Léxico: «agrumelar»

Muito poucas vezes

      É uma tradução portuguesa de uma obra de Umberto Eco, e nela pode ler-se que no Finnegans Wake, de Joyce, «não só o inglês, mas as línguas de todos os povos, reduzidas a um vórtice de fragmentos em liberdade, são recompostas e de novo desfeitas num turbilhão de novos monstros lexicais, que se agrumelam por um instante para depois tornarem a dissolver-se, como numa dança cósmica de átomos, em que a escrita se estilhaça até ao étimo — e não é casual a analogia fónica entre étimo e átomo que induziu Joyce a falar em relação à sua obra de abnihilation of the ethym».
      Não é verbo que se veja muito por aí, este agrumelar. Tão pouco, aliás, como a variante agrumular — coagular em grúmulos. Ainda não foi expulso dos dicionários.

[Texto 3042]

«Off the record»

Isso é que é comunicar

      «A aceitação do off-the-record em declarações de um governante promove a irresponsabilidade do governante e do Governo, aumenta a opacidade da política, reduz a liberdade de imprensa e abre a porta ao tráfico de influências. Que alguém que escreveu um livro intitulado Teoria da Responsabilidade Política não perceba isto, é lamentável» («Pedro Lomba lança programa de irresponsabilidade política», José Vítor Malheiros, Público, 2.07.2013, p. 45).
      Tencionava ver essa primeira aparição (natural e não sobrenatural) de Pedro Lomba, o adjunto do adjunto, mas estava em viagem e não pude. Não o vi assim brandir — ou será «bramir»? — o estandarte da transparência. Vejo que correu mal porque foi pessimamente pensada. Acontece aos melhores.
      Quanto ao que nos interessa aqui: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «off the record». Sem hífenes, portanto. Só como adjectivo é que tem obrigatoriamente hífenes. E José Vítor Malheiros cita incorrectamente o livro de estilo do Público, em que se lê «off the record».

[Texto 3041]

Léxico: «onda de calor»

Cientificamente

      «Para quem se queixava do frio, cá está: Portugal enfrentou na semana passada a sua primeira onda de calor em Junho desde 2009. Em vários pontos do país, a temperatura tem estado mais de cinco graus acima da média há mais de seis dias consecutivos. É isto que qualifica um período como onda de calor meteorológica» («Verão chegou com primeira onda de calor dos últimos quatro anos», Ricardo Garcia, Público, 2.07.2013, p. 15).
[Texto 3040]

Samatra, finalmente

Eles até sabem

      «Os alunos dos 10.º e 11.º anos que no dia 18 de junho fizeram a provam tinham de analisar os sismos que ocorrem na costa oeste da ilha de Samatra. Ora, aí não há sismos, diz o geólogo Fernando Ornelas Marques, que defende a anulação da prova» («Erros põem em causa exame de Geologia», Ana Bela Ferreira, Diário de Notícias, 1.07.2013, p. 16).
      Ora, afinal, sabem que é Samatra, que sempre foi Samatra. Não volto a dizer que são indocíveis. Quanto aos sismos na costa oeste da ilha, era só uma hipótese.
[Texto 3039]

Nem chefias nem lideranças

Escrito na pedra-sabão

      O «escrito na pedra» da edição de ontem do Público era uma frase de Jean de La Bruyère (1645-96): «Os lugares de chefia fazem maiores os grandes homens, e mais pequenos os homens pequenos.» Desconfiei daquela «chefia» em tempos de «liderança». Fiz bem em desconfiar. A frase original é esta: «Les postes éminents rendent les grands hommes encore plus grands et les petits beaucoup plus petits.» Ou seja, o eminente tradutor não precisava para nada nem de «chefias» nem de «lideranças».

[Texto 3038]

«Os Kennedy»?!

Custava tão pouco

      «Seria uma sucessão dinástica — afinal ao jeito dos Kennedy e dos Bush nos Estados Unidos, comentou o conhecido lobbyista Luigi Bisagnani no programa de rádio Un Giorno da Pecora, em que revelou ter havido um jantar na villa de Silvio Berlusconi nos arredores de Milão em que Marina convenceu o seu pai de que ela seria a melhor escolha para dar novo fôlego ao centro-direita italiano» («Depois de Silvio, Marina será o novo rosto da marca política Berlusconi?», Clara Barata, Público, 29.06.2013, p. 22).
      Os plurais dos apelidos continuam errados, não é? Tenho aqui à minha frente As Kennedys ­— sim, lembro-me que já falei nele —, traduzido por Fernanda Pinto Rodrigues (Lisboa: Editorial Minerva, 1971). Segundo parágrafo: «Terá sido uma maldição, a maldição que tem perseguido implacàvelmente todos os Kennedys?» Cara Clara Barata, dou de barato que é como já toda a gente escreve, mas é erro crasso. Emende-se. E «lobbyista» não precisa de ser grafado em itálico. E já está aportuguesado em «lobista», caso não saiba.
[Texto 3037]

«Adesão/aderência»

Vida e linguagem

      «Ora, recentemente, o celebrado economista norte-americano afirmou que “a febre do ouro acabou” e tudo indica que tem razão. Primeiro, as cotações do metal precioso não param de cair. Depois, as bases teóricas que explicam esse movimento parecem ter uma aderência à realidade que é incontestável» («Num cenário de cotações em queda, Roubini diz que febre do ouro acabou», José Manuel Rocha, Público, 30.06.2013, p. 20).
      Há muitas confusões no uso destas palavras, parcialmente sinónimas: adesão e aderência. Neste caso concretamente, não é de ligação de superfícies que falamos. Desta preciso em dois tacos que estive esta manhã a colar com UHU, «fixação sem pregos de sancas e rodapés». «Agora com 300 g», que comprei por 4,60 nas Ferragens e Drogaria da Torre, ali na Joaquim Ereira.
      «A felicidade possível ou, o que é mais exacto, os momentos de felicidade na vida humana, só podem encontrar-se, também, nessa absorção do imediato, na adesão à realidade próxima» (Vida e Literatura, Pedro de Moura e Sá. Lisboa: Livraria Bertrand, 1960, p. 346).
[Texto 3036]

«Tevê» e «TV»

Ora esta

      Apesar de ver a palavra de norte a sul do País inscrita nas portas de casas de banho, não estranho nem me rala nada que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não registe a abreviatura WC (ou W. C.). Acho é estranho que não acolha TV nem tevê.
[Texto 3035]

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