Confusões dos jornalistas

Só visto

      «[O padre Lancelote Rodrigues] Estudou Filosofia e Teologia e, após [sic] concluir os estudos, decidiu ser padre aos 22 anos. Foi enviado para Canídrome para cuidar dos refugiados, após o bispo de Macau ter duvidado da sua vocação» («Dedicou a sua vida à missão de ajudar os refugiados em Macau», Diário de Notícias, 18.06.2013, p. 45).
      É só mais uma escorregadela dos jornalistas. Mais ridícula do que outras, porventura. Quando li o necrológio, pensei que fosse um topónimo, até pela ausência de artigo, alguma localidade chinesa. Soou-me bem, assim, de recorte clássico. Na verdade, trata-se do Macau (Yat Yuen) Canidrome Co. Ltd., do Canídromo de Macau! Sim, canídromo, o recinto onde se realizam corridas de cães.
[Texto 2994]

Léxico: «codão»

Não confundir com «códão»

      «O código genético define as regras químicas que os seres vivos usam para traduzir a informação dos seus genes em proteínas. Quando se alteram estas regras, instala-se o caos e essa manipulação resulta na morte celular. Esta troca de informação faz-se através de uma espécie de palavra com três letras (a que se chama codão) que a célula “lê” e traduz num aminoácido. À combinação codão-aminoácido chama-se código genético» («Cientistas da UA conseguiram alterar o código genético de um ser vivo», Andrea Cunha Freitas, Público, 20.06.2013, p. 28).
      Chama, pois, e provém do inglês codon. À falta de termo próprio — porque nova era a realidade —, é legítimo usar um termo estrangeiro, mas aportuguesado. Está, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «(genética) sequência de três nucleótidos adjacentes, numa molécula de ácido ribonucleico mensageiro (ARNm), que codifica um aminoácido». Por acaso, temos um vocábulo muito parecido, códão, que é a congelação da humidade infiltrada no solo. O que é curioso é que no Brasil se tenham limitado a acrescentar um acento agudo, códon.
[Texto 2993]

«Nublado/nebulado»

Pouco usado

      «O IPMA indica no site que, para amanhã, haverá ainda registo de céu muito nebulado nas regiões Norte e Centro, até meio da manhã, mas a temperatura mínima irá subir. No sábado, as nuvens vão desaparecer e o IPMA espera “uma pequena subida da temperatura máxima, mais significativa nas regiões do interior e no vale do Tejo”» («Calor regressa na próxima semana», Público, 20.06.2013, p. 11).

[Texto 2992]

«Governo encabeçado por»

Água mole, etc.

      Assim vamos lá. «Num artigo publicado em Março de 2011, estava o Governo encabeçado por José Sócrates de saída, Joaquim Emídio [director-geral do jornal O Mirante] vaticinou que Rui Barreiro ainda havia de chegar a ministro, por pertencer a um partido “onde parece que toda a gente boa foi de férias e só ficaram as galinhas”» («Comparar governante a ave de capoeira vai custar 5000 euros a responsável de jornal regional», Ana Henriques, Público, 20.06.2013, p. 11).
[Texto 2991]

De «hoarding» a «abandónico»

Comprem um manual de Psiquiatria

      «O distúrbio de “hoarding” afecta cerca de 3 por cento dos Portugueses. Caracteriza-se pela acumulação compulsiva de produtos e pela incapacidade de se desfazer de objectos, mesmo que sejam lixo. Em casos extremos, as casas dessas pessoas transformam-se em autênticos depósitos de lixo» («O distúrbio de “hoarding” afecta cerca de 3 por cento dos Portugueses», João Tomé de Carvalho, Bom Dia Portugal, 18.06.2013).
      Em estúdio estava o psiquiatra António Sampaio, que disse que «isto emana de uma patologia abandónica». Vem do francês, pois claro, mas mesmo nesta língua é neologismo para designar a criança ou o adulto que vivem dominados pelo receio neurótico de ser abandonados, de perder o amor dos pais ou dos próximos. Claro que o psiquiatra não explicou nada disto.
[Texto 2990]

Tradução: «recipient»

Mais simples

      Quarenta e cinco descendentes de refugiados judeus salvos por Aristides de Sousa Mendes chegaram a Portugal para homenagear a memória do diplomata. Lee Sterling, antigo refugiado de Bruxelas, foi um deles. «Sou um dos recipientes dos vistos de Aristides de Sousa Mendes. Tinha quatro anos, a minha irmã sete, e viemos para cá com os meus pais e a minha avó» (Jorge Esteves, Jornal da Tarde, 18.06.2013, 14h09).
      Sim, é verdade, «recipiente» também é, em português, o que recebe, mas quem fala assim, hein? Experimente consultar, caro Jorge Esteves, um dicionário de inglês-português, é muito mais despretensioso do que isso.
[Texto 2989]

Tradução: «peer review»

Merece pois

      «Porn Studies é a primeira revista académica com revisão pelos pares dedicada ao estudo da pornografia, e as directoras são as professoras em instituições britânicas Clarissa Smith (Sunderland University) e Feona Attwood (Middlesex University)» («Petição contra revista sobre pornografia», Joana Gorjão Henriques, Público, 18.06.2013, p. 31).
      Devia ser o normal, mas, como não é, é preciso elogiar que a jornalista não use a expressão inglesa correspondente, peer review ou refereeing.
[Texto 2988]

Mais inglês

Fica demonstrado

      «É mais um episódio das revelações feitas por Edward Snowden, o whistleblower que passou documentos internos da Agência de Segurança Interna dos EUA ao jornal britânico Guardian. Desta vez, os documentos secretos mostram que políticos e outros responsáveis que participaram em 2009 na cimeira do G20 em Londres foram espiados por agentes britânicos» («Londres terá “espiado” reunião do G20 em 2009», Público, 18.06.2013, p. 25).
      Eu não disse ainda hoje? Se puderem, enfiam uma palavra inglesa. Whistleblower significa simplesmente informador, delator, bufo. Com o seu uso, o jornalista demonstra que sabe copiar as palavras que encontra na imprensa anglo-saxónica. Algo que a minha filha, graças a Deus pré-escolarizada, também sabe fazer. E as aspas em «espiado», no título, deixam-nos a pensar.
[Texto 2987]

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