Como se escreve por aí

E sem revisor para corrigir...


      «Seguro despediu-se ontem de Lisboa, hoje termina a campanha no Porto. Domingo, é preciso que o país saia para votar e essa é a única equação que as sondagens não conseguem responder» («Seguro», Luís Osório, Diário de Notícias, 6.02.3036, p. 4).

      Com construções assim menos óbvias, menos habituais, a probabilidade de as frases estarem correctas não é muito alta. Então não se responde a alguém ou a alguma coisa? Quanto ao conhecimento da regência verbal, estamos conversados.

[Texto 22 402]

O verbo «colocar», consagrado pela ignorância

Voltemos aos temas de sempre


      Batemos no fundo: às 8h00 da manhã de sexta-feira passada, já a repórter Nadine Soares, da Rádio Observador, estava à porta do Pavilhão Municipal de Santarém, onde tinham pernoitado 37 pessoas desalojadas por causa das intempéries. A repórter estava só à espera para poder falar com a enfermeira voluntária Vanessa Domingos, «que colocou férias» para poder estar ali a acompanhar as pessoas, a ajudar. Aliás, não só ela, «outros colegas colocaram férias» para fazer o mesmo. Quando, no caso, até se usam dois verbos, pôr e meter, achou que «colocar» era o verbo mais adequado. Numa rádio que atribui diariamente, a propósito de tudo e de nada, notas de 0 a 20 — e Cristo só escapou porque não é protagonista da actualidade — dou-lhe 0, porque é inadmissível que uma profissional da comunicação social se exprima assim.

[Texto 22 401]

Definição: «chita-do-noroeste-africano»

Vamos actualizar os dados


      «Genomic data of these specimens showed the presence of two subspecies, the Asiatic cheetah (A. j. venaticus) and the north-western African cheetah (A. j. hecki, neither of which occur in the Arabian Peninsula any more» («Could the near-extinct Asiatic cheetah rewild Saudi Arabia?», Divya Gandhi, The Hindu, 5.02.2026, p. II). 

      Assim, vamos actualizar também a definição de ➜ chita-do-noroeste-africano ZOOLOGIA (Acinonyx jubatus hecki) subespécie de chita em perigo crítico, outrora distribuída por regiões do Sahel e do Magrebe, hoje com uma população residual e fragmentada em países como o Níger, o Chade e a Argélia; distingue-se por ligeiras variações morfológicas e pela pelagem mais esbatida.

[Texto 22 400]

Léxico: «exolua»

Vamos ver se não perdemos o comboio


      «Dans notre propre Système solaire, les lunes pullulent: rien que Saturne en compte plus de 230! Mais alors que les astronomes ont déjà répertorié plus de 6200 exoplanètes, le tableau de chasse reste désespérément vide dès que l’on cherche leurs satellites. A ce jour, seules quatre détections potentielles d’exolunes ont été rapportées, et aucune n'a encore été confirmée de manière définitive. Une étude parue en janvier dans Astronomy & Astrophysics présente un nouveau candidat à ce titre» («Une exolune enfin à portée de télescope», Évrard-Ouicem Eljaouhari, Le Temps, 11.02.2026, p. 12). 

      Com que então, pensavam que só havia exoplanetas... Pois não, pelo que proponho ➜ exolua ASTRONOMIA satélite natural que não pertence ao Sistema Solar, uma vez que orbita um exoplaneta, isto é, um planeta situado fora do Sistema Solar; por extensão, designação proposta para objectos de massa comparável à de uma lua que orbitam outros corpos extra-solares, como anãs castanhas, cuja existência é inferida sobretudo por métodos indirectos, como o trânsito, a astrometria ou a análise de perturbações gravitacionais.

[Texto 22 399]

Léxico: «carpintaria»

Eu sei: parece mentira


      «Às empresas candidatas pede-se que tenham experiência em alvenarias, rebocos e assentamento de cantarias, tratem estuques, pinturas e outros revestimentos, bem como carpintarias» («Fachada da Capela das Almas vai ser restaurada», Bernardo R. Monteiro, Jornal de Notícias, 10.02.2026, p. 8).

      Pelo que vejo, não é acepção que esteja no dicionário da Porto Editora, por mais surpreendente que isto seja: «oficina, trabalho ou ofício de carpinteiro». Claro o que é claro é no Houaiss: «1 ofício de carpinteiro; 2 obra de carpinteiro; 3 oficina em que se realizam trabalhos de carpintaria; 4 teat estrutura básica ou linhas gerais de sustentação dramática de uma peça teatral; 5 p.ext. arranjo das partes; estrutura, organização ‹a carpintaria do livro›».

[Texto 22 398]

Etimologia: «cientista»

Muito gratos, não haja dúvida


      «Hasta 1834, quienes se dedicaban a estudiar la naturaleza y sus leyes recibían el título de “hombres de ciencia”. Ese año, el filósofo William Whewell necesitó una palabra nueva para referirse a una investigadora escocesa cuya obra desbordaba cualquier etiqueta conocida hasta la fecha. La palabra que inventó fue “scientist”, anglicismo para referirse a científico... o científica. La mujer que la inspiró se llamaba Mary Somerville» («Mary Sommerville dio nombre a los científicos», Sonsoles Costero-Quiroga, La Razón, 10.02.2026, p. 50). 

      Do que os nossos lexicógrafos se esquecem. Assim, proponho ➜ do francês scientiste, e este do inglês scientist, termo cunhado em 1833-1834 por William Whewell para designar os praticantes das ciências naturais, em substituição de expressões como man of science; formado por analogia com artist, a partir de scientific (< lat. scientia, «conhecimento»).

[Texto 22 397]

Léxico: «afilamento»

Só a acepção metrológica?


      «Os agentes entreolharam‑se, mais confusos que nunca. Phyllis e Ruth partilhavam um certo afilamento do rosto» («Um dos capítulos de Compromisso de Long Island, de Taffy Brodesser-Akner», Público, 10.02.2026, 16h05).

      É fatal — e justo — que o leitor conclua que é o dicionário da Porto Editora que está a ver mal as coisas: «ato ou efeito de afilar, de cotejar pesos ou medidas com os respetivos padrões; aferição». 

[Texto 22 396]

Léxico: «assaltável»

Dá jeito tê-lo à mão


      «Assim, os agentes fizeram a Arthur as suas perguntas menos delicadas sobre a família. Essas novas perguntas, claro, tinham a ver com dinheiro. Pois os agentes tinham rondado, sem grande convicção, assuntos de mulheres e acidentes de automóvel e esgotamentos nervosos, quase por uma questão de boa educação, mas bastara‑lhes uma olhadela à casa – a maior num quarteirão de casas extremamente assaltáveis, com o alpendre atrás que se estendia sobre o Estreito de Long Island como se o estreito fosse uma piscina privada, o caminho de acesso curvo, os eletrodomésticos modernos, as casas de banho em mármore, os sofás de veludo, um Jaguar XJ6 (de Ruth) à porta» («Um dos capítulos de Compromisso de Long Island, de Taffy Brodesser-Akner», Público, 10.02.2026, 16h05).

[Texto 22 395]

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