Léxico: «concessionante | glifo»

Em que se explica tudo


      «À Transdev compete-lhe também assegurar a manutenção e reparação dos 16 comboios enquanto durar o contrato. Mas o investimento nas oficinas é público e foi feito pelo concessionante» («Liberalização do comboio Marselha–Nice mudou tudo menos a vista», Carlos Cipriano e Ruben Martins, Público, 19.05.2026, p. 26).

[Texto 23 025]

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P. S.: Ainda bem que apareceu aqui isto, e concretamente a palavra «oficinas». Sempre que copio texto do PDF do Público, o glifo fi simplesmente desaparece, ou seja, ao colar o texto, «oficinas» aparece «o cinas». Certo dia, por distracção, não vi e publiquei um texto em que isso aconteceu, mas não, ao que julgo, com este glifo. Lembro-me é de ter sido estupidamente increpado, porque parecia demonstrar que eu não sabia escrever a palavra, por um desses maluquinhos que aqui vinham conspurcar o blogue com comentários chocarreiros, agressivos e inúteis. No caso, um que também é autor de um blogue e que escreve de maneira amalucada e com ortografia desactualizada. Estão a ver quem é? Nunca me lembro do nome do diabo invejoso, graças a Deus. O que acontece é que, para permitir que o texto seja copiável e pesquisável, o PDF inclui uma tabela chamada ToUnicode CMap. Esta tabela tenta mapear cada glifo de volta para caracteres Unicode normais. Quando esta tabela está incompleta ou malfeita (o que é frequente em PDF de impressão), o leitor de PDF não sabe que aquele glifo bonito corresponde a f + i. Resultado: o par fi desaparece completamente ao copiar. Corrigir isto pode ser difícil ou não, depende, mas evidentemente não é prioridade dos jornais, que são feitos para impressão. Chegados aqui, já todos perceberam que os dicionários não acolhem a acepção predominante hoje em dia de glifo INFORMÁTICA, TIPOGRAFIA representação gráfica específica de um ou mais caracteres numa fonte tipográfica ou sistema de escrita digital; inclui letras, símbolos, ligaturas e outros sinais gráficos.


Definição: «ébola»

Conjunto, não só um


      «O Ébola é um conjunto de vírus altamente contagiosos e com taxas de mortalidade altas. Desde que foi detectado pela primeira vez, em 1976, já houve mais de 40 surtos – este é o 17.º surto registado na República Democrática do Congo. [...] Há quatro tipos de vírus do Ébola que podem ser transmitidos a humanos: a do Zaire, a do Sudão, a da Floresta de Tai e a Bundibugyo. Segundo a OMS, é este último o responsável pelo actual surto» («Novo surto de Ébola: o que é a Bundibugyo e porque é uma emergência?», Tiago Ramalho, Público, 19.05.2026, p. 28). 

      Até concordaria que a definição tivesse duas acepções, como faz a Porto Editora, mas precisamente na ordem inversa. Afinal, quando se afirma que se registaram não sei quantos mortos por ébola, a que nos referimos, ao vírus ou à doença? À doença, evidentemente, pelo que é esta a acepção principal. Mais: se é um conjunto de vírus, não podes defini-lo, Porto Editora, como o «vírus causador». Mas termos duas acepções, no caso, pode não ser desnecessário, para maior clareza, pelo que proponho ébola 1. MEDICINA doença infecciosa grave causada por vírus do género Ebolavirus, caracterizada por febre, hemorragias e elevada taxa de mortalidade; 2. [por extensão] designação comum desses vírus.

