«Torá» ou «Tora»?

Vendo bem

      «Mais tarde, os rabinos e outros eruditos judaicos criticaram os cristãos por usarem livros em códice (ou seja, com cadernos de folhas coladas e uma lombada, como os nossos livros modernos) em vez de usarem livros em rolo. A razão da crítica era que os padres da nova igreja podiam comparar facilmente o que se passava no primeiro e no último livro da Torá, pois bastava saltar de uma página para a outra, coisa que era muito difícil num rolo, por ser necessário enrolar e desenrolar de novo. Os sábios da religião antiga eram por isso submetidos a exercícios de memorização que os adeptos da nova religião poderiam evitar, e por isso os primeiros criticavam os segundos em termos semelhantes ao que usam as pessoas que fazem cálculos de cabeça (ou no papel) em relação às que recorrem à calculadora no telemóvel» («Tela ou janela?», Rui Tavares, Público, 27.11.2013, p. 54).
      Parece coisa simples, mas se soubessem o que é preciso para convencer os autores portugueses a não usarem Torah... Torá é também como eu escrevo, mas o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, e não é o único, regista Tora. No que procederá bem, pois também Rebelo Gonçalves é assim que grafa. Na verdade, assim: Tora. Com uma variante, Toura, que se lê, por exemplo, nas Lendas e Narrativas, de Herculano.
[Texto 3595]

«Enfarte, enfarto, infarto»...

Ficamos doentes

      «Oscar Hijuelos, que morreu no último sábado ao sofrer um infarto enquanto jogava tênis em Manhattan, crava seu lugar na literatura como um autor que soube tratar temas difíceis com leveza» («Obra densa, mas divertida é o legado de Oscar Hijuelos», Thales de Menezes, Folha de S. Paulo, 15.10.2013, p. E4).
      Em Portugal, em relação a esta supina questão nunca nos atrapalhamos: é sempre «enfarte» que usamos. No Brasil, andam embrulhados com três variantes, enfarte, enfarto e infarto. Variantes é como quem diz: para alguns estudiosos brasileiros, só uma delas mata (não sei agora qual). Para outros, as formas «enfarte» e «enfarto» são populares, e «infarto» provavelmente adaptação do inglês infarct. Para outros ainda... Ah, chega.
[Texto 3397]

«Sentenciar» e «comprazer»

À escolha

      «Está a perder o cabelo, como um homem; é verdade, tem a testa devastada dum sujeito idoso: “testa de pensador”, sentenceia em voz baixa» (O Fim da Noite, François Mauriac. Tradução de Cabral do Nascimento. Lisboa: Estúdios Cor, 1957, p. 13). «Teresa representara um bom papel, comprouvera-se nas atitudes tomadas» (idem, ibidem, p. 82).
      Igualmente correctas — meras variantes —, agora optar-se-ia, decerto, por «sentencia» e «comprazera-se».

[Texto 3321]

«Farrobodó» ou «forrobodó»?

Nada de novo

      Alguém me disse que Shyznogud, no Jugular, chamou por mim. Como foi ontem à noite, ainda não correu muito sangue. A questão é simples: «Há cerca de um mês, aquando da instalação de Paulo Portas no Palácio dos Condes de Farrobo, vi surgir na imprensa uma palavra para mim desconhecida: farrobodó. Toda a minha vida disse – e escrevi – forrobodó e estranhei a grafia que foi, amiúde, acompanhada de uma explicação similar à surgida na Visão [...] Não tenho outros dicionários à mão para verificar se esta ausência de “farrobodó” é geral e se há outra etimologia proposta.»
      Comecemos pelo fim: não percamos tempo com a etimologia, matéria não poucas vezes do domínio das suposições e da fantasia. O que se sabe ao certo é que a palavra não era conhecida antes do fim do século XIX. Conheço apenas um dicionário de sinónimos que regista a variante «farrobodó». No entanto, na larga maioria das vezes, foi esta forma que ouvi na boca do falante comum e não faltam exemplos na literatura. Aquilino, por exemplo, talvez não use nunca a variante «forrobodó», mas apenas «farrobodó». Para mim, são verdadeiras variantes, que uso indiferentemente.
[Texto 3271]

