«As mesmas», «o mesmo»...

Evitem isso

      «Durante o período em que esteve com dores, José Gregório dos santos [sic] queixou-se das mesmas à enfermeira de serviço, que contactou o médico. António O. observou o doente e, de acordo com a acusação do DIAP de Lisboa, “determinou” que o mesmo “se deveria levantar para um cadeirão e ali repousar por momentos”. Neste momento, a 17 de março de 2009, o médico não determinou a realização de uma TAC» («Morte de doente em operação ao joelho vai a tribunal», Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 9.07.2012, p. 18).
      «Das mesmas» — grande bordão da actualidade — faz tanta falta na frase como uma viola num enterro. E, como que a demonstrá-lo cabalmente, a sua eliminação muitas vezes nem sequer implica a reescrita da frase. Pensem nisso.

[Texto 1789]

«Hash/haxe»

Não precisamos disso

      Ele depois reconheceu, lá no cantinho da redacção, que tinha andado a fumar muito hash... Já estamos no ar?! Estou farto de ver assim escrito em todo o lado. Mas porque não escrever sempre «haxe»? Terá sido Álvaro Guerra, na década de 1970, o primeiro a usar numa obra sua o vocábulo «haxe»? Os historiadores da língua que o digam.
[Texto 1788]

«Zona de guerra»

Rangeres de dentes

      «O mercado de operações de alto risco em cenários de conflito armado está a ser procurado por jovens que acabam contratos militares em forças especiais portuguesas. Exemplo disso é o facto de 20 ex-operacionais rangers, que tiveram formação no Centro de Tropas de Operações Especiais de Lamego, estarem, neste momento, a obter certificação para conseguirem trabalhar na área em que morrer faz parte do trabalho» («Ex-militares portugueses recrutados para zonas de guerra», Luís Fontes, Diário de Notícias, 8.07.2012, p. 20).
      Ora, muito nos surpreende, porque os jornalistas gostam muito da expressão war theater, perdão, teatro de guerra. Mas levamos com os rangers.

[Texto 1787] 

Léxico: «megaparóquia»

Continua tudo em grande

      Pronto, só cá faltava esta: «Falta de padres leva Igreja a apostar em ‘megaparóquias’» (Rita Carvalho, Diário de Notícias, 8.07.2012, p. 16). Por enquanto, ainda com as profilácticas aspas, a ver se pega.

[Texto 1786]

Ortografia: «maus tratos»

Alegadamente

      «O crime chocou a Suíça, tanto mais que Cidália Carvalho, de 31 anos, e a filha, de 13 anos, já não viviam com o agressor há vários meses e as autoridades locais até já tinham promovido três acusações por maus tratos contra José Luís Carvalho» («Portugal procura ‘Audi’ em que fugiu homicida», Paulo Julião, Diário de Notícias, 8.07.2012, p. 21).
      Lá se esqueceram do hífen em «maus tratos». Finalmente. Parabéns. Mas, Paulo Julião, você está tramado! Então também se esqueceu de antepor o adjectivo «alegado» a «homicida»? Arranje já um advogado, é o meu conselho.
[Texto 1785]

Até prova em contrário

Realmente...

      Ainda pensei que estivesse, por lapso, noutra secção do jornal, mas não: «País». «Um decreto real, datado de 1864 e ainda em vigor, está a alarmar muitos proprietário [sic] de imóveis e terrenos nas margens dos rios portugueses. Caso se encontrem até 50 metros de [sic] limite costeiro, correm o risco de perder esse património» («Decreto real penaliza proprietários ribeirinhos», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 8.07.2012, p. 21). 
      Aqui, o adjectivo «real» tem um peso que não tem em Real Funerária, Real Colégio, Real Grupo de Forcados Amadores de Moura, entre outros. Mas continuemos a ler: «Até 2005, os proprietário [sic] podiam fazer prova por via administrativa. A partir daí, passou a ser feita por via judicial, onde [sic] a prova na grande maioria dos casos afigura-se [sic] impossível. Não foi assim com uma médica de Gaia que conseguiu provar, após vários meses de pesquisa nos arquivos distritais do Porto e na Torre do Tombo, que o imóvel que detinha estava construído sob propriedade privada.» Porquê «sob», que aparece outra vez mais à frente?
[Texto 1784]

Asneiras alheias

Muito trabalho

      «“Bruno Alves entrou na história assim que o penaste que apontou embateu com estrondo no ferro da baliza espanhola. O central, de 30 anos, não conseguiu bater Caselas e abriu o caminho da festa a Labregas e a maestros germanos.” Assim começava um artigo sobre o Portugal-Espanha, publicado no dia 28 de junho, no jornal Record. Não faz sentido? Pois... Mas experimente trocar penaste por penálti, Caselas por Casillas, Labregas por Fàbregas e maestros germanos por nuestros hermanos e talvez fique esclarecido. Afinal, tratou-se de mais uma proeza dos corretores ortográficos automáticos, capazes de pregar as maiores partidas em qualquer redação. O mais curioso é que o próprio diretor do Record, ainda ontem, publicou uma crónica (“Asneiras que doem”) no Correio da Manhã em que aponta alguns erros de jornalistas em diretos televisivos, que considera serem “fruto do desinvestimento geral na qualidade”. E, também ontem, o mesmo diretor assina outra crónica do Record a penitenciar-se pelo erro do seu jornal e por escrever sobre “asneiras alheias”. Ficou confuso? A VESPA também. Mas tem a certeza de que, desta vez, não foi obra do corretor ortográfico» («Asneiras alheias», Diário de Notícias, 8.07.2012, p. 13).
      Agora, com os corretores a trabalharem na Bolsa e nas redacções, tudo piorou, já se sabe. Mas agora a sério: o software ainda não é assim tão inteligente.

[Texto 1783]

Cheque endossável

Não me incumbe

      Ontem perguntaram-me — «já que se ocupa destas coisas da língua» — o que se deve fazer com o cheque não endossável. Assina-se, não se assina? O meu interlocutor confunde um pouco as coisas, mas vamos lá ver. Ainda que talvez baste saber ler para fazer o que é preciso, seria conveniente que entidades como o Banco de Portugal o explicassem. Endossar um cheque é transmiti-lo a pessoa diferente da que figura no título como beneficiário, não é assim? E como é que isso se faz? Apondo a assinatura nas costas (dos, em francês), no verso do cheque (e indicando a entidade a favor da qual é transmitido, mas esta não é uma indicação obrigatória). Assim, o cheque não endossável, que existe há pouco tempo, não pode ser assinado. O beneficiário só pode fazer uma de duas coisas: ou deposita-o na sua conta ou levanta-o ao balcão de uma agência do banco sacado. (Agora vejam lá, não me perguntem como se faz cerveja caseira.)

[Texto 1782]

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