Léxico: «farmacodependência | farmacodependente»

Mais duas peças


      «“Sucre et alcool ont une longue histoire commune en recherche”, confirme Mickael Naassila, professeur à l’Université de Picardie Jules Verne et directeur du groupe de recherche sur l’alcool et les pharmacodépendances à l’Inserm» («Le sucre est une sorte d’“alcool sans ivresse”», Soline Roy, Le Matin Dimanche, 24.05.2026, p. 45).

[Texto 23 032]

Léxico: «vender-se como canela»

Dizia-se isto


      «O transeunte que subia de S. Bento batia com os olhos naquela feira de folhetos, que se vendiam como canela» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 20).

[Texto 23 031]

Definição: «múrex | múrice»

Têm de dizer o mesmo


      «Los decretos se preocuparon, en primer lugar, de establecer y después de mantener un monopolio imperial sobre la producción de sedas destinadas al consumo cortesano, siendo las principales las sedas púrpuras teñidas con murex (un tipo de caracol)» («El poder de la seda: gusanos e imperios», Marisa Bueno, La Razón, 20.05.2026, p. 44). 

      Como é que a Porto Editora diz coisas diferentes — muito diferentes! — em «múrex» e em «múrice», dois sinónimos perfeitos, é que é espantoso. Não tenhamos dúvidas de que é a associação à púrpura imperial que torna o termo culturalmente interessante e aspecto digno de figurar na definição, mas só em «múrice», variante menos conhecida, se refere essa associação. O leitor comum dificilmente consultará «múrex» por interesse taxonómico. Consultá-lo-á por causa da púrpura de Tiro, de Bizâncio, de Roma, da Bíblia, da Antiguidade clássica, etc. Até a etimologia é em «múrice» que está mais completa. O que mais ressalta da análise dos dois verbetes é a desnecessidade de duas acepções, e pela mais óbvia das razões: se na primeira se diz que é a designação comum, na segunda afirmar-se que é «extensiva a outros moluscos gastrópodes marinhos» não faz sentido. É sobretudo uma distinção taxonómica moderna, relevante para zoologia especializada, mas pouco útil para o leitor comum. 

      Tudo visto, proponho assim múrex, múrice ZOOLOGIA designação comum de certos moluscos gastrópodes marinhos da família dos Muricídeos, geralmente de concha espinhosa e longo canal sifonal, de algumas das cujas espécies se extraía, na Antiguidade, a púrpura, valioso corante usado no tingimento de tecidos de luxo e associado ao poder imperial. 

      Quanto à etimologia, diria que vem do latim murex, ĭcis, «múrice», nome de um molusco marinho de que se extraía a púrpura.

[Texto 23 030]

Léxico: «arquetaria | arqueteiro»

Não desprezemos isto


      Não viram mal, não: é mesmo «arquetaria» que escrevi ali atrás. E há aqui uma curiosidade lexicográfica: o dicionário da Porto Editora marca «arquete» como antiquado, mas isso não impede que a família derivacional continue viva ou reactivável em contextos especializados. Acontece frequentemente nos léxicos técnicos. Acontece neste caso, já que vejo publicitados cursos de arquetaria (e até, na verdade, archetaria) no Brasil. Assim, proponho arqueteiro fabricante, reparador ou ajustador de arcos (arquetes) para instrumentos de corda friccionada, como o violino, a viola ou o violoncelo | arquetaria arte, técnica, oficina ou actividade de fabrico, reparação e ajustamento de arcos (arquetes) para instrumentos de corda friccionada.

[Texto 23 029]

Definição: «pau-brasil | brasil»

Muito me contam


      E por pau-brasil... Santo Deus, então esta árvore tem a importância que todos nós conhecemos e está tão pobremente (até desactualizada) definida nos dicionários? Não pode ser. Assim, proponho pau-brasil 1. BOTÂNICA (Paubrasilia echinata [sin. Caesalpinia echinata]) árvore tropical da família das Fabáceas, nativa da Mata Atlântica brasileira, de madeira muito dura, densa e avermelhada, explorada desde o período colonial para extracção de matéria corante vermelha e para marcenaria fina; teve grande importância económica na colonização portuguesa da América do Sul e deu nome ao Brasil; 2. madeira dessa árvore, muito dura, pesada e resistente, usada em marcenaria fina, arquetaria e na extracção de matéria corante vermelha.

