quantos que faltam

E por aí fora

      Que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não registe «nutracêutico», nem sequer acho mal. Se já não podemos esperar que Bernardes e Vieira o usem — porque a História vai para a frente e não para trás —, pelo menos devemos aguardar que o conceito estabilize e o vocábulo se use mais. Mas talvez devesse registar, sei lá, «sonofobia», pois que regista muitas outras semelhantes; «hipocalcemia», pois regista «hipercalcemia»; «dermatófito», «hipomagnesemia», «osteopenia» e «xerostomia», porque estão no Dicionário de Termos Médicos e no Vocabulário Ortográfico; «hipocaliemia», já que regista «hipercaliemia»; «hiperuricemia», já que acolhe «hiperglicemia»; «liquor» e «rinifima», pois estão ambos no Dicionário de Termos Médicos.
[Texto 3302]

«Estrato socioeconómico»

E agora um médico

      Pois desta vez foi um médico a escrever o grande disparate: «extracto socioeconómico»! Caramba, será que nunca viu a expressão nem o vocábulo «extracto» num dicionário? Tudo é possível. É estrato socioeconómico, porque se refere aos grupos ou camadas da sociedade. Agora só falta que prescreva o *estrato de alguma planta...
[Texto 3301]

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