«Onde/aonde/donde»

Vou para casa

      «A este propósito, a Isabel Amaral contou que o Manoel de Oliveira, intrigado perante tão inusitado êxito [do filme Vou para Casa], perguntou ao Paulo Branco: “Aonde é que a gente errou?!”» (Diário de Paris – 2001-2003, Marcello Duarte Mathias. Lisboa: Oceanos, 2007, 2.ª ed., p. 111).
      Manoel (obriguem-no lá a escrever o nome com u, vá lá) de Oliveira fala assim tão mal? Não acredito. Acho que, se leu o livro, ficou outra vez intrigado.
[Texto 782]

Revisão

Iconic British Luxury Brand Est. 1856

      «Velhos e velhas encasacados nos seus loddens, cor verde-escura, envoltos nos cachecóis axadrezados da Burberrys. Friorentos, estão com mais frio do que o frio que está. Burguesia de cabelos brancos, neta e bisneta de burgueses, anestesiada por décadas de bem-estar» (Diário de Paris – 2001-2003, Marcello Duarte Mathias. Lisboa: Oceanos, 2007, 2.ª ed., p. 24).
      É loden que se escreve, como já aqui vimos a propósito daquele que Freitas do Amaral usava. E, como o título mostra, é Burberry que se escreve. Um entre muitos erros e gralhas nesta quase de certeza falsa 2.ª edição. Fica para a próxima tiragem, ou, se com todos ou quase todos os erros e gralhas corrigidos, quem sabe se 3.ª edição.
[Texto 781]

Sobre formas de tratamento

Você é que sabe

      «Paralelamente, sobre o complicado que são as relações humanas em Portugal, em especial o tratamento entre pessoas, [Antonio Tabucchi] diz-me que somos considerados nesta matéria, depois do Japão, o país cujas regras são as mais difíceis de apreender. Recomenda-me a este propósito o pequeno estudo do Lindley Cintra: Sobre “Formas de Tratamento” na Língua Portuguesa.
      De facto, como explicar a um estrangeiro que se deve tratar o interlocutor que se tem pela frente na terceira pessoa do singular e pelo nome próprio, como se estivéssemos a evocar um ausente! (A solução seria talvez generalizar o emprego do “você” brasileiro, embora suscite anticorpos em muita gente.)» (Diário de Paris – 2001-2003, Marcello Duarte Mathias. Lisboa: Oceanos, 2007, 2.ª ed., p. 260).
      Tão difíceis de apreender, na verdade, que até alguns professores universitários têm dificuldade.

[Texto 780]

Como se fala na televisão

Compara tu


      Diminuíram os levantamentos por multibanco, disse o jornalista António Esteves ontem na 1.ª edição do Telejornal: «O período em análise é a semana de 28 de Novembro a 4 de Dezembro de 2011 e compara com o mesmo período do ano passado.» Já tínhamos visto este modismo, ou má tradução, ou lá o que é, aqui.
[Texto 779]

Ortografia: «brócolos»

Não tenho preferências

      «Anteontem a Maria João e eu fomos almoçar à praia. Comemos cantaris e bróculos. O dia e o mar estavam feios mas não poderiam ser mais bonitos. A minha paisagem favorita foi olhar para ela» («Voltou», Miguel Esteves Cardoso, Público, 7.12.2011, p. 33).
      Também a professora Teresa Álvares, do Ciberdúvidas, preferia que fosse «bróculos», com uma argumentação que não colhe: «Ora, pensando bem, o meu erro que era também o de J. C. B., apontado oportunamente por uma consulente do Ciberdúvidas, nem é assim tão disparatado: se em Italiano «broccolo» deriva de «brocco», a que se acrescentou o sufixo diminutivo -olo(a), e em Português o sufixo correspondente é -ulo(a) (montículo, espátula), porque é que um «pequeno dente saliente» dum certo tipo de couve não se há-de poder chamar bróculo?» A seguir-se este raciocínio, muito estaria errado na língua.

[Texto 778]

Aportuguesamento

Rocha e o tablete

      «Ontem, José Rocha (PTP), fazendo “concorrência” à RTP-M, que transmitiu em directo o discurso de Jardim, tentou gravar as intervenções com um tablete, mas Mendonça ameaçou expulsá-lo do hemiciclo. A sessão foi temporariamente suspensa, depois prosseguiu com José Manuel Coelho a gravar» («Sem transmissão. Parlamento offline há três anos», Público, 7.12.2011, p. 11).
      O texto não está assinado, mas há-de ser da autoria de Tolentino de Nóbrega, que assina o texto principal. Este não passou no famoso crivo que têm lá no Público para os estrangeirismos. Já tínhamos a tablete, que veio do francês, agora passámos a ter o tablete, que vem do inglês.
[Texto 777]

Sobre «no entanto»

Essencial e etimologicamente advérbios

      «Por isso, i.e., por serem essencial e etimologicamente advérbios, é que no entanto, entretanto, contudo e todavia vêm freqüentemente precedidos pela conjunção e: “Vive hoje na maior miséria e (,) no entanto (,) já possuiu uma das maiores fortunas do país.” A ser no entanto simples conjunção, simples utensílio gramatical (conectivo), torna-se difícil a classificação da oração: coordenada aditiva, em função do e, ou adversativa, em função do no entanto? É evidente que não poderá ser uma coisa e outra. A ortodoxia gramatical aconselharia a supressão do e, em virtude de, modernamente, se atribuir a no entanto valor de conjunção. Mas, se se aceita o agrupamento, a oração será aditiva, e no entanto, advérbio, caso em que costuma (ou deve) vir entre vírgulas. O que se diz para no entanto serve para entretanto, todavia, não obstante» (Comunicação em Prosa Moderna, Othon Moacyr Garcia. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006, 26.ª ed., p. 44).
      A função de conjunção daquelas partículas é relativamente recente na língua portuguesa, posterior ao século XVIII. Na 6.ª edição do dicionário de Morais, de 1856, ainda «porém» e «todavia» aparecem como advérbios.
[Texto 776]

«Quando muito»

Bons nas pequenas coisas

      «Tonto como sou, ando há várias semanas a perder tempo com o infeliz assunto da irresponsabilidade contumaz dos dirigentes que temos. Hoje, porém, voltou a ocorrer-me que esta teimosia é reveladora de uma enorme insensatez; que, apesar do esforço de reflexão, análise e crítica realizado por várias gerações de pessoas muito melhores do que eu, não consta que o país alguma vez tenha despendido algum esforço para tentar ser melhor do que é. Quanto muito, carrega na maquilhagem, faz uma plástica às mamas e vai abanar o traseiro para os salões, na esperança de engatar algum velho rico que o sustente» («O Sócrates bom», Jorge Marmelo, «P2»/Público, 6.12.2011, p. 3).
      No máximo, se tanto, que é o que o jornalista Jorge Marmelo queria dizer, escreve-se quando muito, e já o vimos no outro blogue mais de uma vez.
[Texto 775]

 

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