Léxico: «ferroceno»

Sei que o esperas


      «A compound called ferrocene has been a landmark of chemistry for over seven decades. It consists of an iron atom sandwiched between two flat carbon rings. Its discovery launched the field of organometallic chemistry, with numerous applications in materials science and medicine» («IT-M, IISc team makes carbon-free version of ferrocene sandwich», Vasudevan Mukunth, The Hindu, 17.05.2026, p. 13). 

      Não está nos nossos dicionários, pelo que proponho ferroceno QUÍMICA composto organometálico de fórmula Fe(C₅H₅)₂, constituído por um átomo de ferro ligado entre dois anéis ciclopentadienilo paralelos, dispostos em configuração de sanduíche; apresenta grande estabilidade química e propriedades de oxidação-redução características, sendo utilizado em síntese orgânica, electroquímica, catálise, ciência dos materiais e investigação farmacêutica. 

      Vem do inglês ferrocene, de ferro- + -cene, elemento usado na nomenclatura de compostos derivados do ciclopentadieno.

[Texto 23 004]

Definição: «relógio biológico»

O corpo é que paga


      «Já muito ouvimos falar sobre relógios biológicos e a importância do sono para a saúde. Agora, um novo estudo sugere que dormir poucas horas, ou demasiadas, pode acelerar o envelhecimento biológico — do cérebro ao coração, passando pelos pulmões e pelo sistema imunitário — e está associado a uma vasta gama de doenças» («Dormir pouco, ou demasiado, associado a envelhecimento biológico mais rápido», Filipa Almeida Mendes, Público, 17.05.2026, p. 25). 

      A Porto Editora define assim «relógio biológico»: «FISIOLOGIA conjunto de mecanismos fisiológicos que regulam os ritmos do corpo». Mas podemos refinar a definição, evitando o termo «corpo», que bem sabemos não ser o adequado, assim relógio biológico FISIOLOGIA conjunto de mecanismos fisiológicos que regulam os ritmos biológicos do organismo.

[Texto 23 003]

Léxico: «retardante»

Então é outra acepção


      No Conta Lá, na quinta-feira à noite, um perito florestal, Luís Calaim, usou, a propósito dos incêndios florestais, o termo «retardante». Vejamos como o define a Porto Editora: «QUÍMICA substância ou produto que inibe ou reduz a velocidade de uma reacção química». O perito referia-se, evidentemente, a «retardante de fogo» ou «retardante de chamas», isto é, substâncias lançadas sobre a vegetação para atrasar a propagação do incêndio ou diminuir a intensidade da combustão. E isso não aparece reflectido na definição, quando nunca me deparei com a palavra que não fosse neste sentido específico. Num país de incêndios florestais devastadores, convinha que aparecesse. 

      Assim, proponho retardante 1. QUÍMICA substância ou produto que abranda, inibe ou reduz a velocidade de uma reacção química; 2. PROTECÇÃO CIVIL, SILVICULTURA substância química usada para atrasar ou reduzir a propagação do fogo, nomeadamente em incêndios florestais, podendo ser lançada por meios terrestres ou aéreos sobre a vegetação.

[Texto 23 002]

Léxico: «fálera»

E agora a principal


      Foi já este ano que propus a definição do vocábulo «falerística», porque o encontrara num artigo do Expresso. Agora foi num artigo de um jornal inglês que encontrei phalera, o nosso fálera. Ora bem, acontece que alguns dicionários não o acolhem, isto quando se trata de um termo perfeitamente atestado em português erudito, arqueológico e historiográfico. Não é frequentíssimo, claro, mas está longe de ser um hápax obscuro. O caso do dicionário da Porto Editora é outro: só regista a acepção por extensão — «colar de ouro e prata usado por patrícios e guerreiros romanos», faltando a principal. 

      Assim, proponho fálera 1. HISTÓRIA disco ou medalhão metálico usado na Roma Antiga como condecoração militar honorífica, geralmente preso à couraça, ao arnês ou ao equipamento militar; 2. adorno metálico usado no equipamento de cavalos ou como ornamento em colares, arreios ou vestuário.

[Texto 23 001]

Léxico: «sujice»

Mora agora no Brasil


      «E, posso alegar, é porque os olhos do meu entendimento nunca se desfitaram da verdade, santo sudário da vida, voz da consciência, essa verdade verdadinha a que, nestes tempos tão astrais como latrinários, trazem emporcalhada, de toda a sujice de que são capazes, os sectários de credos batidos em brecha, os parvajolas das ideias feitas, os sucateiros das letras que desbastam o papel almaço, e certa ordem de coleópteros, como os que rolam a maçã camiliana» (O Romance de Camilo, Vol. 1, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, pp. 11-12).

[Texto 23 000]

Léxico: «frigideira»

Nada de novo para nós


      Falaram igualmente de outra figura popular da Lisboa da época, o frigideira HISTÓRIA designação popular dada, sobretudo na Lisboa setecentista e oitocentista, aos vendedores ambulantes, geralmente homens, que fritavam peixe na rua, em especial nas imediações da Sé, do Limoeiro e de outras zonas populares da cidade, vendendo-o pronto a consumir ou para levar para tabernas e casas de pasto. 

      Oh yes, long before the modern world baptised it as ‘street food’, the Portuguese of the eighteenth century were already savouring fried fish bought straight from the bustling streets of Lisbon.

[Texto 22 999]

Léxico: «retiro»

Nada espiritual


      Como também se falou nos famosos retiros de Lisboa, os da pândega, não os espirituais. Que, é claro, não estão nos dicionários, ou eu não estaria aqui a perder tempo. Assim, proponho retiro HISTÓRIA taberna, casa de pasto ou estabelecimento popular de recreio, geralmente situado nos arredores da cidade, frequentado sobretudo entre os séculos XIX e XX por grupos que procuravam convívio, vinho, petiscos e diversão em ambiente semi-rural, como os célebres Quebra-Bilhas ou Perna de Pau.

[Texto 22 998]

Léxico: «mosca»

Incomodam sempre


      No último episódio de Histórias de Lisboa, o podcast do jornal Expresso, o jornalista Miguel Franco de Andrade conversou com a historiadora Maria Alexandre Lousada sobre o que se bebia e comia em tabernas, casas de pasto e cafés da Lisboa dos últimos trezentos anos. A determinada altura, falaram numa figura bem conhecida de finais do século XVIII mosca HISTÓRIA designação popular e pejorativa dada, no tempo de Pina Manique (1733-1805), aos indivíduos que colaboravam com a Intendência-Geral da Polícia como informadores ou agentes de vigilância, frequentando à paisana locais considerados suspeitos e denunciando actividades tidas por criminosas, imorais ou politicamente subversivas.

[Texto 22 997]

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P. S.: Atenção, Porto Editora, a acepção de «rusgata» relativa à música não é um regionalismo; logo, esta indicação só poderá estar junto da 1.ª acepção.


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