Definição: «magnetosfera»

E para que serve? Pois


      «Elle visualisera les défenses de la Terre. La mission Smile dont le lancement est prévu ce mardi à 5h52 depuis le centre spatial de Kourou à bord d’une fusée Vega-Cest dédiée à l’étude de la magnétosphère, le puissant bouclier magnétique qui défend notre planète contre les fureurs du Soleil» («Smile, une mission pour filmer le bouclier magnétique de la Terre», Vahé Ter Minassian, Le Temps, 19.05.2026, p. 9). 

      Ora aí está, é precisamente deste aspecto nuclear que a definição da Porto Editora se esquece: «região que envolve um planeta, como é o caso da Terra, em que o seu campo magnético exerce uma influência dominante no controlo dos processos físicos que aí acontecem». Diz apenas que o campo magnético domina os processos físicos «que aí acontecem», mas não explica que processos são esses nem porque existe uma magnetosfera. Assim, proponho magnetosfera ASTRONOMIA região do Espaço em torno de um planeta ou outro corpo celeste em que o campo magnético desse astro domina o comportamento das partículas carregadas, desviando ou aprisionando o vento solar e outras radiações cósmicas.

[Texto 23 018]

Léxico: «ratinho-africano-espinhoso»

Talvez seja hoje


      «Em fevereiro de 2022, um artigo publicado na revista científica “Developmental Cell” apontava para uma descoberta capaz de mudar o paradigma da biologia. “Por acaso e com muita sorte, descobrimos que o ratinho espinhoso africano (Acomys dimidiatus) é capaz de regenerar espontaneamente o sistema nervoso central”, esclarece Mónica Sousa» («Cientistas com “mente e olhos abertos” para criar impacto a partir do Porto», Rita Neves Costa, Jornal de Notícias, 18.05.2026, p. 18). 

      A jornalista Rita Neves Costa, infelizmente, ainda não teve oportunidade de entrar no conhecimento desta regra do Acordo Ortográfico de 1990. Talvez hoje. Assim, proponho ratinho-africano-espinhoso ZOOLOGIA (Acomys dimidiatus) espécie de pequeno roedor da família dos Murídeos, distribuída pelo Nordeste de África e pelo Médio Oriente, sobretudo em regiões áridas, semiáridas e rochosas; apresenta dorso coberto por pêlos rígidos e espinhosos, ventre claro, orelhas grandes e cauda relativamente comprida; de hábitos nocturnos e crepusculares, alimenta-se principalmente de sementes e outros materiais vegetais, podendo também consumir pequenos invertebrados; pertence a um género conhecido pela invulgar capacidade de regeneração de tecidos cutâneos e cartilaginosos.

[Texto 23 017]

Etimologia: «montra»

Porque mostra


      «La mise en vente d’une montre exceptionnelle a provoqué ce week-end des débordements dans certains magasins. Le mot vient du latin populaire monstrare, qui signifie désigner, indiquer. C’est pourquoi on a ainsi qualifié le cadran: il montre l’heure» («Montre», Étienne de Montety, Le Figaro, 19.05.2026, p. 32). 

      É como se Étienne de Montety nos estivesse a incentivar a completarmos, finalmente, a nota etimológica de «montra», Porto Editora, não achas? É o que nós fazemos assim do francês montre, «vitrina», do francês antigo mostre, derivado do latim vulgar monstrare, «mostrar, indicar». 

      A «montre exceptionnelle» não é um relógio excepcional no sentido relojoeiro estrito, como seria um Patek Philippe Grand Complication ou um Audemars Piguet de alta complicação, mas antes um objecto de desejo produzido em série limitada, com enorme carga simbólica e mediática. O texto explora precisamente isso: a peça torna-se uma montra social.

[Texto 23 016]

Léxico: «neuroterapia»

No sítio certo e actualizado


      Já ouviram falar no Centro de Neuroterapias Digitais da Fundação Champalimaud? Com todo o avanço dos últimos tempos, a definição nos nossos dicionários (onde aparece, em poucos) está claramente ultrapassada, pelo que proponho neuroterapia MEDICINA intervenção terapêutica destinada ao tratamento, reabilitação ou modulação de funções do sistema nervoso, especialmente em doentes com perturbações neurológicas, neurodegenerativas, neuropsiquiátricas ou sequelas de lesões cerebrais, podendo recorrer a técnicas farmacológicas, comportamentais, físicas, cirúrgicas ou digitais.

