Léxico: «redução»

Algo novo

      «A par da crescente adesão ao novo sistema, rapidamente se comprovou também que não seria adaptável aos vinhos de qualidade, sobretudo aos que se destinam ao envelhecimento em garrafa. Além de que mesmo os vinhos mais simples destinados ao consumo imediato apresentavam desagradáveis aromas de redução» («Amorim cria rolha com rosca para ganhar mercado às tampas metálicas», José Augusto Moreira, Público, 18.06.2013, p. 21).
      «Trata-se», pode ler-se aqui, «do fenômeno inverso ao da oxidação. São reações químicas que se desenvolvem em ambientes livres de oxigênio. No caso do vinho, quando se aponta que está “reduzido”, ou com “aroma de redução”, significa que compostos sulfúricos indesejáveis foram produzidos.» Parece ser a 14.ª acepção do verbete no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «(química) processo químico em que o oxigénio é eliminado de um composto».
[Texto 2986]

Inglês, sempre que podem

Já a minha avó dizia

 

      «A Corticeira Amorim e a vidreira americana Owens-Illinois (O-I), líderes mundiais nos respectivos sectores, acabam de apresentar ao mercado global uma solução com a qual pensam acabar com a discussão entre a utilização da tradicional rolha de cortiça ou, em alternativa, das modernas tampas de rosca metálicas (popularizadas pelo termo inglês screwcap) no engarrafamento de vinhos» («Amorim cria rolha com rosca para ganhar mercado às tampas metálicas», José Augusto Moreira, Público, 18.06.2013, p. 21).
      A propósito ou a despropósito, os jornalistas gostam de enfiar um ou dois termos ingleses no meio da prosa que vão produzindo. Salvo melhor opinião, ao leitor não interessa que tampa de rosca se diga screwcap em inglês. Ou é só porque está envolvida uma empresa norte-americana, a Owens-Illinois, aliás, a O-I? Popularizadas, francamente.

[Texto 2985]

Léxico: «cadouço»

Desta vez, foram às origens

      
      Este fim-de-semana, um adolescente de 15 anos morreu afogado na ribeira do Cadouço, no concelho de Loulé. Repórter Helena Figueiras no Telejornal de ontem: «A ribeira do Cadouço nasce a norte de Loulé e passa debaixo da cidade através de um túnel. Com o Verão, o mais certo é secar, mas percebe-se o nome. “Cadouço” quer dizer esconderijo de peixes grande e profundo, uma cavidade no rochedo.»

      Exactamente. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista que cadouço é um regionalismo e significa «escondeijo (de peixes) grande e profundo». Para o dicionário de Cândido de Figueiredo, é o «aloque vasto e fundo». (E «aloque» o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista.) Em castelhano existe cadozo, remoinho que fazem as águas, considerado por alguns autores o étimo do nosso «cadouço».

[Texto 2984]

Tradução: «release»

É deles que tenho pena

      Miguel Soares, jornalista da Antena 1: «Esta notícia [de os serviços de informação britânicos terem espiado os trabalhos da Cimeira do G20 em 2009, realizada em Londres] é libertada, ainda por cima, a poucas horas de o Reino Unido acolher a Cimeira do G8.»
      Como nos dicionários bilingues «soltar, libertar, largar» costuma ser a primeira acepção de to release, vá de largar a asneira. Pobres ouvintes, vão desaprender o pouco que aprenderam.
[Texto 2983]

Léxico: «arquiavô»

Os nossos arquiavôs merecem melhor

      «Mas, por entre as estantes, espreitavam com afectuosa curiosidade retratos de família — desde o retrato a óleo de um arquiavô até o retrato a pastel de uma menina de seus onze anos, com as faces magras sumidas entre catadupas de cabelos louros» (Cinza do Lar, João de Araújo Correia. Régua: Imprensa do Douro Editora, 1970, p. 118).
      Arquiavô: ascendente, antepassado, antigo. Falta, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Não falta na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.
[Texto 2982]

Infeliz verbo «haver»

Nem queremos acreditar

      Sílvia Machado, engenheira da DECO, responsável pela área alimentar, a propósito do bacalhau com natas que afinal tem peixe-caracol: «Nós temos, enquanto DECO, alguma preocupação nesse sentido, dado que, com a crise que se vive, provavelmente haverão mais casos que irão acontecer.»
[Texto 2981]

«Estadio»!

Imitar maus modelos

      Jornalista Carla Costa, no noticiário das 10h00 na Antena 1: «Um estudo revelou recentemente que no primeiro estadio da doença, em 60 % dos casos o Tamafidis é totalmente eficaz; em 40 % das situações, atrasa o desenvolvimento da paramiloidose [doença dos pezinhos].» Como os médicos, vá-se lá saber porquê, falam assim, os jornalistas acham que os devem imitar.
[Texto 2980]

Depois do «ayatollah» o «hodjatolislam»

Quase um curso de Teologia

      «Nascido numa família de opositores ao Xá, Rouhani estudou Teologia em Qom, mas fez o doutoramento em Direito na universidade de Glasgow, na Escócia. Grande apoiante do ayatollah Khomeini, o hodjatolislam – abaixo de ayatollah na hierarquia do clero xiita – chegou a ser preso por criticar o xá e defender os ideias da Revolução Islâmica em 1979» («Um ‘xeque diplomata’ para levar moderação ao Irão», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 16.06.2013, p. 33).
      Hodjatolislam. Esta é nova, pelo menos para mim. Quanto ao mais, a jornalista não sabe bem onde há-de usar as maiúsculas, e por isso nem sempre acerta.
[Texto 2979]

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