Léxico: «prisão-escola | prisão-hospital | prisão-oficina»

Do limbo das promessas


      «O EP de Odemira nasceu em 1995, com um infantário, para responder à demanda da população feminina do sul. O antigo sanatório-prisão da Guarda passou a EP feminino em 1998 para receber, sobretudo, mulheres originárias dos distritos da Guarda, de Castelo Branco, de Portalegre e de Viseu. As reclusas foram em 2017 transferidas dali para a extensão do Mondego, que antes servira de centro educativo» («Reclusas do Sul ficam concentradas em Tires e famílias pagam o preço», Ana Cristina Pereira, Público, 11.05.2026, 7h00). 

      O composto «sanatório-prisão» não figura actualmente no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, apesar de remeter para uma série histórica bem documentada na organização penitenciária portuguesa do século XX. Em documentação oficial do Estado Novo, surgem designações como «prisão-escola», «prisão-hospital», «prisão-sanatório», «prisão-asilo» e «prisão-oficina». Curiosamente, a jornalista emprega a forma «sanatório-prisão», e não a designação histórica oficial «prisão-sanatório», usada sistematicamente na classificação penitenciária da época. A inversão dos elementos parece reflectir uma reorganização espontânea da percepção lexical: em vez de uma prisão com funções sanatoriais, o composto passa hoje a sugerir antes um sanatório adaptado à função prisional. Ainda assim, a Porto Editora prepara — promete: «brevemente disponível» — o acolhimento das formas históricas «prisão-escola», «prisão-hospital» e «prisão-oficina», o que reforça a legitimidade lexical e documental de «prisão-sanatório» e «prisão-asilo», igualmente atestadas na terminologia penitenciária portuguesa.

[Texto 22 991]

Léxico: «rafaélico»

Pois tens — em bilingues


      «O Lima, emoldurado acima da cidade num caixilho de verdura, sem grande relevo mas duma nitidez e encanto pré-rafaélico, deixou-o quase indiferente» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 250).

[Texto 22 990]

Definição: «remontada»

No mundo fabuloso do futebol


      Andava há muito tempo para propor à Porto Editora a dicionarização de «remontada». Ontem, quando a ouvi, mais uma vez, na rádio, meti mãos à obra, mas levei com um balde de água fria: já estava no dicionário! Não está, porém, tudo perdido, já que me parece que a definição é demasiado extensa: «situação (sobretudo num contexto desportivo) em que alguém consegue passar para uma situação de vantagem face ao seu oponente após ter estado em posição adversa ou em desvantagem; reviravolta, virada». Para uma coisa tão simples, é gastar munição. Muito palavrosa. Assim, proponho remontada DESPORTO recuperação espectacular de uma desvantagem no marcador, quando a derrota parecia certa, sobretudo no futebol. 

      Omito a sinonímia final da Porto Editora por duas razões: porque não me parece bem explicar um termo castelhano (está bem: já português quando o estamos a dicionarizar) com um termo brasileiro e porque a própria Porto Editora, embora erradamente, o que dicionariza é «de virada».

[Texto 22 989]

Definição: «alquerque»

Um pedacinho de História


      «Los tableros de juego grabados sobre piedra constituyen uno de los testimonios más curiosos y menos conocidos de la cultura material medieval. Entre ellos destaca el alquerque, un diseño geométrico ampliamente documentado en iglesias, monasterios, castillos y edificios históricos de toda la Península Ibérica. Aunque tradicionalmente se han interpretado como simples juegos utilizados durante los momentos de ocio en el periodo deconstrucción del edificio, investigaciones recientes han demostrado que muchos de estos grabados poseen una dimensión más compleja relacionada con el simbolismo, la protección y la propia concepción medieval del espacio sagrado» («El alquerque, algo más que un juego», Marisa Bueno, La Razón, 13.05.2026, p. 51). 

      Ou seja, temos aqui uma riqueza que os dicionários não nos deixam sequer entreadivinhar. Assim, proponho ➠ alquerque antigo jogo de estratégia de origem árabe, jogado por dois participantes num tabuleiro de linhas intersectadas, geralmente com doze peças para cada jogador, movidas entre pontos adjacentes e capturadas por salto; conheceu ampla difusão medieval na Península Ibérica e é considerado o antecedente histórico directo das damas. 

      Quanto à etimologia, vem do árabe hispânico alqírq, e este do árabe clássico qirq, designação de um jogo de estratégia difundido na Península Ibérica medieval.

[Texto 22 988]

Léxico: «zua»

Ficamos a saber, para sempre


      «Ana de Jesus, que encontraremos durante a tarde na Obélix, a sua loja de minerais, decoração e bijutaria, confirma através de um regionalismo. “As pessoas são muito zuas”, comenta a mulher brasileira, que aqui vive há 18 anos e por isso já sabe que zua é o nome que se dá aos habitantes da praia de Mira. “Mas mesmo que não sejam da praia, mesmo que sejam de outra freguesia do concelho, as pessoas são muito zuas, muito viradas para a terra”, analisa» («Nunca perdeu a bandeira azul. Mira é “praia-modelo” pelo “empenho de todos”», Sandra Silva Costa, Público, 11.05.2026, p. 18).

[Texto 22 987

Léxico: «orientação»

Orientem-se


      É isso, aquela orientação da Direcção-Geral da Saúde não está nos dicionários, pelo que sugiro orientação SAÚDE PÚBLICA conjunto de instruções, recomendações ou medidas transmitidas, por autoridade sanitária ou por profissionais de saúde, a um indivíduo, grupo, instituição ou serviço, no âmbito da vigilância epidemiológica, da prevenção ou do controlo de doenças, relativas a avaliação de risco, procedimentos clínicos, isolamento, vigilância de sintomas, profilaxia, encaminhamento ou outras formas de actuação sanitária.

[Texto 22 986]

Léxico: «não-caso»

Façam caso


      «A Direção-Geral da Saúde (DGS) publicou esta segunda-feira orientações para a gestão de possíveis casos suspeitos do surto de hantavírus e indicou que o risco em Portugal “mantém-se muito baixo”, sem necessidade de implementar medidas preventivas. “Esta Orientação enquadra as medidas a adotar, pelos profissionais do sistema de saúde português, para gestão de eventuais contactos no âmbito do surto da Hantavírus no navio cruzeiro MV Hondius, na eventual possibilidade de darem entrada em Portugal indivíduos que foram contactos de casos com relação a este surto”, explicou a DGS em comunicado publicado na sua página na Internet» («Hantavírus: DGS publica normas para possíveis casos suspeitos», Rádio Renascença, 11.05.2026, 23h19). 

      Decerto ainda se lembram de termos sugerido a dicionarização de «não-dito» e «não-assunto» no ano passado. Bem, nesta orientação (acepção também fora dos dicionários) da DGS usa-se, e é habitual em epidemiologia, o termo «não-caso», que passaremos a definir assim não-caso EPIDEMIOLOGIA indivíduo inicialmente sujeito a vigilância, investigação ou avaliação clínica por suspeita de determinada doença, exposição ou condição sanitária, mas que, após aplicação dos critérios epidemiológicos, clínicos ou laboratoriais estabelecidos, é excluído da classificação de caso confirmado, provável ou suspeito; pessoa que não preenche os critérios definidos para ser considerada caso numa investigação epidemiológica ou sistema de vigilância sanitária.

[Texto 22 985]

Léxico: «rusgata»

Mais um regionalismo


      «Pelo contrário, nunca ele se mostrou mais atreito às mundanidades da terra e em particular às rusgatas de que era pródigo o velho carrocel de Vandoma» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 50).

[Texto 22 984]

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