Adjectivos compostos

Se não ofender

      Então qual foi o critério seguido? «[...] Algumas das viagens iniciadas aqui foram decididas apenas alguns dias antes, reservadas em resposta a uma situação a desenvolver-se rapidamente nos escritórios de Munique ou de Milão; outras são o fruto de três anos de ansiosa antecipação de regresso a uma aldeia no Norte de Caxemira com seis malas verdes-escuras cheias de prendas para jovens parentes ainda desconhecidos» (Uma Semana no Aeroporto – Um Diário de Heathrow, Alain de Botton. Tradução de Manuel Cabral e revisão de Tiago Albuquerque Marques. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 35). «Não poderemos gozar palmeiras e piscinas azul-celestes, se a relação em que estamos envolvidos subitamente se revelar cheia de incompreensão e ressentimento» (idem, ibidem, p. 54).
[Texto 869]

«Eminente/iminente»

Dos piores

      «Do lado do terminal sobressaía a cauda solitária de um A321 da British Airways, antecipando outra odisseia eminente no frio implacável da baixa estratosfera» (Uma Semana no Aeroporto – Um Diário de Heathrow, Alain de Botton. Tradução de Manuel Cabral e revisão de Tiago Albuquerque Marques. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 30).
      É o mais amaldiçoado par de parónimas que existe. Ainda ontem vi num autor, que me dissera ter sido professor de Português durante mais de quarenta anos, «a eminência de um novo cerco». Na maioria dos casos, há-de ser resultado apenas de falta de atenção. Feito o diagnóstico, já se sabe o remédio.
[Texto 868]

Gíria médica

Aqui ao lado

      No noticiário das 7 da tarde, na Antena 1, o director clínico do Hospital da Luz, Dr. José Roquette, veio falar do estado de saúde de Eusébio. «Está estável, vígil e bem-disposto e acabou de jantar.» Quanto tempo vai ficar hospitalizado o Pantera Negra? «Nesta fase, é muito difícil fazer qualquer informação sobre o tempo que ele vai cá ficar.»
      Fazer medicação, fazer uma entorse, fazer informação... É a gíria médica na sua ausência de esplendor e de imaginação.
[Texto 867]

Léxico: «cisalhamento do vento»

Isso sim

      «Por detrás de cada voo bem sucedido estão os esforços coordenados de centenas de almas, desde os fabricantes dos kits de cortesia das companhias aéreas até aos engenheiros da Honeywell, responsáveis pela instalação de radares de detecção de cisalhamento do vento e de sistemas de prevenção de colisão» (Uma Semana no Aeroporto – Um Diário de Heathrow, Alain de Botton. Tradução de Manuel Cabral e revisão de Tiago Albuquerque Marques. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 25).
      Eu não conhecia a expressão, de cariz técnico. Só me espanta uma coisa: que se não tenha copiado a expressão inglesa: wind shear. Kit está entre as palavras difíceis impossíveis de traduzir...

[Texto 866]

Uma frase

Interessa saber

      «Quando observamos objectos caríssimos de beleza tecnológica, podemos sentir-nos tentados a resistir ao assombro, não vá ficarmos estúpidos de admiração» (Uma Semana no Aeroporto – Um Diário de Heathrow, Alain de Botton. Tradução de Manuel Cabral e revisão de Tiago Albuquerque Marques. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 17).
      Trata-se, acaso, de uma expressão fixa, para que possa ficar assim? Ou há ali uma elisão: «não vá [acontecer] ficarmos estúpidos de admiração»?
[Texto 865]

Sobre «corporação»

E continua assim

      «No Verão de 2009, recebi um telefonema de um homem que trabalhava para uma corporação proprietária e operadora dos aeroportos de Southampton, Aberdeen, Heathrow e Nápoles, para além de supervisionar as áreas comerciais dos aeroportos de Boston Logan e de Pittsburg International» (Uma Semana no Aeroporto – Um Diário de Heathrow, Alain de Botton. Tradução de Manuel Cabral e revisão de Tiago Albuquerque Marques. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 14).
      Já vimos, e mais de uma vez, no Assim Mesmo como este anglicismo semântico é completamente desnecessário.
[Texto 864]

«Tese/dissertação»

Nem em Trás di Munti

      «O Jon Schubert, um suíço que estuda na Escócia e passou a infância em Angola, usou a bolsa para fazer um ano de trabalho de campo sobre memória e política na Angola pós-guerra civil. Vai redigir a sua tese de doutoramento no próximo ano e meio. [...] O Marcos Santos terminou a investigação e a escrita da sua tese de mestrado sobre theileriose bovina (não perguntem) que concluiu e defendeu com excelente nota. [...] A Tânia Madureira é antropóloga e foi a primeira a partir, para um trabalho de campo em Trás di Munti, na ilha cabo-verdiana de Santiago. Veio de lá carregada de imagens e gravações que entretanto transcreveu, e encontra-se a redigir a sua tese de mestrado» («Bolsas 2.0», Rui Tavares, Público, 19.12.2011, p. 32).
      Já o vimos várias vezes no Assim Mesmo: dissertação de mestrado e tese de doutoramento. Confundir tudo ou trocar as designações nunca pode redundar em nada de bom.

[Texto 863]

«Desgravação»

E voltou a errar

      «Na entrevista com a ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, ontem editada como destaque do PÚBLICO, por lapso de desgravação vem erradamente referido o nome de Marcelo Curto como tendo sido um dos dois políticos condenados em Portugal por corrupção» («O Público errou», Público, 20.12.2011, p. 30).
      Já o escrevi há mais de um ano: é termo (juntamente com o verbo desgravar) da gíria jornalística que os jornalistas deviam reservar para falar entre si.
[Texto 862]

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