Neologismos

Esforço vão?


      Sobretudo em certo tipo de textos, mais técnicos, a necessidade de neologismos é constante. Será mesmo necessidade? Lembram-se do caso daquela orientadora que exigia que dois vocábulos, igualação e igualização, estivessem dicionarizados (não que fossem usados habitualmente, reparem), sob pena de não os admitir na dissertação? Lembrei-me dela agora que estou aqui a ler que, depois de feito, um questionário é «anonimizado». O que pressupõe um verbo que, na realidade, não existe: anonimizar. Existe, isso sim, anonimar, cujo particípio é anonimado. Contudo, a terminação –izar, com carácter causativo, está correcta. Umas linhas à frente, afirma-se que «o procedimento seguido permitia assegurar não apenas a confidencialidade das respostas mas também a anonimização dos questionários». Bem, na formação de substantivos derivados de verbos (anonimizar), o pospositivo é muito usado e também está correcto, mas de tudo se colige o uso ad hoc. Há formas, mesmo que perifrásticas, de dizer o mesmo sem recorrer a neologismos, que podem sempre causar estranheza e resistências.

[Post 3843]

«Bondade» e «fortaleza»

Qualidade do que é bom


      Só agora, ao ser confrontado com a tradução de «fortaleza del ungüento», é que me lembrei doutro substantivo que, usado fora de certo contexto, causa sempre perplexidade em certos falantes: «Ontem, uma dezena de pais e alunos telefonaram para a tutela e enviaram e-mails a pedir esclarecimentos e uma reunião com Isabel Alçada para falar da bondade da EM e do direito dos seus filhos à educação» («Ministério da Educação fecha Escola Móvel», Bárbara Wong, Público, 10.08.2010, p. 7). E, vendo bem, a definição do Dicionário Hoauiss não ajuda nada a convencer esses tais perplexos da propriedade do termo.

[Post 3842]

Tradução: «estrado»

Igual mas diferente


      No D. Quixote aparece cinco vezes o vocábulo espanhol «estrado». Se a acepção que logo me (nos?) ocorre é, recorrendo ao Dicionário Hoauiss, «estrutura plana, em geral de madeira, que se assemelha a um palanque baixo, construída acima do nível do chão, para que, ao formar um piso mais elevado, ponha em destaque pessoa ou coisa», a verdade é que ficaremos bem longe do significado do original, que é, e agora recorro ao DRAE, «conjunto de muebles que servía para adornar el lugar o pieza en que las señoras recibían las visitas, y se componía de alfombra o tapete, almohadas y taburetes o sillas». O mais próximo, mas diferente, ainda assim, é uma acepção antiga do vocábulo português, também registada pelo Dicionário Hoauiss: «pequeno e baixo palanque onde as senhoras executam certos serviços domésticos». Para traduzir é necessário, não há dúvida, muito tino. Só à conta dos falsos amigos, temos por aí equívocos estampados em milhares de livros. Posso estar enganado, mas a única forma de resolver satisfatoriamente a questão é dar a explicação em nota de rodapé.

[Post 3841]

Pequenas Antilhas

Ainda não

      «Barbados chegou a estar na posse da Coroa portuguesa, passando para domínio britânico em 1625. Esta ilha das Antilhas Menores, hoje com 275 mil habitantes, tornou-se independente do Reino Unido em 1966, mantendo, no entanto, a Rainha Isabel II como Chefe do Estado» («Casal Blair procura mansão mas Caraíbas», Lumena Raposo, Diário de Notícias, 30.08.2010, p. 23).
      Eu prefiro dizer e escrever Pequenas Antilhas, como a Caribe prefiro Caraíbas. Só quando formos, finalmente, reintegrados na Coroa espanhola é que passarei a usar as outras formas. E a dizer mal do rei.

[Post 3840]

Tradução

Hornworm uma ova!


      «A descoberta surgiu pela análise de comportamento das plantas de tabaco na presença da lagarta Manduca sexta (o hornworm do tabaco), cuja saliva activava a produção do químico de alerta e subsequentemente atraía insectos, como o Geocoris, que se alimentam das larvas e dos seus ovos» («Planta do tabaco liberta químico que atrai predadores de lagartas», Diário de Notícias, 30.08.2010, p. 25).
      Os jornalistas são culpados da muita ignorância que nos assola. Que interesse pode ter o leitor médio português em saber que Manduca sexta se chama em inglês hornworm? E em português, como é? É lagarta-de-chifre, e a subespécie Manduca sexta paphus é conhecida no Brasil por mandarová-do-fumo.