Léxico: «hemianopia/hemianopsia»

Nunca como agora

      Pascal de vez em quando pensava que um precipício se lhe abria ali mesmo ao lado da sua mão esquerda, e então puxava uma peça de mobiliário para esse lado. Os contemporâneos brincavam: é l’abîme de Pascal. Tratava-se de uma hemianopia passageira do lado esquerdo. Se consultarmos o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, vemos que só regista a variante hemianopsia. Ora, nunca foi tão fácil enriquecer, corrigir e melhorar os dicionários como no presente.
[Texto 3270]

«Cacatua/catatua»

Aos pares

      «Os ovos apreendidos [no Aeroporto das Portela] agora em Maio não são de arara-jacinta (Anodorhynchus hyacinthinus), mas sim de outra espécie de Psittaciformes, a ordem de aves que inclui papagaios, araras, periquitos, cacatuas e afins» («Ovos de papagaio são o negócio de ouro dos traficantes de animais», Ricardo Garcia, Público, 2.09.2013, p. 12).
      Pode dizer-se de ambas as formas: cacatua ou catatua. Esta provém daquela, com assimilação. Mas é claro que se escreve «Psitaciformes». Já que não usam — como deviam — itálico, que escrevam em português.
[Texto 3263]

«Magrizela/magricela»

Da magreira

      «– Onde pára esse vosso amigo magrizela?, – perguntou Reuben Hearne, dando um puxão ao cinto, ao mesmo tempo que fazia a pergunta com voz resmungona. – Não me serve de nada perder palavras com um par de miúdos...» (Acampamento no Bosque, David Severn. Tradução de José da Natividade Gaspar. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1949, p. 152).
      Hoje em dia, quase só ouço e leio «magricela». Terá contribuído para tal que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora de «magrizela» remeta para «magricela»? Castilho usou magriz (de onde provém «magrizela») e magrizel, mas isso já seria pedir demasiado aos dicionários.
[Texto 3203]

«Nublado/nebulado»

Pouco usado

      «O IPMA indica no site que, para amanhã, haverá ainda registo de céu muito nebulado nas regiões Norte e Centro, até meio da manhã, mas a temperatura mínima irá subir. No sábado, as nuvens vão desaparecer e o IPMA espera “uma pequena subida da temperatura máxima, mais significativa nas regiões do interior e no vale do Tejo”» («Calor regressa na próxima semana», Público, 20.06.2013, p. 11).

[Texto 2992]

«Dissecação/dissecção»

Isto é que é fascismo

      O poeta-cantor, muito conhecido, escreveu «mesa de dissecção». Pré-acordo. O revisor, destes novos, alterou para «dissecação». Normalizou o texto. Isto é que é fascismo.
[Texto 2796]

«Hiperceratose/hiperqueratose»

Essa muleta

      «Oitenta e cinco por cento dos portugueses sofre de doenças dos pés», disse o jornalista João Tomé de Carvalho na edição de ontem do Bom Dia Portugal. Não falta quem afirme que, nestes casos, é indiferente que o verbo fique no singular ou no plural. Não é assim para mim. Não está tudo no plural? Então, o predicado deve ir para o plural, concordando com o sujeito, que também está no plural. Este foi apenas o intróito para a entrada do podologista Pedro Lopes, que tinha um bordão da linguagem menos ouvido agora: usou, em dois minutos, oito «portantos». (Agora espero que, lá por ser podologista, não me queira pisar os calos...) E, por fim, usou, e bem, a palavra «hiperqueratose». O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só regista a variante «hiperceratose».
[Texto 2294]

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