Definição: «conta-rotações»

Mede, indica ou mostra


      «O grande destaque está num detalhe inesperado: o TZ pode ser conduzido ao som do lendário V10 do Lexus LFA. Através do sistema Interactive Manual Drive, o SUV simula uma caixa manual com recurso às patilhas atrás do volante, incluindo conta-rotações no painel de instrumentos e uma banda sonora inspirada no supercarro japonês» («Novo SUV elétrico da Lexus soa como o V10 do LFA», Mariana Teles, Razão Automóvel, 11.05.2026, 9h41). 

      Sabemos exactamente o que é um conta-rotações? A Porto Editora define-o assim: «aparelho que determina a velocidade de rotação do motor». Podemos ter a certeza de que não é um aparelho, não se refere apenas a motores e que não determina nada: mede, indica ou mostra. «Determinar» faz lembrar cálculo ou inferência, não leitura instantânea de um parâmetro mecânico. Hoje em dia, um conta-rotações é essencialmente um indicador, sem autonomia funcional, já nem tanto um dispositivo, mas ainda se podia usar o termo. 

      Tudo visto, proponho ➠ conta-rotações MECÂNICA indicador do número de rotações por minuto de um sistema rotativo (por exemplo, um motor ou uma turbina).

[Texto 22 983]

Léxico: «formiga-ceifeira | tomar a árvore pela floresta»

Nome comum de várias


      «Há um mercado negro a crescer dedicado a traficar formigas, usando métodos como seringas. De acordo com uma reportagem do “The Guardian”, há umaespécie específicahabitante do este de África conhecida como Messor cephalotes, o maior tipo de formiga-ceifeira do mundo» («Formigas traficadas em seringas no mercado negro», João Malheiro, Rádio Renascença, 13.05.2026, 8h10, itálicos meus).

      O que a Porto Editora está a fazer ao indicar que o nome científico da formiga-ceifeira é Messor barbarus é, no fundo, tomar a árvore pela floresta. Acontece que «formiga-ceifeira» não é, em rigor, um nome exclusivo dessa espécie: é antes um nome comum aplicado a várias espécies granívoras do género Messor, e até a outros géneros noutras regiões do mundo, o que o artigo do Guardian confirma. Não vamos tratar um hipónimo como se fosse equivalente ao hiperónimo. Assim, proponho formiga-ceifeira ZOOLOGIA nome comum de diversas formigas sociais granívoras, sobretudo do género Messor, caracterizadas pelo hábito de recolher e armazenar sementes em ninhos subterrâneos, onde estas podem ser trituradas e consumidas; apresentam forte polimorfismo entre castas operárias, com indivíduos maiores dotados de cabeça larga e mandíbulas poderosas; em Portugal, a designação aplica-se frequentemente à espécie Messor barbarus.

[Texto 22 982]

Léxico: «anomalia»

Nem perto nem longe


      «Le petit monde de la physique des particules est en émoi. Une “anomalie” observée dans les détecteurs LHCb et CMS du LHC, le plus grand accélérateur de particules au monde, situé au Cern, à Genève, est à l’origine de ce trouble. Une particule fugace, le méson “B zéro”, écrit B°, s’y désintègre de manière très légèrement différente aux prédictions théoriques. Cet écart n’est pas encore pleinement confirmé, mais il pourrait constituer la première trace, subtile, d’une nouvelle physique. Ce pourrait être la première fois que le modèle standard, qui décrit avec une précision redoutable la manière dont fonctionne le monde étrange des particules en mécanique quantique, est mis en défaut» («Une “anomalie” détectée dans le LHC enthousiasme la communauté des physiciens», Tristan Vey, Le Figaro, 13.05.2026, p. 12). 

