Definição e etimologia: «jâmbico/iâmbico»

Eis a questão


      Não é totalmente descabida a crença de que os contemporâneos de Shakespeare falavam como as suas personagens. Afinal, ele escrevia para um público vivo, presente, e os seus diálogos tinham de parecer verosímeis aos ouvidos elisabetanos. Mas também é verdade que, só por si, Shakespeare terá introduzido mais de 1700 palavras novas na língua inglesa, entre elas assassination, eyeball, lonely ou swagger. Fê-lo não por capricho, mas por necessidade expressiva: os seus versos exigiam precisão, ritmo e impacto. E sim, disse «versos». Grande parte do que hoje associamos ao estilo de Shakespeare decorre de ele escrever, não em prosa, mas em verso branco, mais precisamente, em pentâmetro iâmbico. Esta forma métrica organiza cada verso em cinco pares de sílabas, com o acento rítmico a cair na segunda de cada par. O exemplo mais célebre é: to BE | or NOT | to BE | that IS | the QUEST | ion. A alternância fraca/forte, repetida cinco vezes (de algum lado havia de vir o penta), dá ao texto uma musicalidade discreta mas marcante, que ajuda tanto à memorização como à elevação do tom. Não é por acaso que as personagens mais nobres e importantes falam em verso, enquanto os criados, os rústicos ou os patifes falam em prosa. E, mesmo dentro da métrica, Shakespeare não hesita em dobrar as regras: se for preciso, transforma flower em monossílabo só para não quebrar o ritmo. O resultado é uma linguagem que soa simultaneamente natural e lapidar, nunca exactamente como as pessoas falavam, mas talvez como gostariam de falar. Se hoje Shakespeare nos parece difícil, não é por ter inventado um idioma novo. É porque o seu inglês é, por assim dizer, música. Para reconduzir isto, ou uma pequena fracção, cá ao nosso modesto cantinho, proponho uma clarificação de «jâmbico» e, muito mais urgente, emergente, o melhoramento da etimologia. Assim, proponho ➔ jâmbico 1. (métrica) relativo a iambo, pé métrico constituído por uma sílaba breve seguida de uma longa (na métrica quantitativa) ou por uma sílaba átona seguida de uma tónica (na métrica acentual); 2. (métrica) composto de iambos.

      Quanto à etimologia, vem do latim iambĭcus, por sua vez do grego ἰαμβικός (iambikós), derivado de ἴαμβος (íambos, «iambo», pé de verso usado sobretudo em poesia satírica e invectiva); de origem possivelmente pré-grega, ligada a formas rítmicas populares e jocosas.

[Texto 22 567]

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