O conceito de «libfix»
16.2.26
Com o pénis de fora
Há palavras que se libertam. Ou melhor: há pedaços de palavras que, a certa altura, ganham vida própria. A linguística anglófona chama-lhes libfixes, abreviatura de liberated affixes, «afixos libertados». Um libfix nasce quando um segmento que fazia parte de uma palavra concreta é reanalisado pelos falantes como se fosse um afixo autónomo, com significado próprio e capacidade de gerar novas formações. Um dos exemplos mais claros é -gate. Tudo começa com o complexo imobiliário Watergate, em Washington. O nome próprio do edifício deu origem, por metonímia, ao escândalo político que levou à demissão de Richard Nixon, no chamado Watergate. Desde então, «Watergate» deixou de ser apenas um nome de lugar (microtopónimo): passou a significar «escândalo político». Num segundo momento, deu-se a reanálise decisiva: os falantes começaram a interpretar -gate como se fosse um sufixo com o valor de «escândalo». E assim nasceu um libfix. Multiplicaram-se doravante as formações analógicas: basta juntar -gate a um nome para sugerir polémica pública, muitas vezes com intenção irónica ou sensacionalista. O recentíssimo Penisgate inscreve-se exactamente nesse modelo: base nominal + -gate = «escândalo relacionado com X». Já ninguém pensa no edifício de Washington; o segmento final funciona como marcador quase automático de escândalo mediático. Também tivemos os nossos: estou a lembrar-me, por exemplo, do famoso Galpgate. Temos aqui um caso exemplar de como a língua funciona por analogia e reinterpretação. Um nome próprio transforma-se em designação de acontecimento; um fragmento desse nome emancipa-se; e esse fragmento passa a integrar o arsenal produtivo dos falantes. É assim que a história, política e linguística, deixa marcas duradouras no léxico.
[Texto 22 440]
edit
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