[Texto 23 024]

Léxico: «colhida»

Se assim é, registe-se


      «Entre Marselha e Nice, as regras por que se rege a concessão são rigorosas. Desde logo, o índice de pontualidade tem de ser de 97,5%, sob pena de a empresa sofrer penalizações. Jean-Pierre Serrus, responsável da empresa no Sul de França, diz que este valor até é superado, já que a pontualidade tem sido de 99%. Mas — hélas! —, na prática, é de apenas 80%. O motivo da diferença é que só contam para o contrato de concessão os atrasos da exclusiva responsabilidade da Transdev. E estes mal chegam a 1%. Os outros devem-se a incidentes externos (por exemplo, colhidas) ou a problemas na infra-estrutura, da responsabilidade do Réseau Ferré de France (a Rede Ferroviária de França, que pertence à SNCF)» («Liberalização do comboio Marselha–Nice mudou tudo menos a vista», Carlos Cipriano e Ruben Martins, Público, 19.05.2026, p. 26). 

      Mais que voient mes yeux ? Des journalistes qui utilisent des termes français. Oh là là ! Voyons maintenant si la partie en portugais est correcte. Tiens, tiens... A imprensa usa sobretudo a construção adjectival/participial: «morreram colhidas por um comboio», «foi colhida por um comboio». Esta substantivação fora do campo tauromáquico estou a vê-la pela primeiríssima vez. Mas admito que possa ser gíria do meio ferroviário, e, se for colhida FERROVIA acto ou ocorrência em que uma pessoa, animal ou veículo é atingido por um comboio; atropelamento ferroviário.

[Texto 23 023]

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P. S.: Não é «Marselha–Nice», mas «Marselha-Nice»: nos encadeamentos vocabulares, é o hífen que se deve usar.


Definição: «moa | maori»

Centenas, não milhões


      «Según la empresa [Colossal Biosciences], esta novedosa tecnología supone “un gran avance” para su programa de desextinción de aves, especialmente para devolver a la vida al moa gigante de la Isla Sur (Nueva Zelanda), un ave no voladora desaparecida hace 600 años tras la llegada de los maoríes de la Polinesia, que la cazaron sin tregua, y la desaparición de su hábitat natural» («Un huevo artificial acelera la vuelta a la vida de especies extintas», Judith de Jorge, ABC, 20.05.2026, p. 56). 

      É pelo menos isto que se tem de dizer na definição, ou quem consulta o dicionário vai pensar que desapareceu há milhões de anos. Assim, proponho moa ORNITOLOGIA designação comum de várias aves não voadoras da família dos Dinornitídeos, outrora endémicas da Nova Zelândia e desaparecidas há cerca de 600 anos, caracterizadas pelo grande porte, patas traseiras robustas e corpo desprovido de asas; algumas espécies ultrapassavam os 3 metros de altura.

[Texto 23 022]

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P. S.: E há toda a vantagem em definir melhor a língua de que provém a palavra «moa», o maori LINGUÍSTICA língua polinésia oriental da família austronésia, falada pelos Maoris da Nova Zelândia, caracterizada pela distinção entre vogais breves e longas; é uma das línguas oficiais do país.


Outro P. S.: A referência à «ausência total de asas» merece talvez alguma cautela, ou uma bicada: os moas conservavam ainda um pequeno escápulo-coracóide vestigial, associado aos membros anteriores, pelo que, em rigor anatómico, Porto Editora, não se tratava de uma ausência absoluta de asas, mas antes de uma redução extrema dessas estruturas. Ou acham que precisamos de consultar o Dr. Vasco Leitão, já que «ele até sabe o que é o mastóideo»?



