Baiona

Mas a memória

      «Aquilino Ribeiro Machado, que nasceu em Baiona, a cidade do Sul de França onde os pais estavam exilados, a 6 de abril de 1930, vivendo de seguida em Vigo e em Tuy (até o autor de Quando os Lobos Uivam regressar a Portugal, em 1932), licenciou-se em Engenharia Civil e começou a trabalhar na autarquia lisboeta em 1956, passando a diretor de serviços do Gabinete de Estudos e Planeamento do Fundo de Fomento da Habitação em 1969» («Primeiro presidente de Lisboa eleito depois do 25 e Abril», Diário de Notícias, 9.10.2012, p. 24).
      Muito bem — o pior é que se vão esquecer de que escreveram desta forma. Aliás, quase sempre escrevem Bayonne, como nesta notícia de Maio: «Há duas semanas, Valls [ministro do Interior francês], nascido em Espanha e naturalizado francêrs [sic], qualificou a ETA de “terrorista”, mostrando que a mudança política em França não altera este ponto. Oroitz Gurruchaga Gogorza e o seu número dois, Xabier Aramburu, estão em prisão preventiva em Bayonne» («Ministro francês em Madrid após prisão de etarras», Diário de Notícias, 29.05.2012, p. 29).
[Texto 2184]

«Dengue» é do género feminino

Dêem-lhes uso


      Jornalista Filipe Gonçalves, no Telejornal de ontem: «A noite cai em Santa Luzia e a calma contrasta com a agitação causada pelo mosquito. Foi nesta zona que em 2005 apareceram os primeiros casos. Agora é o dengue que tira o sono a muitos residentes.»
      E se os jornalistas consultassem mais amiúde os dicionários, não seria bom? A palavra «dengue», na acepção da doença infecciosa, é do género feminino. Só do género feminino.
[Texto 2183]

«Tratar-se de»

É disso que se trata

      Jornalista João Botas, no Telejornal de ontem: «Nas últimas décadas, as investigações de dois cientistas, um britânico e um japonês, provaram que também as células maduras podem ser reprogramadas e passarem a funcionar como se de células estaminais se tratassem
      Os leitores já não se satisfazem com questões formais, e por isso aqui fica uma substancial. A construção tratar-se de é impessoal, pelo que apenas se conjuga na terceira pessoa do singular. Erro é erro, mas, se é difundido pela comunicação social, é mais grave. E é menos desculpável se quem o dá é jornalista, como é o caso.
[Texto 2182]

Unidades de medida

Têm alternativa

      «O norte-americano David Blaine planeia ficar durante 72 horas de pé, numa plataforma de seis metros de altura, sem comida, e ainda por cima no meio de uma tempestade de relâmpagos artificiais que têm uma potência de um milhão de volts. ‘Electrified: One Million Volts Always On’ é o nome do número de Blaine, que começou na sexta-feira, em Nova Iorque. E, se tudo correr bem, ele ficará assim até ao final do dia de hoje. O ilusionista, de 39 anos, é conhecido por protagonizar truques arriscados em que testa os limites do corpo. Para ficar no meio desta “tempestade elétrica”, Blaine usa um fato de malha metálica, que o impede de levar um choque, tem um sistema de ventilação para respirar e um capacete com um visor especial que o protege da radiação ultravioleta» («72 horas de pé, sob tempestade elétrica», Diário de Notícias, 7.10.2012, p. 42).
      As unidades de medida grafadas em itálico? Hum, não é preciso. E porque não escrevem «vóltio»? «Demasiado rebuscado», li algures. Não me digam. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, no verbete «vóltio», remete para «volt».
[Texto 2181]

Mindanau

Ah, lembraram-se

      «O Governo das Filipinas e os rebeldes da Frente de Libertação Islâmica Moro chegaram ontem a um acordo preliminar de paz, que poderá pôr fim a quatro décadas de conflito. Segundo o acordado, o maior grupo separatista muçulmano renuncia à ideia de independência de Mindanau, em troca de autonomia. Os pormenores têm ainda que ser estabelecidos e sujeitos a referendo, temendo-se que o acordo possa acabar como outros no passado: em nada» («Um acordo de paz nas Filipinas para pôr fim a 40 anos de conflito», Susana Salvador, Diário de Notícias, 8.10.2012, p. 24).
[Texto 2180]

Como se escreve nos jornais

Mil descuidos

      «D. Carlos I – que foi assassinado na Praça do Comércio a 1 de fevereiro de 1908, tal como o príncipe D. Luís Filipe – era um amante das prospeções marítimas na Arrábida, chegando aqui a passar longas temporadas, mesmo contra a oposição da Corte, que estava instalada em Cascais» («Aposentos reais abandonados e a saque em forte de Setúbal», Roberto Dores, Diário de Notícias, 8.10.2012, p. 20).
      Nada de especial, talvez, mas demonstra, mais uma vez, como não há qualquer espécie de revisão neste jornal.
[Texto 2179]

Segundo o AOLP90

Já não é assim

      «O grupo parlamentar de Os Verdes questionou o Governo sobre a eventual destruição de dunas em Tróia para criar um novo acesso à praia, revelou ontem o partido. José Luís Ferreira disse ter alguns dados sobre conversações “para tornar a zona urbanizada da Soltróia num condomínio de acesso e uso privado”» («Verdes questionam Governo sobre Tróia», Diário de Notícias, 8.10.2012, p. 12).
      Com a adopção do Acordo Ortográfico de 1990, o topónimo Tróia (e o nome comum «tróia», nome de um antigo jogo que simulava um combate) perde o acento agudo, passando a Troia.
[Texto 2178]

Citem-na, pois

O que vale a Wikipédia

      «Para encontrar dados que antes requeriam horas, hoje está-se à distância de um clique e da Wikipédia. Tempos novos, que precisam de novas cautelas, mas de saberes globais e levezinhos. Ontem, o Times prestou com ironia uma homenagem a essa sabedoria instantânea. Em editorial, o diário londrino escreveu sobre o casamento de Jimmy Wales, o fundador da Wikipédia. O casamento foi ontem, com uma antiga colaboradora de Tony Blair, Kate Garvey. Eles conheceram-se em Davos e Wales terá pedido a um subordinado: “Arranja-me o telefone dela, e não vás à Wikipédia, tem de ser um dado exacto.” Noutra página, o Times volta ao casamento. Entre os 23 milhões de artigos da enciclopédia livre na Net (publicados em 285 línguas), o jornal desencantou o texto dedicado ao próprio Jimmy Wales. Na edição inglesa, o patrão da Wikipédia é dado como indo casar-se “no próximo verão.” Casou-se ontem, em pleno outono. E com outro clique eu fui à edição portuguesa e li que “Wales vive em Sampetersburgo (Florida) com sua esposa Christine e sua filha, Kira”... O Times diz que nas suas memórias o antigo primeiro-ministro Blair elogia muito a noiva de ontem. Quando da zanga pública entre Blair e Gordon Brown, Kate Garvey deu-lhe o melhor dos conselhos: que frente aos jornalistas ele comprasse dois sorvetes e oferecesse um a Gordon. Com um só casamento, ontem o Times expôs-nos o enxoval de meias mentiras com que somos diariamente servidos» («Saberes globais e levezinhos», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 7.10.2012, p. 48).
[Texto 2177]

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