Samatra/Sumatra

Tudo na mesma


      Isto? «O vulcão Sinanbung, situado no norte da ilha indonésia de Samatra, despertou ontem, ao fim de 400 anos de actividade, levando as autoridades a accionar de imediato os sinais de alerta máximo» («Doze mil fogem de vulcão activo», Pedro Correia, Diário de Notícias, 30.08.2010, p. 21).
      Ou isto? «As autoridades da Indonésia começaram ontem a evacuar 10 mil pessoas por causa da erupção do vulcão Sinanbung, a norte da ilha de Sumatra» («Vulcão provoca retirada de milhares de pessoas», Jornal de Notícias, 30.08.2010, p. 16).

[Post 3835]

Léxico: «ventana»


Palavras ao vento

      Ventāna, ae é só um termo latino hipotético do qual derivou o espanhol ventana. E deste derivou o vocábulo português... ventana. Está bem, este deixou de ser usado em português. E do português venta, cada uma das narinas. Em latim, denominaria o lugar por onde passa o vento, daí vir a designar as janelas e as narinas. Também na nossa língua designou a abertura, nas torres das igrejas, onde se situam os sinos. Ventana e, mais frequentemente, o diminutivo, ventanilha, é o nome que se dá a cada uma das aberturas ou bocas por onde caem as bolas nas mesas de bilhar, como a imagem ilustra. Em inglês, dá-se-lhes o nome, vejam bem a pobreza!, de pocket. What a folly!

[Post 3834]

Sobre gralhas

Gralhas e ciganos


      Tanto no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora como no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, a definição de gralha, essas manchas que desvirtuam e desfeiam tantos textos, não é menos que imprecisa. Não: é errónea. A mais satisfatória é a do Dicionário Houaiss. O jornalista Rui Osório, do Jornal de Notícias, escreveu recentemente um texto em que protestava contra o Governo francês por estar a expulsar os ciganos. E, depois, aconteceu isto: «Alguns leitores do JN online não gostaram do meu protesto e indignaram-se com uma gralha que me escapou. Quis escrever “camião” e saiu-me, calculem!, “caminhão”. Foi o suficiente para que os meus críticos me acusassem de “ignorante” e de “cigano” analfabeto, incapaz da 4.ª classe» («Jornalista fingido de “cigano ignorante”», Rui Osório, Jornal de Notícias, 29.08.2010, p. 24). Ter querido escrever uma palavra e sair outra não é, evidentemente, gralha. Se Rui Osório, que é padre, tivesse sido missionário no Brasil, estaria facilmente explicada a troca. Ter alegado que a 8.ª edição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora (e decerto que a edição para (!) 2011 também) «regista “caminhão” remetendo para “camião”» também não é dos argumentos mais contundentes, pois aquele dicionário regista que é variante usada no Brasil. Os Brasileiros usam «caminhão», mera diferença morfológica, nada ralados com a opinião de Rodrigo de Sá Nogueira. O étimo é o mesmo, o francês camion, mas no Brasil estabeleceu-se, ao que parece, uma curiosa analogia com o vocábulo «caminho»: como aquele veículo é para andar nos caminhos, passou a dizer-se «caminhão». Entre nós, não era nada raro, há vinte e trinta anos, ouvir-se «camion» em vez de «camião», e não seriam decerto só os ciganos analfabetos que falavam assim, mas sem dúvida que seriam os incapazes da 4.ª classe.

[Post 3833]

«Taliban», outra vez

Elogio da sensatez


      «Dezenas de taliban atacam duas bases no Leste do Afeganistão e sofrem 21 mortos» (Jorge Heitor, Público, 29.08.2010, p. 12).
      Já aqui (e aqui) falei desta aberração, e sei que há leitores do Público que mandam mensagens de correio electrónico e cartas à directora em que protestam contra este abastardamento. Pura perda de tempo. Itálico, já sabemos, é recurso que a generalidade dos jornais vai ignorando. Contudo, há sempre pior, como isto: «Ataque a bases da Nato mata 24 rebeldes talibã» (Jornal de Notícias, 29.08.2010, p. 57).