Como se traduz por aí

É como se vê


      Na quarta-feira vi, na RTP2, o primeiro episódio da série italiana Um Tempo Após Outro (Un’Estate Fa, 2023), de Davide Marengo e Marta Savina. Como envolve linguagem e conceitos jurídicos, a probabilidade de haver erros na tradução era muito alta. Como de facto. Quando Elio Santamaria está na iminência de levar um murro bem assente, de que será salvo in extremis pela intervenção de um traficante de droga, diz: «Articolo 582, percosse volontarie.» Nas legendas, da responsabilidade de Florinda Lopes (assim como a tradução), aparece isto: «Art. 582.: agressões voluntárias.» Não significa rigorosamente nada para o espectador português, não temos tal figura. É verdade, mas irrelevante para a tradução, que a personagem mistura duas figuras penais próximas do direito italiano. Ao citar o artigo 582.º do Código Penal, refere-se na realidade ao crime de lesões pessoais («lesioni personali»), isto é, à produção de danos físicos ou psíquicos noutra pessoa. Contudo, usa a expressão «percosse volontarie», que remete antes para o crime de «percosse» (artigo 581.º), correspondente grosso modo às vias de facto ou agressões sem lesão relevante. A confusão é plausível numa personagem jovem e sob tensão, sobretudo porque ambas as figuras pertencem ao mesmo campo semântico da agressão física. De volta à tradução, havia duas opções: «Artigo 582.º, ofensas à integridade física dolosas.» Ou, mais verosímil perante a situação de tensão e a condição de caloiro de Direito que a personagem seria, assim: «Artigo 582.º, agressão dolosa.» A tradução correcta exige reconhecer que o italiano está a assinalar o dolo e depois encontrar a categoria equivalente no nosso ordenamento, não apenas o correspondente vocabular.

[Texto 23 021]

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P. S.: Mas encontrei mais erros. Como este, ainda menos desculpável: «O fato, inspetor, é que não me lembro de nada daquele verão», diz Elio Santamaria ao inspector Zancan, à saída da missa. Um dia, só semialfabetizados saberão, sem qualquer espécie de hesitação, que se escreve «facto», porque tradutores, jornalistas e outros que ganham a vida a escrever é o que se vê. Mais uma coisa: escreve-se 581.º, não 581., assim amputado. Para onde mando a factura?


Ortografia: «bruaá»

Nós é que ficamos


      «Paulo Pedroso e Francisco Assis, que são do PS, concordam com Rangel e os seus argumentos são claros. Assis insurgiu-se contra uma “retórica infantil e extremista”, enquanto Paulo Pedroso lembrou que Portugal “sempre deu grande latitude” aos EUA na utilização das Lajes, mesmo no tempo dos vários governos do PS (a diferença está no “bruá” e no “alarido” de cada Administração norte-americana no poder, sublinhou o ex-ministro)» («Rangel e a base das Lajes no meio do “bruá”», Helena Pereira, Público, 19.05.2026, p. 6). 

      E logo no editorial... Helena Pereira, consulte dicionários e vocabulários, não vai ficar mais cansada ao fim do dia. Nós é que ficamos quando lemos estes erros. Em português é bruaá, com dois aa, o que se explica pelo étimo, francês, que é brouhaha.

[Texto 23 020]

Léxico: «empoado | empoador»

Porque depois aparecem em livros


      «Luísa abre o leque diante do rosto empoado, desejosa de esconder o rubor das faces.» E que utensílio usou Luísa para empoar o rosto? Ora, um empoador. Para isso, convém termos o instrumento e o adjectivo nos dicionários.

[Texto 23 019]

Definição: «magnetosfera»

E para que serve? Pois


      «Elle visualisera les défenses de la Terre. La mission Smile dont le lancement est prévu ce mardi à 5h52 depuis le centre spatial de Kourou à bord d’une fusée Vega-Cest dédiée à l’étude de la magnétosphère, le puissant bouclier magnétique qui défend notre planète contre les fureurs du Soleil» («Smile, une mission pour filmer le bouclier magnétique de la Terre», Vahé Ter Minassian, Le Temps, 19.05.2026, p. 9). 

      Ora aí está, é precisamente deste aspecto nuclear que a definição da Porto Editora se esquece: «região que envolve um planeta, como é o caso da Terra, em que o seu campo magnético exerce uma influência dominante no controlo dos processos físicos que aí acontecem». Diz apenas que o campo magnético domina os processos físicos «que aí acontecem», mas não explica que processos são esses nem porque existe uma magnetosfera. Assim, proponho magnetosfera ASTRONOMIA região do Espaço em torno de um planeta ou outro corpo celeste em que o campo magnético desse astro domina o comportamento das partículas carregadas, desviando ou aprisionando o vento solar e outras radiações cósmicas.

[Texto 23 018]

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