«Salto», uma acepção

As aspas são uma doença

      «Naquela época, dar o salto para França era uma empreitada dura, arriscada. Construíra casa na aldeia, mais para mostrar aos vizinhos que fizera fortuna, já não era um jornaleiro pobretão» (O Rei do Volfrâmio, Miguel Miranda. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2008, pp. 18-19).
      O autor — não este, outro — quer forçosamente aspas em «salto», na mesma acepção. Porque o pobre leitor pode julgar que é literalmente o acto ou efeito de saltar. Isto é que é confiança na inteligência do leitor.
[Texto 3367]

Léxico: «imunoprevenível»

Avancemos para Angola

      Tenho de ler mais vezes o Jornal de Angola. Ao menos diversifico os erros e os acertos que leio, e o segredo da vida é esse mesmo, a diversidade. E quero ter leitores em Angola, naturalmente. «A febre tifóide, que consta das doenças consideradas epidémicas e imunopreveníveis, causou um óbito, de um total de 2.147 casos registados» («Sarampo provoca mortes», Delfina Victorino, Jornal de Angola, 9.10.2013, p. 38).
      Imunoprevenível significa que é doença que pode ser prevenida com a vacinação. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nunca se avistou com ela. Nem eu, até agora.
[Texto 3366]

Léxico: «matamba»

Resolvido

      «A esposa, a dona de casa é, regra geral, a cozinheira da família. O fungi, preparado à base de farinha de bombó ou milho, constitui a principal dieta alimentar, que é normalmente acompanhado de carne, peixe, matamba (quizaca), mulembwe (quiabo), temperado com ginguba, semente moída de abóbora ou de girassol» («Lumege Cameia transformada em vila moderna», Adão Diogo, Jornal de Angola, 9.10.2013, p. 39).
      Não sei, pareceu-me mal que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registasse «quizaca» e não acolhesse «matamba». Às 9h16 sugeri a inclusão do vocábulo e agora já lá está, para alegria dos Angolanos.
[Texto 3365]

Léxico: «chana»

Isso não é cá

      «O município [de Cameia], tido no passado por celeiro da província, devido às elevadas cifras de produção de arroz, possui chanas em abundância, 25 rios e quatro lagoas, que impulsionam a agricultura e a pesca artesanal» («Lumege Cameia transformada em vila moderna», Adão Diogo, Jornal de Angola, 9.10.2013, p. 39).
      É o nome que se dá em Angola às grandes planícies desprovidas de arvoredo e alagadas na época das chuvas.
[Texto 3364]

«Uma carta adonde»!

Exigem pluralismo

      Armindo Miranda, da Comissão Política do PCP, entrevistado à porta dos Estúdios da Valentim de Carvalho, em Paço de Arcos, enquanto o primeiro-ministro respondia «ao País»: «Vamos entregar uma carta adonde damos a opinião do Partido Comunista Português que não compete ao director de Informação da RTP decidir quem devem ser os próprios governantes do nosso país, os próximos governantes.»

[Texto 3363]

«Por mãos alheiras»!

Aqui mesmo

      Não têm fim os acertos e os desacertos a que podemos assistir na nossa vida. Depois da «faca de dois legumes» de Jaime Pacheco e do «pau de dois gumes» de Nuno Azinheira, eis outro disparate de nos fazer chorar. Ontem, numa reportagem, entrevistavam jovens que estão a aprender a lutar contra o êxodo rural. Em Rio Maior, encontraram Luís, um jovem que está a concluir o mestrado em Psicologia. «Pelo caminho», afirma o repórter, «reinventou o negócio de família.» Demos a palavra ao jovem: «Não quisemos deixar ficar as tradições por mãos alheiras ou quisemos pegar naquilo que nós nos orgulhávamos muito.»
[Texto 3362]

«Quando mais não fosse»

No país da Alice

      «– Não lhe parece então condenável e odioso que uma mulher abandone o marido e dois filhos, para seguir um indivíduo qualquer, sem tão-pouco saber ainda se é digno do seu amor? Pode realmente desculpar um comportamento tão leviano e impensado numa mulher que já não é criança e que devia ter aprendido a respeitar-se, quando mais não fosse, em atenção aos filhos?» (Vinte e Quatro Horas da Vida de Uma Mulher, Stefan Zweig. Tradução de Alice Ogando. Lisboa: Publicações Europa-América, 1972, p. 62).
[Texto 3361]

Iocoama

Porque não é

      «O seu pai estava à frente de uma clínica dentária em Iocoama. Era um homem muito bonito, cujo nariz particularmente bem feito fazia lembrar Gregory Peck em A Casa Encantada» (Sputnik, Meu Amor, Haruki Murakami. Tradução de Maria João Lourenço. Alfragide: Casa das Letras, 2010, 9.ª ed., p. 16).
      Parece pois que, no caso, também ninguém ­— tradutora, revisor (Ayala Monteiro) ou editor — achou ridículo. Porque não é.
[Texto 3360]

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