[Texto 23 015]

Definição: «guarda-nocturno»

Ainda vão a tempo


      «A Câmara do Porto abriu o concurso para a contratação de 11 guardas-noturnos, para as zonas de Lordelo do Ouro e Massarelos, Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde e Ramalde. O prazo para submissão de candidaturas encerra no próximo dia 26» («Porto abre concurso para 11 guardas-noturnos», Jornal de Notícias, 18.05.2026, p. 8).

      Também me parece inequívoco que o verbete de «guarda-nocturno» deve ter duas acepções, como faz a Porto Editora, mas não com as definições que tem agora, que contradizem até o que a lei estabelece: «1. indivíduo que, de noite, vigia e guarda as habitações numa certa área; 2. indivíduo encarregado da vigilância de um estabelecimento fabril, banco, etc., durante a noite». Devemos ter, sim senhor, duas acepções, mas uma geral, aplicada tanto a um guarda-nocturno de Lisboa, por exemplo, como da China, e outra que atende ao que a legislação portuguesa estatui. Assim, proponho guarda-nocturno 1. indivíduo que, durante a noite, vigia habitações, estabelecimentos ou determinada área; 2. profissional licenciado para assegurar a vigilância nocturna de uma zona determinada, colaborando preventivamente com as forças de segurança e prestando serviços a moradores e comerciantes.

[Texto 23 014]

Léxico: «tote bag»

É assim


      Aqui um grupo de betinhas organizou-se mais formalmente e uma das primeiras iniciativas foi um encontro para cada participante fazer a sua tote bag, termo agora tão em voga e que certo dicionário bilingue diz ser um saco. Vá, tomai lá um hiperónimo bem amplo. Só que sacos há muitos. ➠ Tote bag é o saco de pano, geralmente de algodão ou lona, de formato simples e aberto, com duas alças paralelas que permitem transportá-lo ao ombro ou na mão; usado sobretudo para compras ou para transporte quotidiano de objectos, destacando-se pelo carácter reutilizável e pela frequente personalização gráfica; saco de pano com alças.

[Texto 23 013]

Definição e etimologia: «porcelana»

Em que se fala de porcas


      A definição de «porcelana» no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora é excessivamente vaga e redutora, sobretudo por fazer assentar a caracterização do material apenas em «argilas muito finas»: «material cerâmico vitrificado, translúcido em pequenas espessuras, impermeável, preparado com argilas muito finas». Tal formulação não contempla adequadamente variedades importantes de porcelana, como a bone china inglesa, cuja composição inclui cinza óssea calcinada. Mais e pior: a definição é demasiado genérica e omite aquilo que distingue histórica e tecnicamente a porcelana de outras cerâmicas vitrificadas. Assim, proponho porcelana 1. material cerâmico vitrificado de elevada dureza e baixa porosidade, geralmente branco e translúcido em pequenas espessuras, obtido por cozedura a alta temperatura de uma pasta composta sobretudo por caulino, feldspato e quartzo, podendo incluir outros materiais, como cinza óssea calcinada, conforme a variedade; distingue-se da faiança e do grés pela maior vitrificação, resistência e finura; 2. louça ou objecto feito desse material. 

      A etimologia tem mais que se lhe diga, não pode (ou pelo menos não devia) ser despachada com o habitual «idem». Vem do italiano porcellana, nome inicialmente dado a certas conchas marinhas lustrosas do género Cypraea, especialmente à espécie Cypraea porcellana, cujo aspecto branco, liso e brilhante evocava a superfície da porcelana chinesa; por extensão semântica, o termo passou depois a designar a cerâmica oriental de alta qualidade importada para a Europa; o italiano porcellana deriva de porcellano, vocábulo relacionado com porco, porque a abertura inferior dessas conchas foi tradicionalmente comparada, por analogia de forma, aos órgãos genitais de uma porca jovem.

[Texto 23 012]

Léxico: «periquito-arco-íris»

Tomai lá este


      Prossigamos o nosso labor neste dia muito especial em que o rei Carlos III não morreu. (Podemos, porque nos apetece, variar: «Prossigamos o nosso labor muito especial neste dia em que o rei Carlos III não morreu.» «Prossigamos o nosso labor neste dia em que o muito especial rei Carlos III não morreu.» São todas verdadeiras, só a última não soa tão bem.) Vamos lá. «O periquito-arco-íris (Trichoglossus haematodus), provavelmente oriundo de Espanha, de acordo com a anilha que trazia, foi capturado em Arcos de Valdevez e entregue ao Instituto de Conservação da Natureza» («À procura do canguru fugitivo em Viana do Castelo», Ana Peixoto Fernandes, Jornal de Notícias, 15.05.2026, p. 11, itálicos meus).

[Texto 23 011]

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