Tradução: «stamp»

Explique isso melhor

      «Só no século XVIII é que um grupo de arqueólogos reencontrou estes objetos que se julgavam perdidos. Foram assim descobertas peças de joalharia, escultura, mosaicos, equipamento de cozinha, mobiliário de madeira (como um berço de bebé ou um banco de jardim) e até mesmo comida, nomeadamente um pão intacto ainda com o selo da padaria» («Visitar Pompeia e Herculano numa sala de cinema», João Moço, Diário de Notícias, 13.06.2013, p. 48).
      «Um pão intacto ainda com o selo da padaria»... Desconfiamos logo da tradução, porque já estamos escaldados de outras vezes. Aqui vemos a imagem do pão, um pão de forma, com a marca, em relevo — espécie de selo branco —, da padaria. A imprensa em língua inglesa usa o termo «stamp», pois claro: «Items were crisped and carbonised, so amazingly we’re able for instance to see a loaf of bread from Herculaneum, and even the stamp of the baker on a loaf of bread.» E, nos dicionários de inglês-português, «selo» é a primeira acepção de «stamp». Se o jornalista dissesse que era um pão de forma, já se percebia melhor porquê o selo.
[Texto 2972]

Léxico: «supercentenário»

Ficamos a saber

      «Com o aumento da esperança média de vida, os centenários e supercentenários (110 anos) são cada vez mais. Segundo o Grupo de Pesquisa Gerontológica, estão vivos 55 supercentenários (51 mulheres e quatro homens). Entre eles está uma portuguesa, Maria Dolores Ferreira, natural de Barcelos, que fará 111 anos em julho» («Os mais velhos», Diário de Notícias, 13.06.2013, p. 26).
[Texto 2971]

Ortografia: «ítalo-americano»

Mas não

      «Kimura, que era a pessoa mais velha do mundo após a morte da italo-americana Dina Manfredini, em dezembro de 2012, aos 115 anos, foi o terceiro em seis filhos de uma família de agricultores da pequena localidade de Kamiukawa» («O japonês que aprendeu inglês depois dos cem anos», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 13.06.2013, p. 26).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora apenas acolhe, que nos permita comparar, «ítalo-etíope». No Portal da Língua Portuguesa, lê-se «italo-americano», como no artigo do Diário de Notícias. No entanto, no caso, não estamos perante o elemento de formação de palavras «italo-», trata-se antes do adjectivo «ítalo».
[Texto 2970]

Picassos, Magrittes, Pollocks e Warhols

Plural, pois claro

      «E, já agora, porque é o Governo não classifica, de uma vez por todas, a colecção Berardo, acabando com as constantes e irritantes ameaças do comendador Joe de a levar para fora do país? Acaso temos por aí Picassos, Magrittes, Pollocks e Warhols aos pontapés? Um raciocínio semelhante em relação ao senhor Calouste: haveria museu na Avenida de Berna, se a França tivesse feito à colecção Gulbenkian o que tanta gente está cheia de vontade de fazer ao quadro de Crivelli? Pois é. O Estado que se entretenha com o seu património — do qual nem sequer consegue cuidar — e deixe os privados em paz» («Crivelligate, a conclusão», João Miguel Tavares, Público, 13.06.2013, p. 48).
[Texto 2969]

 

«Camisa-de-sete-varas»

Parece que é igual

      «Muito menos a sua irmã, embora achasse que ela se podia meter numa camisa de sete varas se por acaso voltasse a encontrar o dito homem» (Tiro e Queda, Mafalda Belmonte. Lisboa: Bertrand Editora, 2002, p. 60).
      É a primeira vez que vejo assim. A medida tradicional é onze: camisa-de-onze-varas, hifenizado, como aparece, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. A alva dos condenados a autos-de-fé era feita de pano de varas, um tecido antigo de lã, áspero. Talvez haja aqui relação com o termo «vara» no sentido de circunscrição judicial. Quanto a serem sete ou onze varas, e vara aqui é uma antiga medida de comprimento, talvez seja, como alguns aventam, indiferente, pois são ambos números meramente simbólicos.
[Texto 2968]

Léxico: «alumbramento» e «alumbrado»

Sopro criador, revelação, inspiração

      Outras duas ausências de vulto no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: alumbrado e alumbramento. Quando Bárbara Guimarães recebeu, no programa Páginas Soltas, em 16 de Novembro de 2006, José Saramago, perguntou ao escritor a que chamava alumbramento. «Alumbramento? Não é uma palavra que eu use muito...» Mas de certeza que era, pois noutra resposta usou-a desenvoltamente duas vezes. Ainda assim, mais falta faz o termo «alumbrado» na acepção de membro da seita surgida no século XVI em Espanha. Porque ainda hoje há muitos alumbrados, muitos hereges...

[Texto 2967]

«Malícia» e «milícia», de novo

Bem me parecia

      «Parece que, no caso de “Aquele único exemplar”, a variante mais significativa se encontra no verso 10 da ode: em grafia actualizada, “No soberbo exercício da malícia”, onde, nas versões conhecidas, se pode ler “No soberbo exercício da milícia”. E vejo surgir uma proposta de leitura no sentido de que a versão agora revelada quereria dizer “no soberbo exercício da medicina ou do tratamento do mal”.
      Não me parece que se possa ir por aí. Camões refere-se a Aquiles, ensinado pelo centauro Quíron (a quem o poeta mais adiante chama “semiviro”) tanto nas artes da medicina como nas artes da guerra. Aquiles (sempre actualizando a grafia) “Não menos ensinado/ Foi nas ervas, e médica notícia,/ Que destro e costumado/ No soberbo exercício da milícia./ Assi que as mãos, que a tantos morte deram/ Também a muitos vida dar puderam”.
      A estrutura da caracterização da aprendizagem de Aquiles é dupla e como tal explorada em paralelo. O sentido da comparação desaparecia se lêssemos “malícia” como correspondendo a medicina ou tratamento do mal. Aquiles teria então sido ensinado tanto nas ervas e médica notícia como no exercício da medicina... E a estética do poema ficaria coxa de todo em passagem de tão inábil redundância...» («O soberbo exercício da malícia?», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 12.06.2013, p. 54).

[Texto 2966]

Como se fosse regra do AO

Hífenes, já eram

      Com a adopção das regras do Acordo Ortográfico de 1990, não foram apenas os cc e os pp que passaram a ser ceifados indiscriminadamente, mas também — é especialmente visível no DN —, como já tenho dito, os hífenes. Já hoje tratei do caso de «primeira-bailarina». Ei-lo agora sem hífen no Diário de Notícias: «No ano seguinte, foi convidada por Madalena Perdigão para regressar ao Ballet Gulbenkian, onde permaneceu como primeira bailarina até julho de 1994» («Bailarina teve uma vida dedicada à dança em Portugal», Helder Robalo, Diário de Notícias, 12.06.2013, p. 43).

[Texto 2965]

Arquivo do blogue