Como se fosse regra do AO

Hífenes, já eram

      Com a adopção das regras do Acordo Ortográfico de 1990, não foram apenas os cc e os pp que passaram a ser ceifados indiscriminadamente, mas também — é especialmente visível no DN —, como já tenho dito, os hífenes. Já hoje tratei do caso de «primeira-bailarina». Ei-lo agora sem hífen no Diário de Notícias: «No ano seguinte, foi convidada por Madalena Perdigão para regressar ao Ballet Gulbenkian, onde permaneceu como primeira bailarina até julho de 1994» («Bailarina teve uma vida dedicada à dança em Portugal», Helder Robalo, Diário de Notícias, 12.06.2013, p. 43).

[Texto 2965]

O AO, em definitivo

Coitados

      «A dois anos da entrada em vigor, em definitivo, do novo Acordo Ortográfico, a Associação de Professores de Português (APP) lamenta que nem todos os professores estejam já a usar a nova ortografia nas provas escritas, algo que, defende a presidente da APP, “penaliza os alunos”, É que a partir do ano letivo de 2014/2015 as provas nacionais já penalizarão o uso incorreto do novo Acordo» («Nem todos os professores de Português usam o novo Acordo», Helder Robalo, Diário de Notícias, 12.06.2013, p. 15).
      É pena não estar previsto penalizar os professores pelo uso incorrecto das novas regras ortográficas. Se até alguns professores de Português não as conhecem, imagine-se o que se passa com os professores de outras disciplinas. Pobres alunos, não queria estar-lhes na pele.

[Texto 2964]

Ortografia: «primeira-bailarina»

Podia estar

      «Em 1974, Madalena Perdigão convida-a a voltar, como primeira-bailarina, ao Ballet Gulbenkian. Pertenceu durante mais de 25 anos a esta companhia, que deixa em 1994. Foi também professora de dança» («Morreu Graça Barroso, “bailarina completa e muito rara”», Joana Amaral Cardoso, Público, 12.06.2013, p. 30).
      Esta ainda não está nos dicionários, onde encontramos primeira-dama, primeiro-cabo, primeiro-grumete, primeiro-marinheiro, primeiro-tenente; segundo-cabo, segundo-furriel, segundo-grumete, segundo-marinheiro, segundo-sargento, segundo-subsargento... E, por isso, por vezes vemo-la sem hífen.

[Texto 2963]

Léxico: «tumorigénico»

Anda lá perto

      «A experiência dos investigadores portugueses, relatado [sic] num artigo publicado recentemente no Journal Cell Biology, atribui ao Bub3 mais importância ainda: de acordo com os resultados obtidos em moscas Drosophila, este gene também representa uma proteína supressora de tumores e “é essencial ao controlo da proliferação tumorogénicas invasivas [sic]”» («O “silêncio” de um gene chamado Bub3 pode dar força a um tumor», Andrea Cunha Freitas, Público, 12.06.2013, p. 27).
      O artigo, em inglês, de certeza que usa a palavra «tumorigenic», que, evidentemente, não se pode aportuguesar como a jornalista fez. Será, como se lê no Dicionário Aulete, tumorigénico. Se optarmos por aportuguesar a palavra francesa («tumorigène»), temos tumorígeno.

[Texto 2962]

Falta de memória

Ötzi e Lucy ou Ötzi e Lucy


«No ano passado, em fevereiro, um estudo genético do Otzi, que foi encontrado conservado no gelo dos Alpes italianos, mais de cinco mil anos depois da sua morte, revelou muitos dos seus segredos» («Homem do Gelo morreu com uma hemorragia cerebral», Diário de Notícias, 11.06.2013, p. 31).
      Quando escrevem sobre a «nossa avó africana comum», grafam o nome em itálico. De certeza que não é discriminação, apenas falta de memória.
     «Lucy, a nossa avó africana comum, era uma bípede muito competente. Foi esse o veredicto dos estudos de fósseis dos quadris e dos membros inferiores deste hominídeo, o Australopithecus afarensis. Mas uma pergunta persistia há décadas: será que esta antepassada, que viveu entre há 3,9 e 2,9 milhões de anos, também fazia parte da sua vida lá em cima, nas copas das árvores?» («Avó ‘Lucy’ também trepava às árvores», Filomena Naves, Diário de Notícias, 26.10.2012, p. 27).

[Texto 2961]

Outro «contato»!

Não é um caso isolado

      «Dentro da loja [Fnac do CascaiShopping], nos escritórios e armazéns a iluminação foi toda substituída por luzes LED, com sensores de movimento fora do espaço de contato com o público» («Fnac reduz custos e ganha prémio com ambiente», Ana Rita Guerra, Diário de Notícias, 11.06.2013, p. 33).
      Cara Ana Rita Guerra, acha mesmo que a palavra, segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990, se escreve sem c? Está enganada.
[Texto 2960]

«Resiliente», uma palavra na moda

Da psicologia para o dia-a-dia

      Uma palavra que está na moda — e, por isso, é usada a torto e a direito, aqui e ali, a propósito e a despropósito ­— é «resiliente». «“Achamos que é altura de atacar outros mercados e temos vindo a realizar viagens anuais a cada um destes países. Mas esta é uma área que exige, sempre, um longo namoro antes do casamento. Basta ter em conta que, no caso dos caminhos de ferro dinamarqueses, andamos dez anos a namorá-los. Mas nós somos resilientes”, frisa Ernesto Morgado, fundador e sócio gerente ao DN/Dinheiro Vivo» («Siscog quer vender o seu ‘software’ às ferroviárias de China e EUA», Ilídia Pinto, Diário de Notícias, 11.06.2013, p. 33). 
      E quem não se lembra logo de seis sinónimos mais expressivos para dizer o mesmo?

[Texto 2959]

Abuso de «devido a»

Devidos indevidos e outras coisinhas

      «A conclusão, que foi publicada na revista científica Ecology Letters por um grupo de investigadores liderado por Jonathan Bennie, da Universidade de Exeter, surge numa altura em que a espécie está a passar por apuros, devido justamente às temperaturas baixas para esta época do ano. A borboleta Hesperia comma, que já foi comum em Inglaterra, passou por um período difícil há algumas décadas devido a uma perda acentuada de habitat, mas recuperou devido a medidas de conservação implementadas no país. Só que, nos últimos anos, os invernos têm-se prolongado pela primavera dentro, afetando a atividade da espécie, que precisa de 25 graus Célsius para se sentir confortável» («Borboleta sensível em apuros com o frio em Inglaterra», Diário de Notícias, 11.06.2013, p. 31).
[Texto 2958]

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