Sobre «Jerónimo»

Professores e índios

      Uma professora de Português escreveu aqui que os seus alunos foram em visita de estudo ao «Mosteiro dos Gerónimos». Assim vai o ensino. Geronimo só o Stilton. Não, o nome do chefe índio devemos escrevê-lo também Jerónimo. Surpreendidos com as técnicas de combate do chefe, os mexicanos que lutavam contra ele exclamavam: «Jerónimo!» Ou seja, invocavam o santo. E assim ficou, mas na realidade o índio chamava-se Gokhlayeh. Ora, tanto em castelhano como em português, o antropónimo escreve-se Jerónimo, com j. Se dice del religioso de la Orden de San Jerónimo. 
[Texto 3001]

Agora até as contas

3000 e contas erradas

      «“O SNS também beneficia em termos de preço cada vez que se recorre a este tipo de alternativa. Uma das soluções orais que há cerca de um ano era fornecida [aos hospitais] a 20 euros por embalagem, o laboratório militar fornece agora por três euros, menos 80% do preço”, exemplificou o ministro da Saúde» («O laboratório que já produz remédios em falta no País», Diário de Notícias, 18.06.2013, p. 24).
      Hum... Isso é calculado assim por alto, não? Vamos lá ser rigorosos, se faz favor. Divide-se o valor final (3) pelo valor inicial (20), tira-se 1 e multiplica-se por 100. É 85 % e não 80 %. Chumbado.

[Texto 3000]  

«Porque/por que»

Isto é grave

      «“O melhor é pedir a Deus que lhe explique, porque nós não temos explicação”, responde, num impulso, a cirurgiã pediátrica quando questionada sobre como Gilberto Kássimo Silva, 13 anos, sobreviveu com um tiro na cabeça, no dia 1 de janeiro. “Bartolo”, nome porque é conhecido no bairro da Quinta da Fonte (Sacavém), vive já há mais de seis meses com a bala, que lhe entrou pela boca, alojada no tecido muscular encostado às vértebras que ditam a mobilidade dos membros inferiores e superiores» («‘Bartolo’, o ‘imortal’, vive com uma bala na cabeça», Valentina Marcelino, Diário de Notícias, 18.06.2013, p. 12).
      Valentina Marcelino, Valentina Marcelino, então agora é assim que se escreve? Ora veja: «Também nas imediações do Rato (que, ao que se sabe, tirou o nome por que é conhecido não de nenhuma praga de roedores que o tivesse afectado, mas sim de um tal Luís Gomes de Sá e Menezes, por alcunha o Rato, fundador do convento das religiosas da Trindade — as Trinas, como normalmente eram referidas — que se encontrava onde actualmente se ergue a Igreja de N.ª S.ª da Conceição) surgiu o primeiro bairro industrial» (Esta Lisboa, Alice Vieira. Lisboa: Editorial Caminho, 1993, p. 52).
[Texto 2999]

«Hidroponia/aeroponia»

Enxada, já era

      «E, durante as pesquisas sobre as técnicas de produção (“não tínhamos qualquer experiência nesta área agrícola”), descobriu em Espanha o método ideal: a hidroponia (ou aeroponia)» («Quando os morangos crescem suspensos no ar», R. M. S., Diário de Notícias, 18.06.2013, p. 33).
      Pode, creio, ficar-se com a ideia de que são sinónimos, mas não são: a hidroponia, conforme se pode ler no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é o «sistema de cultivo, sem uso de solo, em que as plantas recebem uma solução nutritiva constituída por água pura e nutrientes inorgânicos dissolvidos», e a aeroponia é a «sistema de cultivo com plantas suspensas no ar».
[Texto 2998]

E não «liderou»

Bons e maus exemplos

      Bom: «A professora Patrícia Pina [docente na Escola Profissional de Hotelaria e Turismo de Lisboa], que coordenou uma equipa com mais três pessoas, venceu as Olimpíadas da Criatividade nos Estados Unidos, dedicadas ao estatuto social da mulher» («Portuguesa ganha Olimpíadas da Criatividade nos EUA», Diário de Notícias, 18.06.2013, p. 35).
      Mau: «É motivo de orgulho esta gesta dos portugueses de há quinhentos anos. Mas mais do que nos orgulhar, esse passado deve também inspirar o Portugal do futuro. Não há desafio que um povo determinado, liderado por gente esclarecida, não seja capaz de ultrapassar» (editorial de hoje do Diário de Notícias, p. 6).
[Texto 2997]

Em que se explica o que é «spin-off»

Quem explica?

      «A tecnologia foi divulgada ontem pela QualityPlant, a mais recente spin-off [empresa que resulta de um grupo de investigação] da UC» («Vinhas clonadas: não há desculpa para os “anos maus”», Joana Capucho, Diário de Notícias, 18.06.2013, p. 35).
      Lá explicaram desta vez o termo estrangeiro. Estão no bom caminho. (Joana Capucho, os parênteses rectos são seus? Se é assim, estão errados.)
[Texto 2996]

Léxico: «germoplasma»

À frente dos dicionários

      Então funciona assim: «“O produtor contacta-nos, nós recolhemos as amostras, ficam guardadas num banco de germoplasma, que permite a conservação do património genético das plantas, e, se as plantações forem destruídas por alguma razão, ele recorre ao nosso serviço para replantarmos a área”, explica Elisa Figueiredo, que fundou a empresa QualityPlant com Mónica Zuzarte» («Vinhas clonadas: não há desculpa para os “anos maus”», Joana Capucho, Diário de Notícias, 18.06.2013, p. 35).
      O germoplasma é o conjunto de genótipos de uma espécie vegetal, considerada como um todo. Ainda não está nos dicionários.
[Texto 2995]

Confusões dos jornalistas

Só visto

      «[O padre Lancelote Rodrigues] Estudou Filosofia e Teologia e, após [sic] concluir os estudos, decidiu ser padre aos 22 anos. Foi enviado para Canídrome para cuidar dos refugiados, após o bispo de Macau ter duvidado da sua vocação» («Dedicou a sua vida à missão de ajudar os refugiados em Macau», Diário de Notícias, 18.06.2013, p. 45).
      É só mais uma escorregadela dos jornalistas. Mais ridícula do que outras, porventura. Quando li o necrológio, pensei que fosse um topónimo, até pela ausência de artigo, alguma localidade chinesa. Soou-me bem, assim, de recorte clássico. Na verdade, trata-se do Macau (Yat Yuen) Canidrome Co. Ltd., do Canídromo de Macau! Sim, canídromo, o recinto onde se realizam corridas de cães.
[Texto 2994]

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