Léxico: «trimodal»

Registe-se


      «De acordo com a mesma fonte, os investigadores testaram pela primeira vez um tratamento trimodal, que combina três ações simultâneas contra o cancro. Para a descoberta, os investigadores recorreram a um medicamento utilizado em quimioterapia (tratamento contra o cancro), o doxorrubicina, com a aplicação, em simultâneo, de duas formas diferentes de calor» («Cientistas testam tratamento mais eficaz contra cancro com menos doses de quimioterapia», Rádio Renascença, 26.03.2026, 1h30).

[Texto 22 699]

Léxico: «agregador»

É muito mais do que isso


      «Na prática, segundo o Grok, isso envolve processar “snippets extensos e caches públicos” que vazam partes grandes do texto; cruzar múltiplas fontes na web que republicam, citam ou indexam trechos longos (buscas avançadas, arquivos, redes sociais, agregadores); e reconstruir o texto integral a partir desses fragmentos distribuídos» («Grok e DeepSeek burlam ‘paywall’ de jornais e acessam conteúdo protegido», Maurício Meireles, Folha de S. Paulo, 27.03.2026, p. A32). 

      Não, não, Porto Editora, «agregador» a significar apenas «que ou o que agrega» é do século XX, e XIX, e XVIII, e... Agora é isto: agregador 1. que ou o que agrega; que reúne elementos dispersos num todo; 2. INFORMÁTICA aplicação ou serviço que recolhe e organiza conteúdos de várias fontes num único ponto de acesso; 3. COMUNICAÇÃO plataforma digital que compila e redistribui conteúdos de terceiros, frequentemente com base em automatização.

[Texto 22 698]

Definição: «padrão-ouro»

Longe dos mínimos


      «La fin de l’étalon-or. L’origine de ce système de garantie en or, qu’on appelle l’étalon-or, remonte au XVIIIe siècle, quand les banques garantissaient la conversion des billets en or sur demande. Ce mécanisme s’est ensuite développé jusqu’au début du XXe siècle. Mais après la Première Guerre mondiale, l’étalon-or est peu à peu abandonné : les Etats ont dû massivement emprunter, notamment pour s'armer, et leurs stocks d’or ne permettent plus de couvrir la monnaie émise» («L’or, de mètre étalon à valeur refuge», Lomig Guillo, Le Figaro, 27.03.2026, p. 47). 

      A definição de «padrão-ouro» da Porto Editora é demasiado vaga e redutora, limita-se a uma genérica «associação» ao ouro, omitindo a paridade oficial, a convertibilidade, o papel das reservas e o enquadramento histórico do sistema: «ECONOMIA sistema monetário em que há uma associação directa do valor da moeda ao valor do ouro; moeda-ouro». Como é que algo tão importante fica reduzido a isto? Assim, proponho ➜ padrão-ouro ECONOMIA sistema monetário em que a unidade monetária corresponde a uma quantidade fixa de ouro, com paridade oficial e convertibilidade nesse metal; regime adoptado por vários países entre o século XIX e o início do século XX e abandonado no início da década de 1970, com o fim da convertibilidade do dólar em ouro.

[Texto 22 697]

Léxico: «foguetada»

Outras faltarão


      O actor Miguel Dias, entrevistado por Rita Roque no Mesa para Dois, na Antena 1, disse que à gargalhada que estoura entre o público quando o actor atira uma graça, uma piada, dá-se em teatro o nome de foguetada. Gíria, sim, e talvez menos conhecida, mas acaso os dicionários acolhem a tão conhecida forma de desejar sorte no teatro — «Muita merda!» —, algum a regista? Não. Estranho país este, em que não se valoriza a língua, o conhecimento, a História. Só não fico na merda por causa disto porque vou em frente.

[Texto 22 696]

Definição: «mosqueteiro»

Um por todos


      «Os restos mortais de Charles de Batz de Castelmore [dito] d’Artagnan, o mosqueteiro mais famoso da história, terão sido encontrados na cidade na cidade de Maastricht, nos Países Baixos. O esqueleto que pertencerá a D’Artagnan foi descoberto diante do altar de uma igreja daquela cidade neerlandesa, anunciaram esta quarta-feira responsáveis religiosos e um arqueólogo» («Restos mortais de D’Artagnan terão sido descobertos», Ricardo Vieira, Rádio Renascença, 25.03.2026, 17h16). 

