Sobre «desenhar»

Desenham muito

      «Um dos grandes desígnios do PDJ era a limitação do poder da burocracia. É a alta burocracia — inspirada no mandarinato chinês — quem efectivamente “governa” o Japão. Foram os altos funcionários do MITI (Ministério do Comércio Externo e da Indústria) quem desenhou a estratégia de crescimento em simbiose com os grupos industriais e financeiros. Mas, a partir do fim da década de 1980, mostraram-se incapazes de responder à “estagnação”» («Japão à deriva», Jorge Almeida Fernandes, Público, 23.12.2012, p. 25).
      Mesmo se a acepção de conceber, projectar, idear sempre esteve no vocábulo português, por influência da língua inglesa, ultimamente é um fartote, e não apenas, longe disso, nas traduções. Agora, nada é concebido, projectado, ideado, pensado, é tudo, mas tudo desenhado.
[Texto 2457]

«Bacalhau de cura amarela»

Não só os queijos

      «A qualidade paga-se e bem. O bacalhau amarelo é o mais caro de todos, pode custar 30 euros o quilo» (jornalista Sandra Vindeirinho, no Telejornal de ontem). Bacalhau de cura amarela, é como se costuma dizer. No verbete «cura», o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só regista a acepção relativa aos queijos: «processo de maturação dos queijos que lhes apura o sabor e os torna mais consistentes». Não devia registar algo semelhante em relação ao bacalhau? O bacalhau de cura amarela (por ser mais gordo?) é menos salgado do que os outros, tem um teor de sal igual ou inferior a 45 % e a cura é obtida pela exposição ao sol.
[Texto 2456]

Infeliz verbo «haver»

Área crítica

      Pobre verbo «haver», pobres jornalistas. «A Chapelaria Azevedo Rua está há 126 anos na família. Chapéus continuam a haver muitos. E há cerca de trinta anos atrás já se faziam as contas» (jornalista Filipa Simas, no Telejornal de ontem).
[Texto 2455]

Tradução: «minable»

Esquecem-se, é isso

      «Catherine Deneuve, que já contracenou com Depardieu em O Último Metro, em 1980, ou Potiche – Minha Rica Mulherzinha, de 2010, atacou também o Governo, cujo primeiro-ministro, Jean-Marc Ayrault, classificou a decisão de Depardieu de “depreciável”. Para a atriz os adjetivos utilizados “não são dignos de membros ligados ao Estado”. Também Brigitte Bardot veio defender o ator, chamando a atenção para a sua importância e contribuição para o cinema e a cultura francesas» («Catherine Deneuve defende amigo Depardieu na ‘fuga’ para a Bélgica», Tiago Henriques, Diário de Notícias, 22.12.2012, p. 45).
      Não tínhamos já visto que o adjectivo era só um, minable, e que se traduz por «miserável», «deplorável»? Vimos aqui.
[Texto 2454]

Como se escreve nos jornais

Do senhor provedor

      «Comecei por escrever à mão, com letra o mais clara possível, para que um tipógrafo “batesse” o texto na sua formidável e saudosa Linotype – do inglês line of types, linha de caracteres – que, a cada toque numa tecla, movia uma garra que buscava o molde de uma letra e juntava-o aos restantes, formando palavras e linhas. O chumbo, que ia derretendo de uma barra suspensa nas traseiras da máquina, haveria de ser vertido sobre os moldes e formar os blocos de texto que mais tarde seriam prensados sobre um cartão grosso, juntamente com títulos e imagens, para novo banho de chumbo numa forma cilíndrica. [...] Era também obrigação dar o background – os antecedentes – de uma história, na própria notícia, de modo a que o leitor que não tivesse lido a anterior não se sentisse posto à margem. [...] A regra do background tem a ver com o facto de um jornal, em especial na edição em papel, ser efémero, isto é, durar um dia» («Podem aproveitar-se mais as potencialidades criadas pela evolução tecnológica», Oscar Mascarenhas, Diário de Notícias, 22.12.2012, p. 47).
[Texto 2453]

Ortografia: «calazar»

Saibam todos quantos

      «A alimentação era de péssima qualidade e a fome, e doenças associadas com as carências alimentares, como o raquitismo, eram comuns. A tuberculose era generalizada, e o alcoolismo um flagelo social. Eram igualmente comuns os traços da varíola, da poliomielite, e em certas zonas do país havia malária e kala-azar» («Viagem ao passado por causa do presente», José Pacheco Pereira, Público, 22.12.2012, p. 44).
      Como o vocábulo vem do hindustâni, Pacheco Pereira quis dar-lhe uma feição ainda mais exótica. Saiba o historiador que em português se escreve calazar.
[Texto 2452]

Léxico: «carne verde»

Talvez devesse estar

      «No final do século XIX, princípio do século XX, o incipiente operariado português concentrava-se em poucas fábricas dignas desse nome no Norte do país, em particular no Porto, e numa multidão de pequenas oficinas em Lisboa e Setúbal e nas principais cidades do país. Eram operários e operárias, tabaqueiros, têxteis, soldadores, conserveiros, corticeiros, mineiros, padeiros, alfaiates, costureiras, cinzeladores, cortadores de carnes verdes, carpinteiros, fragateiros, estivadores, carregadores, carrejonas no Porto, carvoeiros, costureiras, douradores, etc., etc.» («Viagem ao passado por causa do presente», José Pacheco Pereira, Público, 22.12.2012, p. 44).
      Naturalmente que os dicionários não podem registar todos os termos e expressões da língua, mas as que vão aparecendo nos meios de comunicação não deviam lá faltar. Carne verde é o nome que se dá à carne de animais abatidos na véspera do consumo, sem qualquer conservação.
[Texto 2451]

«Estadio»?

Chegou à política

      Que não me esqueça esta: a ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, anteontem à noite no programa de entrevistas De Caras: «Bom, há PPP de cariz diferente e de natureza diferente e que estão em estádios, em estadios diferentes da sua execução.»
      Até há pouco, eram apenas médicos (e já era muita gente) que falavam assim, agora a patologia chegou aos governantes. As melhoras.
[Texto 2450]

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