«Falsos Palolo»?

Não pode ser

      Há diversos tipos de falta de concordância, de desconcordância. «De qualquer forma, a quantidade de falsos Palolo encontrados aponta para um inundar do mercado onde muitas das falsificações podem ter entrada [sic] há já bastante tempo» («Mais de 300 pinturas falsas de Palolo e Paula Rego apreendidas pela PJ», Vanessa Rato, Público, 25.05.2013, p. 28).
[Texto 2891]

Optar pelo que é nosso

Et cetera

      Por vezes, o melhor seria os tradutores seguirem exactamente algumas das palavras que encontram do original. «In un passo decisivo dell’Etica Nicomachea, etc.» «Questo passo è stato citato innumeravoli volte, etc.» Ou então: trecho, excerto, relanço, lugar, etc. Outras vezes, pelo contrário, o mais acertado era procurarem, não por qualquer sanha persecutória, antes por amor à língua, formas mais vernáculas: «Mi rendo conto di essere forse, etc.» E escolherem algum dos sinónimos de que já falámos: advertir, atentar, cair na conta de, dar conta, dar fé, dar por, dar razão, enxergar, observar, reconhecer, etc.
[Texto 2890]

«Bagagem de cabina»

Tragam a fita métrica

      Então e sabiam que «50 cm por 40 cm e 20 cm é o novo limite que os passageiros da companhia aérea [easyJet] terão de cumprir para a bagagem de cabina»? («EasyJet tem novo limite de tamanho para as malas de cabina», «Liv»/i, 25.05.2013, p. 3).
      Mero pretexto, este, para lembrar que talvez seja mais habitual usar-se «bagagem de mão», que significa o mesmo. Também salta à vista que a frase não saiu lá muito bem.
      «Eles entravam no avião carregados de bagagem de cabina, sentavam-se nos seus lugares com o chapéu preto enfiado na cabeça, comprimiam os sacos e saquinhos, com chouriços e queijos para presentear os familiares que os aguardavam ansiosos num moderno aeroporto dum mundo desconhecido, entre as pernas, e o guarda-chuva no colo» (A Deriva dos Continentes, Clara Pinto Correia. Lisboa: Relógio D’Água, 1997, p. 159).
[Texto 2889]

«No último Censos»!

Agora é assim

      «Carlos Santos é um dos milhão e 200 mil idosos que vivem sozinhos em Portugal. O número foi identificado no último Censos, que mostra que 60% da população idosa vive sozinha ou na companhia de outros idosos» («Isolados. Para lá dos 65 anos há uma luta escondida contra a solidão», Filipe Morais, i, 25.05.2013, p. 18).
      Aqui falei de alguém normal. Mas agora isto é que vai sendo a norma, escrever com flagrantes desconcordâncias.
[Texto 2888]

Como se escreve nos jornais

Como calha

      «Neto de avós portugueses e filho de um shaper [fabricante de pranchas], Henrique parece ter já vindo com destino traçado quando veio ao mundo» («Pedro Henrique. Um surfista contra natura [sic] e um emigrante contra corrente», Beatriz Silva, i, 25.05.2013, p. 53).
      Queixamo-nos do preço dos jornais, mas temos de ver que nos dão a conhecer factos mais ou menos verdadeiros e ainda nos ensinam línguas, sobretudo inglês. Servido como se fosse português, sem aspas nem itálico. E é claro que os parênteses rectos não são os adequados. Pormenores.
[Texto 2887]

«Promotor público»?

Enganou-se, pois então

      «Na década de 30, o promotor público de Nova Iorque, Thomas Dewey, bem tentou passar a certidão de óbito da Máfia. Enganou-se» («Louis Ferrante. Palavra de honra que se aprende com a Máfia», Maria Ramos Silva, «Liv»/i, 25.05.2013, p. 9). Ora escrevem «promotor público», ora «promotor de justiça», como vimos aqui, tudo menos o correcto. Mesmo que seja apenas uma moda, vai deixar marcas.

[Texto 2886]

«Quando mais não seja»

Macaqueando e ensinando

      «Matéria relevante — parece-me — para ser noticiada, quanto mais não seja porque o exemplo de alguém tão conhecido é importante e formativo» («Isaltino e Angelina», Rui Patrício, i, 25.05.2013, p. 14).
      É mais ou menos isso, Sr. Dr. E trago-a aqui porque é matéria relevante — parece-me — para ser tratada, quando mais não seja porque o exemplo de alguém tão conhecido é importante e formativo.

[Texto 2885]

Como se fala por aí

Excessivo

      «Miguel Sousa Tavares já veio admitir ter sido “excessivo”. “É muito simples, eu não tenho nenhuma consideração política pelo professor Cavaco Silva, conforme é público, mas tenho pelo chefe de Estado, seja ele quem for e nesse sentido reconheço que não devia ter dito aquilo”, afirmou à Lusa, qualificando as suas palavras como um “deslize”. “Obviamente que lhe chamei palhaço no sentido político”, ressalvou ao “Expresso”» («Código Penal. “Palhaço”, mas só em sentido político. Será insulto?», Susete Francisco, i, 25.05.2013, p. 32). 
      «Palhaço» em sentido político? E se eu — ou, para ser mais realista, Miguel Sousa Tavares — chamar palhaço a um vizinho, é o quê, em sentido vicinal?
[Texto 2884]

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