«Quemose, quemótico...»

E muitos outros

      Assim de repente, vejo que hoppy, waterbrash, chemotic, epiphora, laryngospasm, neurogenic, scotomatous, hypnagogic, diencephalon não estão no Dicionário Inglês-Português da Porto Editora.
      E, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não vejo «mesomórfico», «neurogénico», «escotomatoso»... E também não via «quemose» e «quemótico» — que, todavia, encontro na magnífica Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira —, mas sugeri hoje de manhã a sua inclusão e já estão dicionarizados.
[Texto 3268]

Tradução: «liverish»

Está doente

      A pobre criatura sofria de um «liverish feeling», ou seja, ou seja... Ahn, bem... O tradutor diz que é de um «sentimento hepático». Há-de ser apenas, digo eu, porque para o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora liverish é coloquial e se diz do «doente do fígado; achacado a problemas do fígado». («Achacado a» já vi, é verdade, mas tenho sérias dúvidas que seja correcto.) Não será antes «sentimento irritável» ou «sentimento bilioso»?
[Texto 3267]

Sobre «legista»

Metade de certo

      «Da mesma forma, foram lançadas dúvidas sobre o relatório médico-legal inicial assinado pelos três legistas, incluindo Thomas Noguchi. O legista das estrelas (que autopsiou entre outros os cadáveres de Marilyn Monroe, Robert Kennedy, Janis Joplin e John Belushi) e os seus colegas terão sido negligentes na autópsia?» («Natalie Wood. Um “caso arquivado” em águas agitadas», Sandrine Cabut, Público, 2.09.2013, p. 28).
      Legista, para nós, é somente o especialista em leis; jurisconsulto; jurisperito. O tradutor devia ter escrito médico-legista.
[Texto 3266]

«Tratar-se de»

Nem daqui a trezentos anos

      «As lesões têm entre 1,25 a 5 centímetros de diâmetro. São retiradas amostras de algumas delas para observação ao microscópio, que revela tratarem-se de “hemorragias subcutâneas recentes”, compatíveis, segundo o relatório, com equimoses recentes e superficiais» («Natalie Wood. Um “caso arquivado” em águas agitadas», Sandrine Cabut, Público, 2.09.2013, p. 28).
      Não, nem pensar: «entre 1,25 e 5 centímetros». Perturbado, o tradutor esqueceu-se que a construção tratar-se de é impessoal, pelo que apenas se conjuga na terceira pessoa do singular. Digam-lhe, ele talvez agradeça.
[Texto 3265]

Sobre «revelim»

Nebulosa

      «A fortaleza militar de Almeida, rodeada por um fosso, foi construída nos séculos XVII e XVIII. Tem forma hexagonal e é constituída por seis baluartes (São Francisco, São Pedro, Santo António, ou de Santa Bárbara e de São João de Deus) e igual número de revelins (da Cruz, dos Amores ou Hospital de Sangue)» («Câmara de Almeida candidata antiga praça-forte a Património Mundial», Público, 2.09.2013, p. 17).
      Constituída por seis baluartes — e depois nomeiam quatro... Mas isso agora não interessa. Revelim (ou rebelim, que os dicionários já esqueceram) é, diz o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, a «construção externa de duas faces, que formam um ângulo saliente, para cobertura ou defesa de uma obra de arte». No mínimo equívoca, esta definição.
[Texto 3264]

«Cacatua/catatua»

Aos pares

      «Os ovos apreendidos [no Aeroporto das Portela] agora em Maio não são de arara-jacinta (Anodorhynchus hyacinthinus), mas sim de outra espécie de Psittaciformes, a ordem de aves que inclui papagaios, araras, periquitos, cacatuas e afins» («Ovos de papagaio são o negócio de ouro dos traficantes de animais», Ricardo Garcia, Público, 2.09.2013, p. 12).
      Pode dizer-se de ambas as formas: cacatua ou catatua. Esta provém daquela, com assimilação. Mas é claro que se escreve «Psitaciformes». Já que não usam — como deviam — itálico, que escrevam em português.
[Texto 3263]

«Personæ non gratæ»

Não se meta nisso

      Milhares de professores contratados não colocados irão hoje inscrever-se nos centros de emprego. Vai daí, Mário Nogueira, da FENPROF, põe-se a falar em latim. Mal: «Vem confirmar que o Ministério da Educação tem os professores contratados como personas non gratas. E o que ainda é mais estranho e curioso é o próprio Ministério da Educação vir dizer que até tem mais de seis mil horários ainda para preencher.»
      O plural da expressão é personæ non gratæ. É difícil? Bem, ninguém o manda pôr-se a falar em latim, acho eu. Ou isso também conta para o regime de ponderação curricular?
[Texto 3262]

Nomenclatura científica

A alquimia da ortografia

      «Provámos quatro amostras: um virgem extra “especial reserva” sem adição de qualquer aroma externo, combinação das variedades Madural e Cobrançosa; um “especial peixe”, aromatizado com endro e gengibre e enriquecido com chondrus crispus, um antioxidante natural de origem marinha proveniente da costa portuguesa; um “especial saladas”, aromatizado com manjericão e limão e enriquecido com o antixodante marinho unnaria pinnatifida; e um “especial al funghi”, aromatizado com boletus edulis, importado da Umbria, Itália (este cogumelo também existe em Portugal)» («A deliciosa alquimia dos azeites aromatizados», Pedro Garcias, «Fugas»/Público, 31.09.2013, p. 27).
      Que alguém diga a Pedro Garcias (se estiver no Facebook, pode ter 3000 ou 4000 «amigos»): na designação binominal científica, o primeiro termo do nome da espécie (o nome genérico) deverá sempre ser escrito em maiúscula; o segundo termo (o epíteto específico), por sua vez, escrever-se-á em minúscula. Tinha obrigação de saber, sim senhor. E já agora, é Undaria e não Unnaria. E se escrevesse Úmbria também seria melhor.
[Texto 3261]

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