«Transportista»?

Boa pergunta

      Podia ser uma pergunta para aqueles concursos para gente muito inteligente: como se chama o dono de uma empresa de transportes — transformista; transportador ou transportista? Um leitor acaba de me mandar uma mensagem: «Meu caro Helder: A revista Ler de Setembro inclui uma pré-publicação do novo romance de Mario Vargas Llosa. Os tradutores chamam “transportista” a uma das personagens, dono de uma empresa de transportes. Acha que isto faz algum sentido?» O original diz que Felícito Yanaqué é «dueño de la Empresa de Transportes Narihualá». Na tradução brasileira lê-se que Felícito Yanaqué é o «dono da Empresa de Transportes Narihualá». Claro que, como não li o original (nem a tradução), não posso saber se é usada também a palavra castelhana transportista, que designa o «que se dedica a hacer transportes». Admitindo que o dono de uma empresa de transportes é isso que faz — por intermédio de outros —, temos em português a palavra transportador — aquele que transporta. Não precisamos de inventar nem de adoptar nenhuma palavra estrangeira. «&*#$#!», respondo eu. «Era o que me parecia, mas como os tradutores são duas pessoas muito conceituadas, fiquei na dúvida», escreve o meu interlocutor. «&*#$#!», repito eu (Asperger, diagnosticaria de novo aquela besta do N.). «E quem terá sido o revisor que deixou passar uma coisa destas?»
[Texto 3292]

Léxico: «dongo»

Ultramar

      O general Óscar Carmona, na sua segunda viagem ao Ultramar, em 1939, visitou Cabo Verde, São Tomé, Moçambique e a África do Sul. Já no regresso a Lisboa, fez escala em Luanda, onde foi recebido por uma flotilha de dongos e assistiu ao primeiro festival da Mocidade Portuguesa de Angola, no Estádio dos Coqueiros.
      Encontramo-la no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «embarcação tradicional africana, constituída por um tronco de árvore comprido, inteiriço e escavado, manobrado com pás (excepcionalmente com velas) e usado na pesca e no transporte de pessoas e mercadorias».
[Texto 3291]

Léxico: «nautismo»

E esta nunca

      «Uma vez por semana, estas turmas passam a ter 90 minutos – metade da carga horária total da disciplina de Educação Física – consagrados ao surf, canoagem, remo ou vela. O repto do pelouro do Desporto da autarquia para se começar bem cedo a promover a “cultura do nautismo” foi dirigido aos agrupamentos escolares» («Mais de 650 alunos de escolas de Viana vão ter aulas de desportos náuticos», Andrea Cruz, Público, 13.09.2013, p. 16).
[Texto 3290]

Léxico: «extralectivo»

Muito poucas vezes

      «Este ano lectivo arranca com uma novidade em Viana do Castelo: mais de 650 alunos de sete escolas do concelho vão ter, por decisão dos respectivos agrupamentos, os desportos náuticos incluídos no plano curricular ou disponíveis como actividade extralectiva» («Mais de 650 alunos de escolas de Viana vão ter aulas de desportos náuticos», Andrea Cruz, Público, 13.09.2013, p. 16).
      Lê-se, é verdade, aqui e ali, mas muito poucas vezes, ao contrário de «extracurricular», só parcialmente sinónimo. E os dicionários ainda não a registam.
[Texto 3289]

Tradução: «enjeu»

Impressionante

      Quem é que não ouviu já falar nas implicações filosóficas (ou outras) disto ou daquilo? É por isso com estranheza que se vê, num tradutor experiente, enjeux philosophiques duas vezes vertido por «paradas filosóficas». Tudo originado por aquela pecha, mais vista nos novatos e nos medíocres, de se ficarem pela primeira acepção dos dicionários. No Dicionário Francês-Português da Porto Editora, por exemplo, enjeu é «(jogo) parada»; (competição) o que está em jogo; figurado: implicação».
      «Não pretendendo focar as implicações filosóficas ou estritamente linguísticas do problema, tentarei apenas colocar-me, através da dúvida essencial e eficaz do fantástico, na complexa convergência da literariedade» (Metamorfoses do Fantástico na Obra de José Régio, Duarte Faria. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1977, p. 21).
[Texto 3288]

«Tampa/tampo»

A ser assim, indiferente

      «Caetano Alves bateu com a cara em cheio na tampa do caixão cintado de ferro» (A Filha do Doutor Negro, Camilo Castelo Branco. Lisboa: Livrarias de Campos, Júnior, 2.ª ed., s/d, p. 203). É assim que sempre ouvi e li, mas o tradutor verteu couvercle du cercueil por «tampo do caixão». No entanto, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, tampa é a «peça móvel com que se tapa ou cobre um recipiente ou caixa», e tampo a «cobertura de recipientes grandes (arca, mala, etc.)». Ora, a ser assim, facilmente podíamos incluir neste etc. «caixão».
[Texto 3287]

Tradução: «globetrotter»

Com destino e sem destino

      «João Paulo II foi um papa globetrotter», dizia o texto. Bem, não é mentira, mas é triste ter de usar um termo inglês para dizer coisa tão comezinha. Na língua castelhana ficou bem resolvido: trotamundos: «persona aficionada a viajar y recorrer países». Perfeito. Consultamos o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora e que vemos? «viajante incansável». E «vagamundo», serve? Bem, quase: «que ou o que corre o mundo sem finalidade determinada». Enfim, vagabundo. Mas o papa, pelo menos ele, corre o mundo com uma finalidade determinada. Não é muito raro ver a palavra «trota-mundo(s)» em autores brasileiros. «“Sou um trota-mundo” — disse. “Calhou de ser a Irlanda, então, Irlanda! Você vai comigo, Aninha? Antes, quero acabar o seu retrato.” Falava muito nesse retrato, que já tinha começado. E nas viagens que faríamos montados na sua moto» (Os Filhos Pródigos, Lygia Fagundes Telles. São Paulo: Livraria Cultura Editora, 1978, p. 56). Contudo, consultamos o Dicionário Aulete, que regista «trota-mundos», e a definição não é diferente da de «vagamundo»: «indivíduo que anda sem destino, vagueando; andarilho; vagabundo».
[Texto 3286]

Tradução: «bleu de travail»

Ora, não custava nada

      É em França, e os funcionários do cemitério estavam vestidos de bleu de travail. Correu tudo bem, mas é preciso dizer que o Dicionário Francês-Português da Porto Editora ignora a expressão. O Dicionário Português-Francês regista, é verdade, para fato-macaco, bleu; salopette; combinaison. Contudo, todos os cuidados são poucos.
[Texto 3285]

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