«White cube»

Cubo branco

      Vou ter a coragem de ser humilde e admitir: eu não sabia o que era o white cube. Meu Deus. Quer dizer, literalmente, sabia o que era. No âmbito das artes plásticas, porém, remete para o conceito que designa a sala de exposição branca e neutra, cubo branco, onde até as cartelas das obras expostas escasseiam. Mas tem mesmo de estar em inglês?
[Texto 2186]

Sobre «demão»

Sinónimo de «ajuda»

      Sim, «demão» também significa «ajuda». É verdade que as acepções mais usadas e conhecidas são outras: camada de tinta, cal, etc., que se aplica numa superfície e cada uma das vezes que se retoma um trabalho ou um assunto.
      «Aliás, não fosse querer dar uma demão na venda dos livros ao velho camarada e grande amigo Alberto Pratas e Isidro Pacheco que aquele lançamento promovera, não estaria ali» (O Autógrafo, Dias de Melo. Lisboa: Edições Salamandra, 1999, p. 77).
[Texto 2185]

Baiona

Mas a memória

      «Aquilino Ribeiro Machado, que nasceu em Baiona, a cidade do Sul de França onde os pais estavam exilados, a 6 de abril de 1930, vivendo de seguida em Vigo e em Tuy (até o autor de Quando os Lobos Uivam regressar a Portugal, em 1932), licenciou-se em Engenharia Civil e começou a trabalhar na autarquia lisboeta em 1956, passando a diretor de serviços do Gabinete de Estudos e Planeamento do Fundo de Fomento da Habitação em 1969» («Primeiro presidente de Lisboa eleito depois do 25 e Abril», Diário de Notícias, 9.10.2012, p. 24).
      Muito bem — o pior é que se vão esquecer de que escreveram desta forma. Aliás, quase sempre escrevem Bayonne, como nesta notícia de Maio: «Há duas semanas, Valls [ministro do Interior francês], nascido em Espanha e naturalizado francêrs [sic], qualificou a ETA de “terrorista”, mostrando que a mudança política em França não altera este ponto. Oroitz Gurruchaga Gogorza e o seu número dois, Xabier Aramburu, estão em prisão preventiva em Bayonne» («Ministro francês em Madrid após prisão de etarras», Diário de Notícias, 29.05.2012, p. 29).
[Texto 2184]

«Dengue» é do género feminino

Dêem-lhes uso


      Jornalista Filipe Gonçalves, no Telejornal de ontem: «A noite cai em Santa Luzia e a calma contrasta com a agitação causada pelo mosquito. Foi nesta zona que em 2005 apareceram os primeiros casos. Agora é o dengue que tira o sono a muitos residentes.»
      E se os jornalistas consultassem mais amiúde os dicionários, não seria bom? A palavra «dengue», na acepção da doença infecciosa, é do género feminino. Só do género feminino.
[Texto 2183]

«Tratar-se de»

É disso que se trata

      Jornalista João Botas, no Telejornal de ontem: «Nas últimas décadas, as investigações de dois cientistas, um britânico e um japonês, provaram que também as células maduras podem ser reprogramadas e passarem a funcionar como se de células estaminais se tratassem
      Os leitores já não se satisfazem com questões formais, e por isso aqui fica uma substancial. A construção tratar-se de é impessoal, pelo que apenas se conjuga na terceira pessoa do singular. Erro é erro, mas, se é difundido pela comunicação social, é mais grave. E é menos desculpável se quem o dá é jornalista, como é o caso.
[Texto 2182]

Unidades de medida

Têm alternativa

      «O norte-americano David Blaine planeia ficar durante 72 horas de pé, numa plataforma de seis metros de altura, sem comida, e ainda por cima no meio de uma tempestade de relâmpagos artificiais que têm uma potência de um milhão de volts. ‘Electrified: One Million Volts Always On’ é o nome do número de Blaine, que começou na sexta-feira, em Nova Iorque. E, se tudo correr bem, ele ficará assim até ao final do dia de hoje. O ilusionista, de 39 anos, é conhecido por protagonizar truques arriscados em que testa os limites do corpo. Para ficar no meio desta “tempestade elétrica”, Blaine usa um fato de malha metálica, que o impede de levar um choque, tem um sistema de ventilação para respirar e um capacete com um visor especial que o protege da radiação ultravioleta» («72 horas de pé, sob tempestade elétrica», Diário de Notícias, 7.10.2012, p. 42).
      As unidades de medida grafadas em itálico? Hum, não é preciso. E porque não escrevem «vóltio»? «Demasiado rebuscado», li algures. Não me digam. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, no verbete «vóltio», remete para «volt».
[Texto 2181]

Mindanau

Ah, lembraram-se

      «O Governo das Filipinas e os rebeldes da Frente de Libertação Islâmica Moro chegaram ontem a um acordo preliminar de paz, que poderá pôr fim a quatro décadas de conflito. Segundo o acordado, o maior grupo separatista muçulmano renuncia à ideia de independência de Mindanau, em troca de autonomia. Os pormenores têm ainda que ser estabelecidos e sujeitos a referendo, temendo-se que o acordo possa acabar como outros no passado: em nada» («Um acordo de paz nas Filipinas para pôr fim a 40 anos de conflito», Susana Salvador, Diário de Notícias, 8.10.2012, p. 24).
[Texto 2180]

Como se escreve nos jornais

Mil descuidos

      «D. Carlos I – que foi assassinado na Praça do Comércio a 1 de fevereiro de 1908, tal como o príncipe D. Luís Filipe – era um amante das prospeções marítimas na Arrábida, chegando aqui a passar longas temporadas, mesmo contra a oposição da Corte, que estava instalada em Cascais» («Aposentos reais abandonados e a saque em forte de Setúbal», Roberto Dores, Diário de Notícias, 8.10.2012, p. 20).
      Nada de especial, talvez, mas demonstra, mais uma vez, como não há qualquer espécie de revisão neste jornal.
[Texto 2179]

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