O «Público» errou

Dados mais finos

      «Na edição do PÚBLICO de dia 8 escrevia-se em título que “Um quinto da população portuguesa não tem qualquer nível de ensino”. Embora o número fornecido pelo INE esteja correcto, devia ter-se referido que neste valor o INE incluiu as crianças sem idade para poderem ter qualquer nível de escolaridade, o que significa que, retirada esta população, o indicador será bastante mais baixo. No entanto, não há neste momento no Censos 2011 dados mais finos que permitam conhecer esta realidade com rigor, algo que só acontecerá com a divulgação dos dados definitivos, em 2012. Pela omissão daquela informação, as nossas desculpas» («O Público errou», Público, 23.12.2011, p. 32).
      Oito dias depois de o provedor do jornal ter referido, citando a carta de um leitor, o caso é que vêm fazer a correcção. Quando se erra e se sabe que se errou, a correcção só perde na demora. No sobe e desce, fica bem lá em baixo.
[Texto 876]

Falsos amigos

Ao lado

      «A 1 de Janeiro, o castelo de Windsor estará convertido num palácio ecológico, sendo capaz de gerar a sua própria electricidade. Ou seja, a rainha Isabel II continua determinada em ter uma monarquia verde. Antes já havia mandado instalar uma planta hidroeléctrica em Balmoral, Escócia» («Isabel II é uma rainha verde», «P2»/Público, 23.12.2011, p. 19). 
      Sim, a rainha «has installed a small hydro-electric plant at Balmoral which is selling electricity to the national grid». Senhor jornalista: em espanhol é que planta também é a «fábrica central de energía, instalación industrial». Mas nós estamos em Portugal, não é?
[Texto 877]

Acordo Ortográfico

Isso é dAO

      «Todos os anos, a revista Science escolhe o avanço do ano. Em 2011, a escolha tem um carácter quase mais político do que científico: os ensaios clínicos que demonstraram claramente que os medicamentos antirretrovirais previnem a transmissão do HIV entre casais heterossexuais, quando um dos elementos não tem sida» («Prova de que medicamentos para HIV previnem transmissão da sida é avanço do ano», Clara Barata, Público, 23.12.2011, p. 21).
      Assim, em doses homeopáticas, os leitores do Público não vão rejeitar as novas regras ortográficas. Então não é anti-retroviral que devia ter escrito, cara Clara Barata? Quais são as ordens?
[Texto 875]

Como se escreve nos jornais

É o que vem à cabeça

      «Este tipo de condição acontece uma vez em cada 100.000 gravidezes, mas a sobrevivência é de 50%. Este é o segundo caso de siameses ligados pelo corpo num ano no Brasil, os primeiros morreram no nascimento. Nos EUA, um dos casos mais célebres é o das gémeas Abigail e Brittany Hensel, nascidas em 1990. Segundo a BBC News, ambas têm tido uma vida normal dentro do possível e até tiraram a carta de carro quando fizeram 16 anos» («Gémeos partilham maioria do corpo», Público, 23.12.2011, p. 21).

[Texto 874]

Léxico: «amarelo-choque»

Para nada

      «A associação ambientalista Quercus alertou ontem que a EDP está a pintar partes do paredão da barragem de Bemposta (Mogadouro) de “amarelo-choque”, sem autorização do Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB)» («EDP pinta barragem à revelia do ICNB», Público, 22.12.2011, p. 21).
      Ainda não foi acolhido, como o rosa-choque, nos dicionários, mas essa não é razão para ter o preservativo das aspas.
[Texto 873]

«Azulejo/mosaico»

Até para não haver confusões

      «Aqui, em contraste flagrante, encontramos um chão de azulejo cinzento, corredores bem iluminados ladeados de painéis de vidro num calmante verde-pálido e retretes com louças bonitas e portas de madeira maciça a toda a altura dos cubículos» (Uma Semana no Aeroporto – Um Diário de Heathrow, Alain de Botton. Tradução de Manuel Cabral e revisão de Tiago Albuquerque Marques. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, pp. 119-120).
      Não serão muitos os dicionários que registam que o azulejo serve para revestir paredes. Alguns registam que é a placa de cerâmica geralmente utilizada no revestimento de paredes. Outros registam apenas que serve para revestir superfícies. Sabemos, contudo, do dia-a-dia, que, se formos a uma loja de materiais de construção e pedirmos azulejos, não nos darão nada de semelhante às placas cinzentas que revestem o chão dos terminais mais recentes do Aeroporto de Heathrow. Dar-nos-ão antes a escolher, e sem surpresa para mim, de entre uma série de placas de cerâmica parecidas com as que Ricardo Taveira desenhou para o Estádio do Sporting.
[Texto 872]

Anglicismos

Já não chegam as palavras portuguesas

      «Sempre que mergulhavam os olhos um no outro, como se realizassem de novo a catástrofe que lhes ia cair em cima, entregavam-se a um novo acesso de choro» (Uma Semana no Aeroporto – Um Diário de Heathrow, Alain de Botton. Tradução de Manuel Cabral e revisão de Tiago Albuquerque Marques. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 45). «A nossa sociedade é afluente em grande medida porque os seus cidadãos mais ricos não se comportam como popularmente se imagina» (idem, ibidem, pp. 86-87).
      Decerto que o tempo de que se dispõe para se traduzir e rever tem toda a importância, mas, em relação a certos aspectos da língua, tanto demora e custa fazer bem como fazer mal. E quem quer, deliberadamente, fazer mal? Ninguém, certamente, mas adquirir conhecimentos é árduo, é trabalho, e trabalho que cedo se revela infinito.
[Texto 871]

Tradução: «room»

E ainda dizem que eles não

      «A intervalos de minutos, uma voz (geralmente de Margaret, ou então da sua colega Juliet, falando a partir de um pequeno quarto no andar de baixo) fazia um anúncio tentando reunir, por exemplo, uma Sr.ª Barker, recentemente chegada de Frankfurt, com a sua bagagem extraviada, ou de recordar ao Sr. Bashir o embarque imediato no voo para Nairobi» (Uma Semana no Aeroporto – Um Diário de Heathrow, Alain de Botton. Tradução de Manuel Cabral e revisão de Tiago Albuquerque Marques. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 55).
      Ora vejam como se cai nos erros mais elementares. Uma funcionária do Aeroporto de Heathrow a trabalhar num pequeno quarto. Entre nós, o quarto é a divisão da casa onde geralmente se dorme. Quando se traduz a palavra room, é prudente pensar nestas coisas básicas. No caso, nem tradutor nem revisor repararam. É muita gente...
[Texto 870]

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