Tradução: «sous-traitante»
27.2.26
Fica para a próxima
Na série francesa Equipa de Limpeza (Frotter-Frotter, no original), exibida na RTP2, uma das camareiras, ao comprovar que não lhe foram pagas horas extraordinárias, afirma: «Vou falar com o Roulett.» Roulett é o gerente do hotel. A supervisora, Solange, corrige-a: não é com o hotel que devem tratar do assunto, mas com a empresa que as contratou e que lhes paga o salário, a Clean Up. A primeira insiste: «Não me importo de ir desancar o subempreiteiro.»
O problema é terminológico e é duplo. Em primeiro lugar, «subempreiteiro» é termo técnico próprio do âmbito da construção civil, relativo à subempreitada. Num contexto de prestação de serviços de limpeza hoteleira, a figura jurídica pertinente não é a subempreitada, mas a subcontratação ou a externalização de serviços. Em segundo lugar, mesmo no plano da subcontratação, o hotel não é o subcontratado. Pelo contrário: a Clean Up é que presta o serviço ao hotel, paga os salários e organiza o trabalho; ela é que corresponde, em francês, à sous-traitante, isto é, à empresa subcontratada. O hotel é a entidade contratante (donneur d’ordre), não o subcontratado. Há ainda um elemento interno que torna a opção da legenda particularmente infeliz. Num almoço do pessoal, o próprio gerente explica que o serviço de limpeza é «externalizado» — no original, ouve-se on l’externalise. A legenda traduz, e bem, por «subcontratado». Estamos, portanto, claramente perante um serviço que o hotel decide externalizar, confiando-o a uma empresa terceira. Não há aqui nenhuma lógica de empreitada.
A tradução e legendagem portuguesa, da responsabilidade de Rita Neves, ao optar por «subempreiteiros», desloca o enquadramento para o domínio errado e agrava a confusão, tanto mais que a própria série fornece, noutra cena, a chave terminológica correcta. Num registo rigoroso, a réplica poderia ter sido algo como: «Não me importo de ir falar com os do hotel», «Não me importo de ir falar com a direcção» ou, querendo manter alguma precisão técnica, e já que a personagem parece especialista em mopas e normas, «Não me importo de ir falar com a entidade contratante.»
[Texto 22 519]
edit
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