Léxico: «élfico | elfo»

Anão? Não


      «Desenhada por Thomas T. Docherty, numa face a moeda apresenta o Anel Único com a icónica inscrição em élfico: “Um Anel para os governar a todos”. Na outra, está o retrato oficial do Rei Carlos III» («Casa da Moeda Real Britânica lança moeda comemorativa dos 25 anos do primeiro filme de “Senhor dos Anéis”, SIC Notícias, 2.05.2026, 8h21).

      Se até a seriíssima Royal Mint se meteu nisto, a coisa é relevante. De facto, se os nossos dicionários já registam «élfico» como adjectivo relativo a elfo, dada a importância universal da obra de Tolkien, bem se podia acolher élfico nome masculino LITERATURA designação genérica das línguas fictícias faladas pelos elfos no universo literário de J. R. R. Tolkien, especialmente o quenya e o sindarin, desenvolvidas com gramática e sistemas de escrita próprios.

[Texto 23 039]

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P. S.: A definição da Porto Editora, ao descrever os elfos como criaturas anãs, acompanha uma tendência presente também em vários dicionários modernos de outras línguas, influenciados sobretudo pelo imaginário folclórico e literário desenvolvido a partir da época moderna. Contudo, os estudos sobre a mitologia nórdica antiga mostram geralmente os elfos (álfar) como seres sobrenaturais associados à luz, à beleza e à magia, distintos dos anões (dvergar). Curiosamente, a literatura fantástica moderna acabaria até por popularizar a imagem de elfos altos e esguios. Reponha-se então a verdade.


Léxico: «banco de horas»

Tens muitos outros


      Como sabem, a reforma laboral prevê a introdução do banco de horas por acordo, com o alegado objectivo de garantir maior flexibilidade na organização do tempo de trabalho. Ora, nós já temos vários bancos nos dicionários, mas não este banco de horas DIREITO DO TRABALHO sistema de organização do tempo de trabalho em que as horas prestadas além do horário normal ficam acumuladas para compensação posterior sob a forma de descanso, férias ou pagamento, dentro dos limites previstos na lei ou em regulamentação colectiva.

[Texto 23 038]

Léxico: «guerra assimétrica»

David contra Golias


      «A utilização destes drones pelo Hezbollah é característica da guerra assimétrica, explicou o investigador do INSS Mizrahi. O grupo tem-se apoiado mais nestes drones, uma mudança em relação às rajadas de rockets que lançou nas semanas iniciais da guerra» («Drones de fibra ótica do Hezbollah desafiam Israel», Jornal de Notícias, 25.05.2026, p. 26, itálicos meus). 

      Deparamo-nos com isto por todo o lado, é estudado nas academias militares, pelo que deve estar nos dicionários. Assim, proponho guerra assimétrica MILITAR conflito armado entre forças com capacidades militares muito desiguais, em que a parte mais fraca recorre frequentemente a tácticas não convencionais, como guerrilha, terrorismo, drones baratos ou ciberataques, para compensar a inferioridade face ao adversário.

[Texto 23 037]

Léxico: «ter boa/má imprensa | imprensa cor-de-rosa»

Porque será?


      «Aníbal Cavaco Silva tem má imprensa, no sentido literal de que a imprensa (ou a comunicação social) não gosta dele. Sempre foi assim: no seu tempo de primeiro-ministro, a imprensa de esquerda (naturalmente) dizia mal dele, mas a de direita, através do então fulgurante Independente, fazia gala de ostentar um anti-cavaquismo [sic] sobranceiro. E as coisas nunca mudaram» («Não dá Cavaco», Luciano Amaral, Correio da Manhã, 25.05.2026, p. 2). 

      Não é tanto ter boa/má imprensa e imprensa cor-de-rosa estarem apenas em dicionários bilingues da Porto Editora que me espanta, mas sim que acolha apenas «imprensa marrom».