[Post 3832]

Mercados de levante

Elogio do clima


      Decerto que se recorda da questão do mercado de levante. Pois na edição de ontem do Público podia ler-se isto: «Viajando por diversas cidades, procuro — e facilmente encontro — os mercados mais diversos. Mercados permanentes e mercados de levante (que, justamente, se levantam de madrugada e retiram ao fim do dia)» («Os mercados de levante», João Seixas, «Cidades»/Público, 29.08.2010, p. 2). Muito bem explicado, sim senhor. Levantam-se, isto é, são armados (tendas, barracas), montados (bancas), logo de madrugada, e retirados ao início da tarde ou ao fim da noite. O autor do texto, geógrafo urbano, diz-nos que «só nos últimos dois anos, Nova Iorque instalou 50 novos mercados, quase todos de levante», estranha que num país como o nosso, com este clima, não haja mais mercados.

[Post 3831]

Tradução: «ingenio»

Imagem tirada daqui

Engenhar com números


      Ingenio é uma dessas palavras espanholas infinitamente mais ricas na língua que no dicionário, sim, mas, ainda assim, infinitamente mais ricas no Diccionario da Real Academia Española que em qualquer dicionário bilingue. Se eu fosse sentenciador (e parvo, e parvo), até diria: dos que houve, há e haverá. No D. Quixote, ingenio, que aparece 45 vezes, é agudo, maduro, cultivado, felicísimo, boto, corto, seco, sutil, admirable, gran, ruin, desenfadado, buen, resfriado... Abro de novo a tradução de D. Quixote feita por José Bento, que me acompanha por estes dias que me abafam o engenho para obra mais substanciosa, e faço as contas: o tradutor verteu o vocábulo 21 vezes como «engenho», 13 como «inteligência», duas como «esperteza», cinco como «mente», duas como «imaginação», uma como «espírito» e uma como «cérebro». Vamos agora, como leitores usurários, aplanar o trabalho alheio e dizermos que podia ter recorrido a menos palavras, ou mesmo a uma só, como alguns pretendem? Não e não, que os matizes no original também podem, e muitas vezes devem, ser dados por diferentes vocábulos. Que não vamos agora poupar riquezas e esbanjar pobrezas.

[Post 3830]

«Faixa de Gaza»

Já há quem


      Só espero que não tenha sido por acaso, que tanta culpa tem no que acontece de bom e de mau: na revista Notícias Sábado de ontem, num artigo sobre a inauguração de um centro comercial, o Gaza Mall, na faixa de Gaza, a jornalista foi assim mesmo que grafou e como eu recomendei há uns meses: «As notícias internacionais mostram o território da faixa de Gaza isolado, com uma população miserável apanhada no meio da guerra fratricida entre o Hamas e a Autoridade Palestiniana e sujeita ao embargo israelita» («Até a faixa de Gaza já tem um centro comercial», Ana Pago, Notícias Magazine, 28.08.2010, p. 11).

[Post 3829]

«Câmara-ardente» e «primo direito»

Desde quando?


      «Os corpos de mãe e filha serão hoje resgatados por familiares no IML de Aveiro, por volta das 10 horas, seguindo para a igreja matriz de Arcozelo das Maias, onde ficarão em câmara ardente até às 15 horas. Serão sepultados em campa de família, no cemitério local. “Estamos todos de luto. Eram duas almas boas. Os meninos (órfãos de mãe) perderam duas mães”, diz uma prima directa das vítimas» («ADN confirma mãe e filha carbonizadas», Jesus Zing, Jornal de Notícias, 28.08.2010, p. 4).
      Primos há muitos, e direito e directo são palavras divergentes, isso é verdade, mas o que sempre ouvi e li foi primo direito.
      Todos os dicionários que consultei grafam câmara-ardente desta forma, com hífen. E todos os jornais, os bons e os menos bons, assim grafam: «O corpo de Barradas está em câmara-ardente no Palácio das Galveias, em Lisboa, de onde o funeral sai hoje, às 15.00, para o Cemitério do Alto de São João» («No teatro como na vida era um militante de esquerda», M. J. C., Diário de Notícias, 20.11.2009, p. 51). «O corpo do actor está em câmara-ardente hoje, a partir das 17h00, na Basílica da Estrela, em Lisboa» («Actor Luís Zagallo parte aos 69 anos», Sofia Rato, Correio da Manhã, 28.06.2010, p. 41).

[Post 3828]

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