Léxico: «goticismo»

Qualidade de gótico

      Acabei de ver, creio que pela segunda vez na vida, a palavra «goticismo». Não está em muitos dicionários; não está, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. E, no entanto, encontramo-la nas notas finais de Alexandre Herculano a Eurico, o Presbítero: «O goticismo espanhol, ao primeiro aspecto, parece mover-se.»
[Texto 3391]

Feminino de «xeque»

Temos medo

      «Segundo o New York Times, tudo terá começado com uma visita da xeque Al Mayassa Hamad bin al-Thani, de 30 anos, presidente da Autoridade dos Museus do Qatar e irmã do novo emir, ao estúdio de Damien Hirst em 2009» («Damien Hirst dá à luz novos trabalhos no Qatar», Vítor Belanciano, Público, 15.10.2013, p. 33).
      Pois, é isso que se diz, que a forma masculina «xeque» pode «ser utilizada no feminino com adaptação do artigo ou pronome que acompanha a forma feminina». A imprensa internacional, e mesmo, ocasionalmente, a portuguesa, uso o termo «sheikha», o que, aportuguesado, seria «xeica». Mas não se usa. Ou não usamos nós, pois no Brasil não têm problemas em aportuguesá-lo desta forma.
[Texto 3390]

Sobre «bife»

Sem ofensa

      «Ninguém diz aos jornalistas, claro está, exercita-se o stiff upper lip, o “lábio superior inteiriçado” tão característico dos britânicos (linda metáfora, esta, para o hábito que os “bifes” têm de não deixar transparecer as emoções — em Portugal isto dava uma bela peixeirada)» («O Nobel da Injustiça», João Magueijo, Público, 15.10.2013, p. 31).
      Não precisa das aspas, caro João Magueijo, mesmo que, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, se leia que é termo «antiquado». Ou não quer melindrar os seus anfitriões?
[Texto 3389]

«Tal se»

O nosso poeta

      «Quando falava, era pelo canto da boca, tal se esperasse que as palavras chegassem à senhora Mckisco por um circuito mais desimpedido e rápido» (Terna É a Noite, F. Scott Fitzgerald. Tradução de Cabral do Nascimento. Lisboa: Portugália Editora, 1966, 2.ª ed., p. 18).
      Cabral do Nascimento gosta — já o comprovei em várias traduções — desta construção: tal se...

[Texto 3388]

Parece mentira: «Oxónia»

Depois de Lípsia...

      «— Escute… há tubarões fora da jangada. — Era de nacionalidade indefinida, mas falava inglês com o acento vagaroso e arrastado de Oxónia. — Ontem devoraram dois marinheiros ingleses, da esquadra do Golfo Juan» (Terna É a Noite, F. Scott Fitzgerald. Tradução de Cabral do Nascimento. Lisboa: Portugália Editora, 1966, 2.ª ed., p. 12).
[Texto 3387]

Ortografia: «coeducação»

E já há muito

      «Uma poderosa campanha televisiva – Estão a matar o Colégio Militar! – relançou o tema da co-educação ou, pelo contrário, das escolas separadas por sexo» («A co-educação em questão», Maria Emília Brederode Santos, Público, 14.10.2013, p. 46).
      Há, continua a haver, certa ambiguidade e falta de sistematização das regras sobre esta matéria do uso do hífen, mas creio que em relação a «coeducação» não há dúvidas: é assim que se escreve. Cá está na página 265 do Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves. A ortografia não é tudo, decerto, mas pelo menos eu esperava que uma pessoa que pertence ao Conselho Nacional de Educação, condecorada com a Ordem da Instrução Pública, escrevesse correctamente «coeducação».
[Texto 3386]

«Chapa-branca»

É oficial

      «Para o escritor [Ruy Castro], “esta situação ameaça transformar o Brasil no paraíso da biografia “chapa-branca”, aquela que só é publicada mediante autorização prévia do próprio biografado ou dos seus familiares e representantes legais”» («Escritor Ruy Castro explicou em Frankfurt por que não quer que o Brasil seja o país da biografia “chapa-branca”», Isabel Coutinho, Público, 14.10.2013, p. 29).
      É o relativo ao governo ou a órgãos oficiais. Por extensão de sentido, «oficial». Deriva, parece, do uso de chapas de cor branca, reservadas no Brasil para as autoridades governamentais.
[Texto 3385]

Lei Mosaica

Quem é judeu

      «A questão extravasa, na realidade, o âmbito científico, porque mexe com a própria identidade judaica. Acontece que, segundo a lei rabínica de Israel – ou Lei Mosaica –, é judeu (mesmo que pratique outra religião e mesmo que não o saiba) quem tem uma mãe judia» («Raízes maternas dos judeus da Europa Central são europeias, conclui estudo», Ana Gerschenfeld, Público, 14.10.2013, p. 27).
      Disso mesmo, numa nota marginal, lembrei ainda na passada semana um autor, que escrevia que certa personagem, cuja mãe era judia, era «meio judeu».
[Texto 3384]

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