[Texto 23 036]

Léxico: «síndrome aerotóxica | aerotóxico»

No sítio errado


      Ouvi na TSF que decorreu ontem em Lisboa, promovida pelo Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil, uma conferência internacional dedicada à qualidade do ar nas cabines de aeronaves comerciais, conhecida no sector pelos chamados «fumes». Nas notícias, mencionarem a síndrome aerotóxica, que fui encontrar no dicionário da Porto Editora, não no verbete «síndrome», onde encontramos muitas (e deviam estar todas, ou a lógica não passará de uma palavra), mas no verbete de «aerotóxico». 

      Assim, proponho síndrome aerotóxica MEDICINA síndrome atribuída à inalação de ar contaminado nas cabinas de aeronaves, geralmente por vapores provenientes de óleos de motor ou fluidos hidráulicos introduzidos no sistema de ventilação, associada a sintomas neurológicos, respiratórios e cognitivos, como cefaleias, tonturas, fadiga, dificuldades de concentração, náuseas e perturbações visuais.

      Quanto ao adjectivo, tão carregado, coitado, submetia-o a este tratamento aerotóxico 1. MEDICINA relativo à síndrome aerotóxica ou à contaminação do ar nas cabinas de aeronaves por substâncias tóxicas; 2. diz-se do ar ou do ambiente da cabine de uma aeronave contaminado por substâncias tóxicas provenientes, geralmente, de óleos de motor ou fluidos hidráulicos.

[Texto 23 035]

Léxico: «joule-segundo»

Acabamos assim


      A correcção da definição de «quilograma» obriga-nos também, é claro, a dicionarizar joule-segundo FÍSICA unidade derivada do Sistema Internacional, de símbolo J·s, correspondente ao produto de um joule por um segundo; usada nomeadamente para exprimir a constante de Planck e outras grandezas físicas associadas à acção ou ao momento angular angularizado sem dimensão rotacional macroscópica explícita.

[Texto 23 034]

Definição: «quilograma»

Mais três que dois


      «Estas coisas topológicas começaram por volta de 1979 ou 1980. Depois, Klaus von Klitzing [Nobel da Física em 1985] descobriu, também como um resultado acidental e inesperado, o efeito quântico de Hall, que é agora a base do sistema de unidades — a medição do quilograma em Paris foi substituída, essencialmente, pelo efeito quântico de Hall [em vez de um artefacto físico como até 2018]» («“Se a inteligência artificial fizer tudo por si, não saberá nada”», Tiago Ramalho, Público, 24.05.2026, pp. 22-23).

      O que Duncan Haldane, aqui entrevistado, está a fazer é a condensar numa frase curta toda a cadeia metrológica moderna. Logo, até se poderia mencionar o efeito quântico de Hall na definição de «quilograma», mas já não seria para um dicionário geral. Seja como for, a actual definição da Porto Editora tem dois erros, qual deles o maior: por um lado, afirma que o valor da constante de Planck é aproximado, quando hoje é exacto por definição; por outro, indica erradamente «joules por segundo», quando deveria dizer «joule-segundo». É que joules por segundo corresponde a potência — isto é, à quantidade de energia transferida ou consumida por segundo — e usa-se sobretudo em contextos como a electricidade, a mecânica ou a engenharia, sendo equivalente ao watt. Na verdade, três erros: o símbolo kg não se grafa em itálico. 

      Assim, proponho quilograma FÍSICA unidade de massa do Sistema Internacional (SI), de símbolo kg; corresponde actualmente à massa definida pela fixação exacta do valor da constante de Planck em 6,62607015 × 10⁻³⁴ joule-segundo, substituindo desde 2019 a definição anterior baseada num protótipo metálico conservado em França.

[Texto 23 033]

Léxico: «farmacodependência | farmacodependente»

Mais duas peças


      «“Sucre et alcool ont une longue histoire commune en recherche”, confirme Mickael Naassila, professeur à l’Université de Picardie Jules Verne et directeur du groupe de recherche sur l’alcool et les pharmacodépendances à l’Inserm» («Le sucre est une sorte d’“alcool sans ivresse”», Soline Roy, Le Matin Dimanche, 24.05.2026, p. 45).

[Texto 23 032]

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