Sem tradução, hein?

Em que se fala de focas

      «Uma das testemunhas é um navy seal que participou no raide em que Bin Laden foi morto e que deverá falar do material apreendido no complexo onde o líder da Al-Qaeda se escondia» («EUA pedem pena máxima para Bradley Manning, por ‘ajudar inimigo’», Kathleen Gomes, Público, 4.06.2013, p. 22).
      Não se podia escrever, sei lá, «membro de uma força especial da Marinha», por exemplo? A não ser assim, e sem qualquer explicação, o leitor menos sabedor de inglês fica a ver navios, ou navios e focas.

[Texto 2941]

Como se escreve nos jornais

Então agora os plurais são assim?

      «As eleições, que marcam o fim dos mandatos de Ahmadinejad, vão consolidar o poder dos ayatollah e do líder supremo, Khamenei» («Funeral de clérigo torna-se na maior manifestação antigoverno em anos», Ana Gomes Ferreira, Público, 6.06.2013, p. 23).
      Até no Portal da Língua Portuguesa, sim, não é engano, se pode ver que o plural de ayatollah é ayatollahs. E em inglês, língua que dominam, também é ayatollahs. Não percebo.

[Texto 2940]

«Auto-designar-se»!

Letras a mais

      «Pelos vistos, um certo grupo que se auto-designou como porta-voz do movimento de Taksim identificou sete condições» («As sete condições para abandonar Taksim. Ou serão oito?», Paulo Moura, Público, 8.06.2013, p. 26).
      Ainda que tudo o mais estivesse certo, aquele hífen está errado. Vamos aprimorar isto e, de caminho, poupamos treze caracteres: «Pelos vistos, certo grupo que se designou porta-voz do movimento de Taksim identificou sete condições.» Ou mesmo quinze: «Pelo visto, certo grupo que se designou porta-voz do movimento de Taksim identificou sete condições.» (A consultora Teresa Álvares, no Ciberdúvidas, vê a questão de uma perspectiva redutora: «Não é que “pelo visto” esteja errado do ponto de vista gramatical, mas a forma correntemente usada, e a única que encontrei dicionarizada, é pelos vistos.») Indo mais a fundo, até tenho dúvidas se a expressão «pelos vistos» se adequa no contexto.
[Texto 2939]

Como se escreve nos jornais

Aos dois e aos três, e não chegam

      «Regressado a Inglaterra, [Tom Sharpe] deu aulas durante uma década no Cambridge College of Arts and Technology, experiência que lhe seria de grande utilidade para a futura série de romances protagonizados por Henry Wilt, um académico frustrado com os alunos e com os colegas, desejoso de se livrar de uma mulher deveras vinculativa, e com uma propensão quase sobrenatural para se envolver em graves sarilhos com as autoridades, geralmente baseados em divertidos equívocos» («O romancista britânico Tom Sharpe, criador de Wilt, morreu ontem em Espanha», Luís Miguel Queirós, Público, 7.06.2013. p. 36).
      «Mulher vinculativa»? Que é isto? Não li, e por isso não sei. Lembrei-me logo, eu sei lá, de má tradução, péssima aliás, de vindictive, «vindicativo» ou «vingativo». Mas não há-de ser isto, mas maneira pseudoliterária de dizer que a mulher era agarradiça.
      Confrontar a mesma notícia em mais do que um jornal é sempre útil. Não, não é útil, é uma perda de tempo, mas serve para nos lembrarmos que nunca nos podemos fiar. Assim, se o Diário de Notícias nos afiança que Tom Sharpe vivia em Llafranc «há mais de uma década», o Público garante-nos que «habitava há mais de duas décadas» naquela localidade catalã.
[Texto 2938]

«Massais»

Perfeito

      «Entre os Ancolés, um homem pode ceder a mulher por um certo tempo aos seus camaradas de clã, como o fazem os Massais. E pseudopoliandria pode existir quando, em famílias pobres, vários irmãos não possuem mais de uma mulher» (Família Africana, Eduardo dos Santos. Lisboa: Oficinas Gráficas da Papelaria Fernandes, 1966, p. 32).
      É, acho eu, espantoso, mas não está registado no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, onde, se estão os Nueres, também faltam os Dincas e muitos outros gentílicos.

[Texto 2937]

«Sex-extremismo»!

Quase português

      «Assim também tem sido desprezada a força das Femen, feministas que dão o corpo ao manifesto. Começou por ser um grupo de ucranianas aproveitando o Europeu de futebol no seu país, em 2012, para denunciar o turismo sexual. Ao que elas fazem, chamam sex-extremismo, promovendo ações aparentadas à não-violência de Gandhi, mas mais estéticas (contradigo-me aqui, um pouco, com a primeira frase desta crónica, mas não sou um anjo): o extremismo das Femen é o topless. Destapando as mamas, delas, e a careca, deles» («Homenagem às melhores mamas», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 7.06.2013, p. 56).
[Texto 2936]

Vírus do papiloma humano (VPH)

Assim está bem

      «Depois de ter causado polémica ao dizer que a prática de sexo oral foi a causa do cancro que lhe foi diagnosticado na garganta há três anos, Michael Douglas veio a público justificar-se e garantiu que a sua intenção foi uma tentativa de fazer “serviço público” e alertar os jovens para o VPH (vírus do papiloma humano)» («Douglas quis “fazer serviço público”», Diário de Notícias, 7.06.2013, p. 53).

[Texto 2935]

«Colocar a rir»!

Era só o que faltava

      Na edição de hoje do Portugal em Directo, a repórter perguntou ao comediante Pedro Tochas, que estreia hoje no Teatro do Campo Alegre o seu novo espectáculo, se, neste momento de crise que estamos a viver, é mais difícil pôr as pessoas a rir. E a resposta foi: «Se é mais difícil ou não, para mim é sempre difícil. Eu acho é que se calhar é mais importante colocá-las a rir

[Texto 2934]

Arquivo do blogue