[Post 3839]

Tradução de nomes próprios

Sim, não, talvez


      A tradução dos nomes próprios é matéria que tem gerado alguma controvérsia. Na tradução de obras clássicas, essa era e é a regra. Claro que é sempre mais fácil haver tradução, em especial de apelidos, se estes tiverem conteúdo semântico. No D. Quixote... Bem, a começar pelo protagonista, houve tradução, ou, melhor, adaptação fonética, que as cordas vocais dos nossos compatriotas estão pouco afeitas a articular tal som, que só por arremedo, e antes não saísse... Quijote. Bem, há uma personagem de nome Juan Haldudo. Na tradução de José Bento, é-nos apresentada como João Aldrabão. Um tal Pedro Recio ficou Pedro Récio; Diego de Miranda, Diogo de Miranda; Lorenzo, Lourenço; don Juan de Austria, D. João de Áustria; Juan de Úbeda passou a João de Úbeda; Lope Tocho ficou crismado como Lopo Tosco, e Juan Tocho, João Tosco; Teresa Cascajo foi-nos apresentada como Teresa Cascalho. Diego de Valladolid é Diogo de Valhadolide; Juan de Andrea de Oria ficou João de André de Oria. Sancho Panza ficou para nós Sancho Pança, e sua mulher, Juana Pança, é Joana Pança, claro. Contudo, lapso do tradutor e meu, o nome de solteira da cara-metade de Sancho ficou... Juana Gutiérrez. Mas também Juan Pérez de Viedma não sofreu alteração, como a não sofreu Alonso López. Há estudos académicos sobre esta questão, pelo que não se esgota assim, nem pouco mais ou menos, o que se poderia dizer.

[Post 3838]

«Às custas», de novo

Reciclem-na já


      A mais recente trapalhada nos jornais portugueses relaciona-se com o nome por que querem ser conhecidos os ciganos noutros países. Não em Portugal, que ainda cá não chegou a moda. «Isabela Mihalache, directora adjunta da organização internacional European Roma Rights Center, não quer que lhe chamem cigana. Tigan, na Roménia, é sinónimo de escravo. E os ciganos romenos não desejam perpetuar uma história de servidão. Querem um nome limpo — querem ser roma» («Romenos que não são vistos como cidadãos», Ana Cristina Pereira, Público, 30.08.2010, p. 8). E mais: «A socióloga desfaz o estereótipo dos roma da Roménia, que estão a ser expulsos de vários países europeus, França, mas também Itália, Alemanha, Dinamarca e Suécia: “Não querem trabalhar, vivem às custas da segurança social, roubam, mendigam, não se vêem atrás de uma secretária a trabalhar num computador”.» Isabela Mihalache não saberá português, o erro crasso é, seria sempre, da jornalista.

[Post 3837]

Como se escreve nos jornais

Dão-se alvíssaras


      «É um dos livros mais aguardados da rentrée literária espanhola: a novela El sueño del celta do escritor peruano Mario Vargas Llosa. A obra parte da vida de Roger Casement (1864-1916), um diplomata e nacionalista irlandês, escritor, defensor dos direitos humanos, homossexual atormentado comisso» («Novo livro do autor Vargas Llosa», Diário de Notícias, 30.08.2010, p. 43).
      Na página na Internet da Casa Fernando Pessoa, pode ver-se assim transcrita a notícia (a parte que interessa): «A obra parte da vida de Roger Casement (1864-1916), um diplomata e nacionalista irlandês, escritor, defensor dos direitos humanos, homossexual atormentado com isso.» Ou seja, a palavra «comisso» foi interpretada como gralha. Será mesmo? É o mais provável, tanto mais que a pontuação reforça a hipótese. Contudo, se a fonte mais próxima foi a entrevista que o escritor deu ao jornal El País, fico com dúvidas. O excerto que interessa do intróito da entrevista: «Diplomático reservado, sir y escritor, temprano relator de derechos humanos, héroe irlandés, traidor británico, torpe estratega militar, homosexual atormentado, reo ajusticiado...» Sabe Deus se não quiseram traduzir «reo ajusticiado» por «comisso»... Por outro lado, como em fontes em língua inglesa relacionadas com Roger Casement é muito usada a palavra «penalty», que numa das acepções se poderá traduzir por «comisso», não sei. De qualquer modo e finalmente, «homossexual atormentado com isso» não é redacção que se recomende.

[Post 3836]

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