      A única acepção de «anomalia» do dicionário da Porto Editora minimamente próxima do uso do artigo é a 4.ª, «excepção à regra; singularidade». Mas «singularidade» é demasiado vaga; «excepção à regra» é demasiado genérica e nenhuma das duas exprime a ideia essencial de discrepância entre observação e previsão teórica. Mas alegrem-se: o tão decantado Houaiss não anda perto nem longe. (Não que o caso nos desperte propriamente Schadenfreude lexicográfica, mas se querem comparações...) Não anda. Assim, dado o panorama, proponho anomalia CIÊNCIA resultado, observação, fenómeno ou conjunto de dados que diverge do previsto por um modelo teórico, por uma hipótese ou pelo comportamento esperado, podendo indicar limitação do modelo existente, erro experimental ou necessidade de nova explicação científica. 

      Se bem que esteja implícito, quero deixar claro aqui neste espaço pós-definição: a anomalia não reside necessariamente no fenómeno em si, mas na relação entre os dados e a teoria que procura explicá-los. É isso que distingue este uso científico moderno da mera irregularidade tradicional.

[Texto 22 981]

Erros de sempre e para sempre

Antes que se consolide


      «Em comunicado enviado posteriormente às redações, a GNR explica que a fuga “foi facilitada pela intervenção de cerca de duas dezenas de cidadãos que se encontravam no local e que criaram uma barreira física, impedindo o encalce imediato por parte dos militares”, os quais ainda fizeram “disparos de advertência para o ar”, mas não lograram travar o fugitivo» («Tiros para o ar durante fuga de tribunal», João Carlos Rodrigues, Correio da Manhã, 14.05.2026, p. 39). 

      Claro que já vi demasiadas vezes este erro, mas hoje, João Carlos Rodrigues, vai aprender. Vai aí uma grande confusão nessa cabeça. A expressão é uma e só uma, sem variantes, ir no encalço de, que significa «seguir a pista de; perseguir». Era o caso. Quanto a «encalce», que não fique por esclarecer, é simplesmente uma forma do verbo encalçar, que significa «ir no encalço de; seguir de perto». Basta seguir aqui o seu colega: «O detido, algemado, fugiu pela porta principal do tribunal. Os militares arrancaram no seu encalço, mas, já no exterior, voltaram a ser agarrados por pessoas que ali permaneciam» («Invadiram tribunal para permitir fuga de cadastrado detido», Roberto Bessa Moreira, Jornal de Notícias, 14.05.2026, p. 16).

[Texto 22 980]

Definição: «garum»

O ketchup dos Romanos


      Ali entre a Casa dos Bicos e a Rua Augusta situava-se o complexo conserveiro, com as suas cetárias (termo que a Porto Editora dicionarizou em 26.11.2019, seguindo a minha sugestão), da antiga Olisipo, facto lembrado na quarta-feira, no programa A Escuta do Mundo, de Nuno Artur Silva, na TSF, por André Simões, professor e investigador em Estudos Clássicos na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e estrela no Instagram e no TikTok. Veio à baila, inevitavelmente, o garum, e foi sempre este o termo usado, Porto Editora, nunca «garo». 

      Disse André Simões: «Era uma espécie de... A melhor comparação com a vida de hoje é como se fosse o ketchup dos Romanos. Não no sabor, não na consistência, mas na omnipresença. Ou seja, põe-se garum em tudo. E Lisboa era uma das maiores produtoras do Império, e a nossa Tróia, portanto, ali ao pé de Setúbal, era a maior produtora do Império, tanto quanto podemos saber, de garum. [...] Acontecia a mesma coisa com o garum, porque ele era feito com peixe, era uma espécie de lasanha de peixe, a preparação. Portanto, uma camada de peixe, uma camada de sal, de especiarias, mais uma camada de peixe, e o peixe incluía tudo: as vísceras, as espinhas, tudo. E depois era deixado a macerar durante meses.»

