«Queijo da ilha/Ilha»

Sabe sempre bem, contudo

      José Leite de Vasconcelos escreveu «queijo da ilha»; Orlando Ribeiro, «queijo da Ilha». Por antonomásia? A ilha é São Jorge, nos Açores. Leite de Vasconcelos também escreveu que era «conhecido em Lisboa» por queijo da ilha. Aqui, «Lisboa» também estará por «continente»?
[Texto 1977]

«Lava-tudo»?

Bem...

      Se em tira-nódoas temos uma claríssima noção de unidade semântica, lexicalizada, não se poderá dizer o mesmo de lava tudo? Mas talvez não...
[Texto 1976]

Género de «pitão»

Erro recorrente

      «No início dos anos 1970, os habitantes de Miami, na Florida, convenceram-se de que era muito cool ter uma pitão birmanesa em casa. Só que elas crescem...» («Maior pitão da Florida com 5,35 metros», Filomena Naves, Diário de Notícias, 15.08.2012, p. 27). 
      Já vimos mais de uma vez que «pitão» (ou píton), a serpente constritora, é do género masculino. Nem é preciso ser especialista em herpetologia — basta consultar um dicionário. Rebelo Gonçalves, na página 797 do seu Vocabulário da Língua Portuguesa, regista: «pitão, s. m.: género de répteis.» Aliás, seja qual for a acepção, é sempre do género masculino.
      Mas a jornalista continua: «Hoje haverá entre dezenas de milhar e centenas de milhar naquela região — ninguém sabe muito bem.»
[Texto 1975]

É do género masculino

Que droga

      «A jovem chegou, passo apressado, para a visita de sábado de manhã. Era mais uma oportunidade para ver o namorado, detido em prisão preventiva no Estabelecimento Prisional Regional de Leiria, indiciado pelos crimes de tráfico de droga e furto. Combinado previamente ou não, facto é que a mulher de 27 anos levava uma “prenda” para o companheiro: umas gramas de heroína dissimuladas nas cuecas. [...] Eram poucas gramas, não dava para o juiz ser mais duro» («De visita ao namorado com droga nas cuecas», Rute Coelho, Diário de Notícias, 15.08.2012, p. 19).
      Rebelo Gonçalves, na página 506 do seu Vocabulário da Língua Portuguesa: «grama (â), s. m.: peso. Corrente, mas inexacto, o género feminino.»

[Texto 1974]

Assim se exprimem

É o que temos

      «“Fazer novela.” “Ver novela.” “Produzir novela.” A gíria televisiva portuguesa acaba de ser injetada com expressões deste género: as telenovelas referidas no singular, sem artigo a precedê-las e desprovidas do prefixo “tele”. Produtores, atores, jornalistas — é um país inteiro, de repente, a falar à maneira brasileira. Eu ia dizer “a falar brasileiro”, mas travei-me a tempo: de facto, não é uma voragem sintática transatlântica, o que aqui está em causa — nem sequer os esperados primeiros sinais da definitiva brasileirização da língua portuguesa por via da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990. É só mais um sinal de facilitismo, com a conivência dos jornais. É pena» («Um universo em mudança», Joel Neto, Diário de Notícias, 15.08.2012, p. 48).
[Texto 1973]

Como se fala na televisão

Directamente da Festa do Pontal

      Repórter Anselmo Crespo, no Jornal da Noite da SIC: «Não, Miguel Relvas não quer de todo falar com os jornalistas, sobretudo depois de Marcelo Rebelo de Sousa ter sugerido esta semana que Pedro Passos Coelho deveria remodelá-lo numa eventual remodelação a fazer no futuro.» Remodelar, nesta particular acepção, é dar nova organização a, reestruturar. Estão a ver o demiurgo Passos Coelho a fazer isso a Relvas? Relvas, remodelado, só noutra encarnação.
[Texto 1972]

Cagaréus e ceboleiros

E dos obos móis

      «Para chegar à terra de cagaréus e ceboleiros o melhor é o comboio que permite ver logo à chegada a Estação da CP, edifício que em 1916 foi decorado com os azulejos que o tornaram um dos cartões de visita de Aveiro» («A cidade dos canais e dos doces e da arquitetura e...», Miguel Marujo, Diário de Notícias, 14.08.2012, p. 50).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «cagaréu» («designação dada aos pescadores da cidade portuguesa de Aveiro, especialmente aos nascidos na freguesia de Vera Cruz»), mas não regista a acepção de «ceboleiro». E devia, pois claro, porque quem fala em cagaréus não pode deixar de falar em ceboleiros. Proponho a seguinte redacção da acepção:

nome
regionalismo designação dada na cidade de Aveiro ao que se ocupava da cultura em quintais e nos campos

      Este dicionário aventa uma etimologia de cagaréu: de cagar + éu. E então, que adianta isto? Cagar ao léu? Cagaréu é o extremo da ré dos moliceiros e dos mercantéis, «naturalmente pela semelhança com as comuas de assento de tábua, havia-as, quando havia, nas aldeias marinhoas», informa Joaquim Lagoeiro na obra Português sem Mestre, Crónicas Linguísticas.
      Voltando a «ceboleiro». Vejo que a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira regista: «Ceboleiro, s. m. Alcunha que em Aveiro se dá aos moradores da freg. da Glória.»
[Texto 1971]

Plural de «foca-monge»

Monachus monachus

      Aquele era um dos locais de observação das — «focas-monge» ou «focas-monges»? Na Infopédia, é «focas-monges» que se lê, assim como na enciclopédia Portugal Moderno: Fauna (Lisboa: Editora Pomo, 1991, p. 187). Infelizmente, os dicionários não se querem comprometer, e a maioria não dá o plural dos vocábulos registados. Está mal. Pelo menos os que suscitam mais dúvidas deviam estar lá.
[Texto 1970]

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