      Aproveitemos nós, enquanto não se confirma que o ADN é de Charles de Batz de Castelmore d’Artagnan, e melhoremos a definição de ➜ mosqueteiro 1. MILITAR, HISTÓRIA soldado armado de mosquete, activo sobretudo entre os séculos XVI e XVIII, integrado em unidades de infantaria caracterizadas pelo uso de armas de fogo portáteis de alma lisa, frequentemente organizadas em formação com piqueiros; em particular, membro de companhias militares específicas, nomeadamente da guarda real francesa (Mousquetaires du Roi), que constituíam corpos de elite ao serviço directo do soberano; 2. figurado homem que defende com ardor uma causa ou pessoa, com bravura e lealdade, evocando o ideal de camaradagem e heroísmo associado à tradição literária. 

      O que se altera com a nova definição? Duas coisas. Primeira: explicita-se o enquadramento histórico e técnico do termo, incluindo o uso do mosquete, a articulação com piqueiros e a sua inserção em corpos militares específicos, como as companhias de elite da guarda real francesa; segunda: enriquece-se a acepção figurada, incorporando a sua carga cultural e literária, além do sentido genérico de «defensor» ou «paladino».

[Texto 22 695]

Léxico: «calçote»

Foi nosso, perdeu-se


      Outra que nos palmaram, mas que vamos encontrar em vocabulários e dicionários brasileiros: «Assim, a conta do alfaiate, apensa ao inventário, acusa em menos de cinco anos a entrega e débito de vinte e dois pares de calças — não falando em calções de montar e calçotes do menino, seus consertos e arranjos — oito sobrecasacas, oito coletes, etc., quando no espólio figuram apenas uma sobrecasaca e oito pares de calças «muito usadas», sinal que autoriza a supor que não teria grande ingresso naquela casa o algibebe» (O Romance de Camilo, Vol. 1, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 58).

[Texto 22 694]

Léxico: «Folha-de-Figueira»

Em que se fala de Cunhal


      «Des travaux qui montrent également que le folha de figueira, toujours cultivé au Portugal, est le clone d’un plant qui était exploité à Ibiza, au Xle siècle» («L’ADN du pinot noir n’a pas changé depuis Jeanne d’Arc», Denis Delbecq, Le Temps, 25.03.2026, p. 11). 

      É impressionante: só pela leitura de um jornal suíço é que fico a saber que temos uma casta chamada Folha-de-Figueira, que até os nossos dicionários ignoram, isto quando é sinónimo da designação de uma das castas mais conhecidas. E não é uma casta qualquer, como poderão ver. Assim, proponho ➜ Folha-de-Figueira VITICULTURA casta de videira branca portuguesa, também conhecida por Dona-Branca, tradicionalmente cultivada em regiões do interior, integrada no conjunto das variedades autorizadas para produção de vinho em Portugal.

[Texto 22 693]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: A Porto Editora, já o reconheci noutra ocasião, tem razão numa coisa, que é grafar em minúscula o título do verbete em que regista o nome de uma casta, pelo simples facto de normalmente ter várias acepções, desde logo o nome da casta — e este é em maiúscula — e quase sempre o nome do vinho produzido com essa uva. O problema é que não leva até ao fim essa coerência, já que nos verbetes de algumas castas em que só figura o nome da casta e não do vinho — como no de Dona-Branca —, o deixa com minúscula. Com razão ou sem razão, temos de ser coerentes até ao fim. Porque é que Álvaro Cunhal ainda hoje é elogiado?


Definição: «nianja»

A atracção do exótico


      «O lago Malawi, Niassa para os locais e para os moçambicanos (que têm soberania sobre 6400 km2 dos cerca de 30 mil km2 quadrados das suas águas), é o mar de água doce dos malawianos: em chewa ou nianja, uma das línguas faladas no país, Malawi quer dizer “chamas” e terão sido os reflexos no lago do sol a nascer que lhe terão valido o nome» («Malawi, o país-lago: da terra sai pouco e na água começa a escassear», António Rodrigues, Público, 24.03.2026, 22h02). 

      Estes jornalistas nem olham para os dicionários. É atar e pendurar. Podendo optar por Maláui e cheua, não senhor, querem o exotismo. Fazem mal. E ainda não perceberam que o 2 dos km é elevado, é um índice superior. Ou não o sabem fazer. Entretanto, quanto aos dicionários, há larguíssima margem para definir melhor ➜ nianja LINGUÍSTICA língua banta da África Austral, falada sobretudo no Maláui, na Zâmbia e no Norte de Moçambique, estreitamente relacionada com o cheua e frequentemente considerada a mesma língua, sendo «nianja» a designação mais usada em contextos zambianos e moçambicanos e «cheua» a mais corrente no Maláui.

[Texto 22 692]

Arquivo do blogue