[Texto 23 028]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Estranho, estranhíssimo mesmo, é no verbete de «brasil» do dicionário da Porto Editora não encontrarmos o sentido «relativo a brasa» — a origem de tudo!


Assim, 1.º ciclo, 2.º ciclo, secundário, ensino superior

Isto já está


      Vá lá, no Público — nos outros jornais não sei — já perceberam que é assim que se deve escrever, 1.º ciclo, 2.º ciclo, secundário, ensino superior. Mas há alguma razão para ser de outra maneira? Agora só falta convencer os restantes dez milhões de portugueses. Mas essa antevê-se como a parte mais fácil, depois de pôr jornalistas, revisores, editores, professores a escrever como deve ser. Há esperança. «No “limite” da sobrecarga e exaustão, os educadores de infância e os professores do 1.º ciclo vão estar em greve no dia 15 de Junho» («Professores do 1.º ciclo e educadores de infância em greve a 15 de Junho», Cristiana Faria Moreira, Público, 19.05.2026, p. 16). 

      Se estivéssemos no Brasil, porém, ainda teríamos um trabalho suplementar: convencer a galera — incluindo as pessoinhas, que me tinham por inimigo, do Não-Sei-Quê & Gramática, ora extinto — do acerto (entretanto convertido em regra graças ao uso continuado por décadas) do ponto: 1.º e não , que isto são graus, porra. Cá continua, e continuará,  a ver-se muitas vezes sem ponto, mas tal decorre do mero desmazelo e ignorância, não de obstinação pétrea como o pau-brasil.

[Texto 23 027]

Léxico: «irritante»

Não só adjectivo, Porto Editora


      Na SIC Notícias, na terça-feira, o jornalista perguntou a Clara Ferreira Alves se as declarações sobre a disponibilidade de Portugal para a utilização da Base das Lajes poderão tornar-se um irritante entre os dois países. Ora, já andamos a ouvir isto há demasiado tempo, Porto Editora, nada justifica a sua ausência do dicionário.

[Texto 23 026]

Léxico: «concessionante | glifo»

Em que se explica tudo


      «À Transdev compete-lhe também assegurar a manutenção e reparação dos 16 comboios enquanto durar o contrato. Mas o investimento nas oficinas é público e foi feito pelo concessionante» («Liberalização do comboio Marselha–Nice mudou tudo menos a vista», Carlos Cipriano e Ruben Martins, Público, 19.05.2026, p. 26).

[Texto 23 025]

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P. S.: Ainda bem que apareceu aqui isto, e concretamente a palavra «oficinas». Sempre que copio texto do PDF do Público, o glifo fi simplesmente desaparece, ou seja, ao colar o texto, «oficinas» aparece «o cinas». Certo dia, por distracção, não vi e publiquei um texto em que isso aconteceu, mas não, ao que julgo, com este glifo. Lembro-me é de ter sido estupidamente increpado, porque parecia demonstrar que eu não sabia escrever a palavra, por um desses maluquinhos que aqui vinham conspurcar o blogue com comentários chocarreiros, agressivos e inúteis. No caso, um que também é autor de um blogue e que escreve de maneira amalucada e com ortografia desactualizada. Estão a ver quem é? Nunca me lembro do nome do diabo invejoso, graças a Deus. O que acontece é que, para permitir que o texto seja copiável e pesquisável, o PDF inclui uma tabela chamada ToUnicode CMap. Esta tabela tenta mapear cada glifo de volta para caracteres Unicode normais. Quando esta tabela está incompleta ou malfeita (o que é frequente em PDF de impressão), o leitor de PDF não sabe que aquele glifo bonito corresponde a f + i. Resultado: o par fi desaparece completamente ao copiar. Corrigir isto pode ser difícil ou não, depende, mas evidentemente não é prioridade dos jornais, que são feitos para impressão. Chegados aqui, já todos perceberam que os dicionários não acolhem a acepção predominante hoje em dia de glifo INFORMÁTICA, TIPOGRAFIA representação gráfica específica de um ou mais caracteres numa fonte tipográfica ou sistema de escrita digital; inclui letras, símbolos, ligaturas e outros sinais gráficos.


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