Sempre o inglês

Em Luanda

      «Naquele gabinete já se lhe sente o cheiro, está no corredor por onde o Capitão os acompanha, por detrás das portas fechadas, no pátio da entrada e nas janelas iluminadas onde teóricos e burocratas redigem sitreps e perintreps» (Jornada de África, Manuel Alegre. Lisboa: Visão/Dom Quixote, 2003, p. 23).
      Em Álvaro Guerra ao menos aparecia grafado em itálico: «– Li-lhe as perintreps, os louvores ao batalhão, ouvi-lhe uma arenga no QG de Luanda. Duro de roer. Não vai tratar como iguais os que lá tratava como bandidos» (Café 25 de Abril: as Ruínas: Folhetim do Mundo Vivido em Vila Velha, Álvaro Guerra. Lisboa: Jornal, 1987, p. 92).
      Do inglês, pois claro: sitrep (situation report) e perintrep (periodic intelligence report).
[Texto 885]

Como se fala na televisão

Tradição portuguesa

      As labaredas do madeiro de Natal de Penamacor cresceram mais alto do que a igreja. Os bombeiros, de prevenção, intervieram. «Agora é suposto o madeiro ficar a arder até aos Reis, dia 6 de Janeiro», rematou o repórter da RTP. É modismo que se está a empregar menos nos últimos tempos, parece-me.
[Texto 884]

Como falam os médicos

Pontos de vista

      Anteontem, o Dr. José Roquette, director clínico do Hospital da Luz, veio novamente falar do estado de saúde de Eusébio: «Eusébio passou muito bem a noite, está muito calmo. Do ponto de vista clínico, laboratorial, imagiológico e radiológico, está melhor.»
[Texto 883]

Ouçam-se

Exercício

      «Devíamos tê-la invejado por ter encontrado alguém sem quem sentia não poder sobreviver para além da porta de embarque, para já não falar da distância, num austero quarto de estudante num subúrbio do Rio» (Uma Semana no Aeroporto – Um Diário de Heathrow, Alain de Botton. Tradução de Manuel Cabral e revisão de Tiago Albuquerque Marques. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 46).
      Neste caso, não se trata da tradução em si, mas da absoluta falta de ouvido. Ora leiam em voz alta: «alguém sem quem sentia». Agradável? Harmonioso? Eufónico?
[Texto 882]

Tradução: «wear»

Se tudo correr mal

      «Ambos envergando óculos de sol enormes, tinham chegado à idade adulta no período entre a pneumonia asiática e a gripe dos porcos» (Uma Semana no Aeroporto – Um Diário de Heathrow, Alain de Botton. Tradução de Manuel Cabral e revisão de Tiago Albuquerque Marques. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 45).
      Como em inglês é wear, muitos (o erro não é novo para mim) julgam que a melhor tradução é «envergar». Essa acepção, porém, só nos dicionários do futuro, porventura, se poderá encontrar. Se tudo correr mal. Enfim, não é só de melhores dicionários que precisamos.
[Texto 881]

 

Como se escreve nos jornais

Às três pancadas

      «Não pode andar devido a uma recente fractura do fémur e angustia-se constantemente com as muitas dívidas contraídas ao longo dos anos, que nem consegue administrar, porque um tribunal da cidade italiana de Velltri lhe adjudicou um tutor ao vê-la só, sem filhos e nenhum familiar que pudesse tratar dos seus muitos encargos» («Anita Ekberg. Sozinha e com dívidas», «P2»/Público, 24.12.2011, p. 13).
      É assim que foi publicado, por exemplo, no El País, e o jornalista (se foi jornalista) português limitou-se a copiar: «ya que un tribunal de la ciudad italiana de Velltri le adjudicó un tutor al verla sola, sin hijos ni ningún familiar que pueda hacerse cargo de sus necesidades». Se se desse ao trabalho, concluiria que não existe nenhuma cidade com aquele nome, mas sim Velletri, que dista 40 km de Roma. Se tivesse lido a imprensa italiana, veria que o tutor («amministratore di sostegno») foi «nominato dal Tribunale di Velletri», e não adjudicado. (Sim, e o resto da tradução também tem muito que se lhe diga.)

[Texto 880]

«Estacar/estancar»

Aqui não há erro. (Uf!)

      «Um rato selvagem saltou da relva para a pista, onde estancou por um breve momento, encandeado pelos faróis do jipe» (Uma Semana no Aeroporto – Um Diário de Heathrow, Alain de Botton. Tradução de Manuel Cabral e revisão de Tiago Albuquerque Marques. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 110).
      Nesta acepção, estacar e estancar são sinónimos, ao contrário do que se possa pensar. No entanto, não é habitual ver-se, e eu, para evitar equívocos (mas os leitores têm de aprender, sim), não o usaria. Já encadear e encandear não são sinónimos, e é erro que vejo com alguma frequência. Não se confundam cadeias com candeias.
[Texto 879]

«Nigga bitch»

N—A B—H

      «A cantora Rihanna anda zangada. Há dias, escreveu no Twitter que, em Portugal, tinha sido alvo de racismo e agora indignou-se porque a publicação de moda Jackie qualificou o seu estilo de vestir como nigga bitch. Rihanna acusou a redactora-chefe de ser responsável por uma publicação que não defende os direitos humanos, comportando-se de forma desrespeitosa. Esta demitiu-se, dizendo que bitch, na Holanda, se utiliza sem problemas para descrever uma pessoa irritante» («Rihanna em nova polémica», «P2»/Público, 23.12.2011, p. 19).
      E depois? Se lhe chamou nigga bitch, para que é para aqui chamado o particular matiz que bitch tem na Holanda? Irritante, esta Eva Hoeke. Bitch.
[Texto 878]

Arquivo do blogue