      A definição no dicionário da Porto Editora tem, pelo menos, dois problemas, que são a referência somente aos intestinos do peixe e a subdivisão da entrada em duas acepções («salmoura feita com os intestinos...» e «molho dessa salmoura»), que me parece artificial e conceptualmente pouco rigorosa, pois separa de forma algo forçada o preparado fermentativo e o condimento dele resultante. Assim, proponho garum CULINÁRIA molho fermentado preparado com peixe e sal, geralmente mediante maceração prolongada de camadas de peixe inteiro ou das suas vísceras, por vezes com especiarias, produzido em cetárias e amplamente usado como condimento na culinária da Roma Antiga; garo.

[Texto 22 979]

Léxico: «ritmo de glaciar»

Muito len-ta-men-te


      «Quizás alguna vez haya escuchado eso de que algo avanza “a ritmo glaciar”. Un recurso estilístico para transmitir lentitud. En las zonas más gélidas de la Tierra, la nieve aumenta durante los meses invernales y disminuye en verano. Todo natural hasta aquí. Pero si en la época cálida se funde menos nieve de la que cae en la fría, se forma una capa de hielo de un año para otro que va ganando peso y que se transforma mediante un proceso de compactación» («Científicos descubren por qué el glaciar Hektoria colapsó a un ritmo inédito», Xavier Fonseca, La Voz de Galicia, 13.05.2026, p. 29). 

      Alguns podem pensar que não temos nada que ver com isto, mas estão enganados. (Deve ser porque são muito rápidos a responder.) Podia citar meia dúzia de obras, traduções, em português, em que se quis expressar esta ideia, mas o fizeram de uma de duas maneiras erradas: «ritmo glacial» ou «ritmo glaciar». Ou se escreve «ritmo de glaciar», porque é gramatical e se compreende o que está por detrás, ou mais vale encontrar outra forma de o dizer. 

[Texto 22 978]

Léxico: «bloqueio escandinavo»

Parece que não é coisa boa


      Li no Meteored que algumas simulações do modelo europeu indicam a possibilidade de formação de um bloqueio escandinavo a partir de 18 de Maio, portanto, na próxima segunda-feira. Ai, ai... Não será melhor pormo-nos a andar daqui? A propósito, o que é um bloqueio escandinavo? É, segundo todas as fontes que consultei, isto ➜ bloqueio escandinavo METEOROLOGIA situação atmosférica caracterizada pela persistência de um anticiclone sobre a Escandinávia ou o Norte da Europa, que interrompe ou desvia a circulação habitual de oeste para leste e altera a trajectória normal das depressões atlânticas, podendo provocar, conforme as regiões afectadas, períodos persistentes de frio, seca ou precipitação na Europa.

[Texto 22 977]

Definição: «biocontenção»

Muito mais do que isso


      «“Um passageiro será transportado para a Unidade de Biocontenção do Nebraska após a chegada, enquanto os outros passageiros irão para a Unidade Nacional de Quarentena para avaliação e monitorização”, disse a porta-voz do Centro Médico de Nebraska, Kayla Thomas» («Mais dois casos de hantavírus em francesa e norte-americano vindos do MV Hondius», Miguel Dantas e Leonor Alhinho, Público, 11.05.2026, 8h29).

      O confinamento por causa do coronavírus contribuiu para enriquecer e corrigir muitos termos no dicionário (além de ter contribuído para reforçar a minha sanidade mental), e podemos estar a caminho do mesmo. Dizes, Porto Editora, que «biocontenção» é o «isolamento e protecção (de laboratório, edifício, etc.) contra a disseminação de agentes biológicos patogénicos (vírus, bactérias, etc.)». Na realidade, está muito longe de ser só isso, e este simples caso serve para o demonstrar. Assim, proponho ➜ biocontenção MEDICINA, MICROBIOLOGIA conjunto de medidas, procedimentos, equipamentos e instalações destinados a impedir a exposição, disseminação ou libertação acidental de agentes biológicos patogénicos, protegendo o pessoal, a comunidade e o ambiente.

[Texto 22 976]

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