Regência do verbo gostar

Grande ajuda

      Entre os 8,5 milhões de cartas e encomendas que os CTT distribuíram só na véspera de Natal, estarão uns postais já com taxa paga que a magnanimidade desta empresa nos ofertou. «Para quem está longe ou simplesmente para surpreender alguém que gosta, nada melhor que escrever um desejo sentido de Boas Festas.» Assim escrevem eles. Terão pretendido escrever isto: «Para quem está longe ou simplesmente para surpreender alguém que gosta de ser surpreendido»? Ou isto: «Para quem está longe ou simplesmente para surpreender alguém de quem gosta»? Deve ser o princípio de Peter a actuar nos CTT.

Tradução: «catering»

Vão a casa

      Não me parece que estejamos condenados a ter de usar o vocábulo inglês catering, cara Luísa Pinto. Nem são bagatelas. Afinal, também os Franceses, por exemplo, o não usam. Usam traiteur à domicile. Usemos nós «fornecedor de refeições ao domicílio». É comprido? Pois é, mas são palavras portuguesas. E aposto que a comida será igualmente boa.

Tradução: «penny»

Um penny ou um péni?
O digno membro

      De facto, não me parece judicioso traduzir penny por «péni», em especial se no mesmo texto também ocorre o plural da palavra, pence. Se temos, e temos, de escrever «pence», não escrevamos ao lado «péni». E se, para agravar, no mesmo texto, se insinuar a designação para o membro viril — pénis —, os leitores não julgarão que estamos a ser ridiculamente puristas, mas só pela metade? Pence, péni e pénis? Poderá ser uma conjunção fatal.

Léxico contrastivo: «laranja»

Laranjas amargas

      «Uma nova lista com números de celulares e contas bancárias foi apreendida ontem em poder dos detentos do Instituto Penal Paulo Sarasate (IPPS), em Aquiraz, Região Metropolitana. Segundo o supervisor do sistema penal, coronel Taumaturgo Granjeiro, que acompanhou a vistoria, o material seria usado para a prática de golpes como “seqüestro-virtual” e “número premiado”. Segundo ainda o supervisor, a lista será entregue ao Departamento de Inteligência da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) para rastreamento das contas bancárias e dos números telefônicos. A suspeita é que as contas estejam em nomes de “laranjas” e sejam usadas para os depósitos das vítimas dos golpes virtuais» («Lista para a prática de golpes é apreendida no IPPS», Nicolau Araújo, O Povo, 28.12.2007, p. 6). Na definição do Aulete Digital, «laranja» é a «pessoa que serve de intermediária em transacções financeiras fraudulentas, usando o próprio nome para ocultar a identidade de quem a contrata». É uma espécie de testa-de-ferro. Na primeira página, O Povo titula: «Polícia rastreia contas-laranja».
 

Selecção lexical

Erros e exageros

      «O 24horas apurou que foram encontradas no vestuário algumas impressões digitais que podem vir a ser importantes para esclarecer o mistério da identidade do grupo que bateu no jovem prelado de 38 anos, o deixou ao abandono no meio do monte e lhe destruiu o Mercedes» («‘Estava abatido, com o corpo todo dorido’», Pedro Emanuel Santos, 24 Horas, apud Global, 28.12.2007, p. 8). «Prelado»? Mas não é um mero pároco? O Livro de Estilo do Público bem previne: «[…] pode utilizar-se a palavra “prelado” para designar um bispo, nunca para referir um padre». Recorro à definição da Enciclopédia Católica Popular: «(Do lat. = superior). Nome da­do, na antiga sociedade romana, às auto­ri­dades civis. O seu uso entrou na gíria eclesiástica como título dado a quem na Igreja goza de maior autoridade no foro externo: Papa, cardeais, bispos e demais ordinários de lugar e mesmo superiores maiores de institutos, especialmente aba­des e abadessas (preladas). O anterior Código de Direito Canónico redu­ziu o uso deste título aos clérigos com jurisdição ordinária no foro externo e a quan­tos a Santa Sé o tenha concedido como título honorífico. O actual CDC reduz o título de prelado ao ordinário duma prelatura pessoal ou duma pre­la­tura territorial. Na linguagem corren­te, porém, continua a dar-se o nome de p. aos membros do chamado “alto cle­ro”, especialmente cardeais, patriarcas e bispos. Prelazia é a dignidade ou o ofício do p[relado].»
      Por outro lado, não será hiperbólico escrever que o automóvel foi destruído? É que ontem o mesmíssimo Global trazia um artigo do Jornal de Notícias em que se podia ler a legenda à imagem do automóvel do padre: «Uma janela do Mercedes do pároco António Aires foi partida pelos agressores».        
      Em que ficamos?
      E o curso de Português básico para jornalistas do Instituto Camões, já começou?

Regência de emboscar

Gramática e lógica

      «Continuam envoltas em mistério as razões da agressão de que foi vítima o pároco de Alijó, na noite de consoada, supostamente levada a cabo por um grupo de indivíduos que o emboscou, por volta da meia-noite, na estrada de montanha que liga Sanfins do Douro à vila de Alijó» («Padre agredido em silêncio com medo de represálias», Global, 26.12.2007, p. 8). Um grupo de indivíduos que «o emboscou»? Está certa, esta regência? No contexto, está completamente errada. Tal como foi redigida, a frase significa que os indivíduos embrenharam a vítima, o padre, numa zona de boiças, por exemplo. Ou então que o puseram de emboscada. Ora, o que o texto nos afiança é que apenas o deixaram amarrado a uma árvore. A frase saiu semanticamente embostelada, foi o que foi. Por outro lado, se o agredido não fala, como é que se pode afirmar que o silêncio se deve a medo de represálias? Se não fala, o que se diga sobre as razões é mera especulação.

Comunicação

Imagem: http://www.novabiotics.co.uk/
País de p(o)etas

      Prevendo porventura o adiamento da aprovação do Protocolo Modificativo do Acordo Ortográfico, e celebrando o facto, os Portugueses desunharam-se a enviar SMS. Bateram-se todos os recordes: perto de mil milhões de mensagens! É obra. Vão aparecer mais escritores, pela certa. Os CTT também já se apressaram a reclamar um recorde impossível de bater pela concorrência: distribuíram 8,5 milhões de cartas e encomendas só na véspera de Natal. Como uma me chegou precisamente nessa data, tendo a acreditar na estatística.

Léxico contrastivo: «cossoco»

Cossoco é naifa

      «Na madrugada de ontem, mais um preso foi morto no Instituto Penal Paulo Sarasate (IPPS), em Aquiraz. O preso Francisco Bibiano da Silva foi morto a golpes de cossoco (faca artesanal) e golpes de barra de ferro» («Preso é morto a golpes de cossoco», Marcos Cavalcante e Landry Pedrosa, O Povo, 26.12.2007, p. 9). Sim, cossoco, termo da gíria prisional brasileira, é uma arma branca artesanal, feita pelos próprios reclusos.

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