Lípsia

Dizem que é ridículo

      «Fiz os meus estudos na Alemanha, formei-me em medicina. Tornei-me até um bom médico, ocupando um lugar nas clínicas de Lípsia e, nessa época, não sei que número do Medizinische Blaetter fêz um grande barulho à volta de uma nova injecção que fui o primeiro a pôr em prática» (Amok (O Doido da Malásia), Stefan Zweig. Tradução de Alice Ogando. Porto: Livraria Civilização, s/d, 4.ª ed., p. 27).
      Agora dizem que é ridículo. Mas lá está ainda no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora lipsiense: «relativo à cidade alemã de Lípsia (Leipzig) no estado da Saxónia (Sachsen)».

[Texto 3359]

«Avante, Camarada»

Agora é assim

      «É uma espécie de “Avante, camarada”: um mero emblema. A meio da conversa, na conferência de imprensa que fechou o Congresso, Cunhal saiu-se de repente com uma extraordinária observação» (Retratos e Auto-Retratos, Vasco Pulido Valente. Lisboa: Assírio & Alvim, 1992, p. 122).
      Como sucede com o título Tanta Gente, Mariana, também neste caso omitem agora a vírgula antes do vocativo. Isso mesmo, tudo raso. Acabei de o comprovar.

[Texto 3358]

Tradução: «tussor»

Gosto e proveito

      «Através da camisa de tussor, olhei o sítio onde espetara o alfinete: curiosidade despojada de toda a paixão; recordei-me sem qualquer cólera do que Ana escrevera: “Apoio a minha mão no sítio onde lhe bate o coração... o que ele chama a última carícia permitida...”» (Teresa Desqueyroux, François Mauriac. Tradução de Nataniel Costa. Lisboa: Estúdios Cor, 1955, p. 84).
      O itálico indica bem que é um estrangeirismo, que o tradutor (e director da colecção) não quis ou não soube traduzir. (Está, efectivamente, a milhas da qualidade das traduções de Cabral do Nascimento, que lemos com outro gosto e proveito.) Agora vejam. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora está registado «tussor»: «Cabo Verde tecido fino, de seda natural». E na etimologia, «do francês tussor ou do inglês tussore, “idem”, do hindustâni tasar, “idem”». No entanto, no Dicionário de Francês-Português da mesma editora, sobre tussor lê-se: «(Índia) seda crua». Tudo isto merecia alguma harmonização.

[Texto 3357]

«Havia semanas»

Nataniel sabia

      «Teresa, menos por cansaço do que para fugir àquelas palavras com que a aturdiam havia semanas, afrouxou em vão a marcha; impossível deixar de ouvir a voz de falsete do pai» (Teresa Desqueyroux, François Mauriac. Tradução de Nataniel Costa. Lisboa: Estúdios Cor, 1955, pp. 13-14).
[Texto 3356]

Léxico: «dessolidarizar»

Podia estar

      O autor achou que tinha de inventar uma palavra: «prometeuniana». Apre. Mas, mudando de assunto, eis uma que falta em muitos dicionários: «Não posso dessolidarizar-me desses horrores, exactamente do mesmo modo que não posso dessolidarizar-me das minhas ideias. Perante a radical evidência do mal, a única salvação para o homem e para os homens aparece-me em Jesus [...]» (Deus, o Que É?, M. S. Lourenço. Lisboa: Morais Editora, 1968, p. 152).
[Texto 3355]

Aportuguesamento: «fisális»

Não vale a pena

      «Se olharmos com curiosidade para a planta Physalis deparamo-nos com a existência daquilo que parecem ser pequenos invólucros em forma de lanterna que, na fase final do seu desenvolvimento, mais parecem embrulhos feitos com papel de arroz» («Physalis: o fruto que vem embrulhado!», Rosa Isabel Guilherme, «Fugas»/Público, 5.10.2013, p. 31).
      Pois, mas já está aportuguesado e dicionarizado, fisális, tanto a designação da planta como do fruto, a baga. Por isso, não se esforcem, deixem lá o latim.

[Texto 3354]

Léxico: «cinzentismo»

Não falta por aí

      Uma professora universitária a escrever «sigílio»? Está isto lindo, está. Mas mudando de assunto: o grande poeta afirmou que não desejava «assumir a responsabilidade pelo cinzentismo («insipidness»?) de ninguém a não ser o meu próprio». O problema habitual: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista «cinzentismo»; em contrapartida, aparece no Dicionário Português-Inglês da mesma editora. Como este, centenas de outros erros, lacunas e incoerências.
[Texto 3353]

Ortografia: «audioguia»

Não há tempo

      «A primeira explanação já conhecida parece ser uma sátira ao estilo convencional dos áudio-guias de museus, com frases como “está a observar um tipo de pintura chamada graffiti, do latim graffito, que significa graffiti com um O”» («Banksy invade as ruas de Nova Iorque», Vítor Belanciano, Público, 3.10.2013, p. 33).
      Está o jornalista ilibado da (aparente?) parvoíce, porque acabei de ler a transcrição em inglês: «“You’re looking at a type of picture called graffiti, from the Latin ‘graffito,’” the audio guide offers, “which means ‘graffiti,’ with an ‘o.’”» (aqui). Mas só pode ser audioguias, porque o elemento audi(o)- não se liga por hífen ao elemento seguinte. Claro que os jornalistas não têm tempo para pensar nestas minudências e investigar. Sobretudo não têm meios.
[Texto 3352]

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