«Ítalo-americano», «ítalo-congolesa»

Não lhes chegou a notícia

      «A máfia “convence” o patrão de um grande estúdio de Hollywood a dar um papel importante na fita que está a preparar a um cantor italo-americano na mó de baixo, pondo na cama daquele a cabeça ensanguentada do seu cavalo favorito» («O filme que relançou a carreira de Frank Sinatra», Eurico de Barros, Diário de Notícias, 14.06.2013, p. 46).
      «Uma deputada regional da Liga Norte apelou ontem à violação da ministra da Integração italiana, a italo-congolesa Cécile Kyenge, causando a indignação entre a classe política do país e levando à sua expulsão do partido anti-imigração» («Eleita da Liga Norte apela a “violar” ministra», Eurico de Barros, Diário de Notícias, 14.06.2013, p. 27).
[Texto 2973]

«Malícia» e «milícia», de novo

Bem me parecia

      «Parece que, no caso de “Aquele único exemplar”, a variante mais significativa se encontra no verso 10 da ode: em grafia actualizada, “No soberbo exercício da malícia”, onde, nas versões conhecidas, se pode ler “No soberbo exercício da milícia”. E vejo surgir uma proposta de leitura no sentido de que a versão agora revelada quereria dizer “no soberbo exercício da medicina ou do tratamento do mal”.
      Não me parece que se possa ir por aí. Camões refere-se a Aquiles, ensinado pelo centauro Quíron (a quem o poeta mais adiante chama “semiviro”) tanto nas artes da medicina como nas artes da guerra. Aquiles (sempre actualizando a grafia) “Não menos ensinado/ Foi nas ervas, e médica notícia,/ Que destro e costumado/ No soberbo exercício da milícia./ Assi que as mãos, que a tantos morte deram/ Também a muitos vida dar puderam”.
      A estrutura da caracterização da aprendizagem de Aquiles é dupla e como tal explorada em paralelo. O sentido da comparação desaparecia se lêssemos “malícia” como correspondendo a medicina ou tratamento do mal. Aquiles teria então sido ensinado tanto nas ervas e médica notícia como no exercício da medicina... E a estética do poema ficaria coxa de todo em passagem de tão inábil redundância...» («O soberbo exercício da malícia?», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 12.06.2013, p. 54).

[Texto 2966]

«Malícia» e «melícia»

Também camoniano

      «A alteração das palavras é “malícia” por “melícia”, “mas ambas podem fazer sentido, porque se fala de um deus guerreiro que curava e que era chefe de guerra, ora era perito em melícia como militar e em malícia no sentido de curar o mal”, explicou o historiador [João Alves Dias]» («Inédito de Camões na exposição que celebra os 450 anos da sua obra», Público, 9.06.2013, p. 36).
      Não será demasiado forçada esta interpretação? De um mero lapsus calami do pobre copista erige-se uma tese. E esta dissimilação está atestada? É que actualmente, «melícia» é apenas uma espécie de morcela doce (mel + ícia) feita com amêndoas doces, banha de porco, canela, mel, etc.

[Texto 2947]

Ortografia: «interétnico»

Com elementos de formação, cuidado

      «Em 1960 grava os primeiros discos de 45 rotações, sob o nome de Eddie Salem, uma vaga proposta inter-étnica que misturava sons do Mediterrâneo e que não chega para fazer história» («O vagabundo das canções de paz», Viriato Teles, «Q»/Diário de Notícias, 1.06.2013, p. 20).
      Só há uma maneira — seja lá qual for o acordo ortográfico — de escrever esta palavra, e não é desta.

[Texto 2908]

Léxico: «superlua»

Ou perigeu


      «Nesse dia [23 de Junho] vai ser possível contemplar a maior e mais brilhante lua cheia do ano, que vai ser entre 14% maior e 30% mais brilhante do que o habitual. [...] Se a meteorologia ajudar e não houver nuvens a cobrir o horizonte, será motivo para vir à janela espreitar a superlua, como é conhecido este fenómeno» («Maior e mais brilhante lua do ano a 23 de junho», Ana Bela Ferreira, Diário de Notícias, 29.05.2013, p. 27).
      Superlua ou, como é mais conhecido, perigeu. Mas poderá ver-se se não houver nuvens no horizonte ou no céu?
[Texto 2899]

Um toque de italiano

O sabor seria o mesmo

      «Mario De Biasi foi o grande repórter fotográfico do levantamento de Budapeste, em 1956, mas foi outra foto sua que me ficou estampada na memória. De Biasi é o autor da foto que teve o mesmo papel das alcachofras alla giudia, os contos de amores difíceis de Italo Calvino e as cores velhas de Roma – o de formar a minha ideia de Itália» («Olhares em vias de extinção», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 29.05.2013, p. 56).
      Até na poesia de Jorge de Sena há alcachofras à judia. Porquê só umas tinturas de italiano? Já agora, carciofi alla giudia. Ou a frase toda: «De Biasi è l’autore della foto che ha avuto lo stesso ruolo dei carciofi alla giudia, di storie d’amore difficile da Italo Calvino e dei colori vecchi di Roma – per formare la mia idea di Italia.» Ou toda a crónica: «Mario De Biasi è stato il grande fotoreporter della sollevazione di Budapest nel 1956, ma, etc.»
[Texto 2898]

«Retrete à turca»

Já vi, em Portugal

      «No sábado, segundo contou às autoridades, terá dado à luz quando estava na casa de banho, com sanitários à turca (ao nível do chão), tendo o bebé caído» («Bebé retirado com vida de um cano de esgoto», Susana Salvador, Diário de Notícias, 29.05.2013, p. 25).
      «A senhora viu? Espreitou? Não sabia que se chama retrete à turca. Talvez seja mais limpeza, talvez, mas também se entopem. Aquilo é mesmo só pra se fazerem as necessidades. A gente o banho toma-o nos nossos quartos porque às vezes nem lá se pode entrar» (Este Verão o Emigrante là-bas, Olga Gonçalves. Lisboa: Moraes Editora, 1978, p. 135).
[Texto 2897]

«O facto de»

Então, se é assim...

      «Por Charlie Sheen ter delapidado com escândalos o seu patronímico de duas gerações e por os nomes “latinos” serem hoje mais aceites nos EUA, assistimos a este regresso ao passado, oportunista como deve ser para quem está no mercado da fama» («O artista antes conhecido como Sheen», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 28.05.2013, p. 56).
      Estão a ver como Ferreira Fernandes não precisou de usar a muleta «o facto de»? Pois é. Por outro lado, porque há quase sempre outro lado, as aspas em «latinos» eram escusadas. Carlos Estévez não é um nome latino, ou seja, usado num país cuja língua deriva do latim e que foi influenciado pela civilização mediterrânica?
[Texto 2896]

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