«Quando mais não seja»

Macaqueando e ensinando

      «Matéria relevante — parece-me — para ser noticiada, quanto mais não seja porque o exemplo de alguém tão conhecido é importante e formativo» («Isaltino e Angelina», Rui Patrício, i, 25.05.2013, p. 14).
      É mais ou menos isso, Sr. Dr. E trago-a aqui porque é matéria relevante — parece-me — para ser tratada, quando mais não seja porque o exemplo de alguém tão conhecido é importante e formativo.

[Texto 2885]

Como se fala por aí

Excessivo

      «Miguel Sousa Tavares já veio admitir ter sido “excessivo”. “É muito simples, eu não tenho nenhuma consideração política pelo professor Cavaco Silva, conforme é público, mas tenho pelo chefe de Estado, seja ele quem for e nesse sentido reconheço que não devia ter dito aquilo”, afirmou à Lusa, qualificando as suas palavras como um “deslize”. “Obviamente que lhe chamei palhaço no sentido político”, ressalvou ao “Expresso”» («Código Penal. “Palhaço”, mas só em sentido político. Será insulto?», Susete Francisco, i, 25.05.2013, p. 32). 
      «Palhaço» em sentido político? E se eu — ou, para ser mais realista, Miguel Sousa Tavares — chamar palhaço a um vizinho, é o quê, em sentido vicinal?
[Texto 2884]

«Jubilação/aposentação»

En archē ēn ho logos

      Isso mesmo, no princípio era o Verbo. «Eticamente é lamentável o que se está a passar. Mas não comento decisões judiciais nem tão pouco [sic] os acórdãos do Tribunal Constitucional. Optei por me jubilar, embora as condições sejam mais restritivas do que as proporcionadas pela aposentação. Mas mantenho as mesmas regalias do que se estivesse no activo», disse o ex-procurador-geral da República Pinto Monteiro («O que estes pensionistas dizem do corte nas reformas», i, 25.05.2013, p. 25).
      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «jubilar-se» é «obter a jubilação; aposentar-se». Primeiro problema. Segundo problema: no verbete «jubilação», lê-se: «(ensino superior) aposentação honrosa, por limite de idade». Isto está a precisar de uma revisão.
[Texto 2883]

Sobre «marxista»

Incompleto ou errado

      O original, italiano, fala «dell’idea marxiana di società senza classi», e o tradutor deixou «marxiana», que nós não usamos, porque há-de ter consultado um dicionário, talvez o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que para «marxista» regista que é o «relativo ao marxismo». Ora, não é apenas isso, é o relativo a Karl Marx, à sua obra ou ao marxismo. Em italiano, há especialização de sentidos, pois «marxista» diz respeito apenas ao marxismo e às ideias de Karl Marx.
      Todas as obras são susceptíveis de aperfeiçoamento, de melhoramento, e os dicionários mais do que todas.
[Texto 2882]

Léxico: «efundula»

E «muchique»?

      Tenho de voltar à Feira do Livro para comprar um exemplar do Dicionário de Etnologia Angolana, de Eduardo Parreira, publicado pela Plural Editores/Porto Editora. Ainda na semana passada revi um texto em que foi usada a palavra «efundula», que vem do cuanhama e está registada no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Pois, mas «muchique» onde está e o que significa? (Ah, sim: efundula é o nome que se dá à cerimónia, que durava quatro dias, anunciadora da chegada da puberdade das raparigas cuanhamas.)
      O desconto que fazem no preço do dicionário vai dar para comprar um churro... mas esperem: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora assegura que a etimologia de «churro» é sordĭdu-, «sujo». Fantasias. O étimo é castelhano, e nesta língua considera-se que provém de voz onomatopeica.

[Texto 2881]

Rima exótica

Não confere

      Ontem, um conhecido desembargador subia a Alameda Edgar Cardoso e parou junto de um banco. Cansado, de olhar desconfiado e abdómen proeminente. Despiu o casaco, arregaçou as mangas da camisa, voltou a vestir o casaco e foi-se embora. Foi a única pessoa conhecida (Rui Lagartinho já se tinha ido embora) que vi a caminho da Feira do Livro, onde comprei, entre outros, o Rimário d’«Os Lusíadas», de Fernanda Carrilho, de onde respigo: «Limitando-se a uma única ocorrência em todo o poema, surge a rima exótica, quando rima com palavras estrangeiras, mais precisamente como [sic] o soneto de Petrarca: tra la spica a la man, qual muro he messo (IX, 78, 8» (Lisboa: INCM, 2012, p. 26). No original, porém, está: «Tra la ſpica & la man, qual muro he meſſo.»
[Texto 2880]

Chancela, selo, marca...

Dicionário de sinónimos

      No Bom Dia Portugal de ontem, o repórter Rui Lagartinho (agora com um penteado um pouco excêntrico, puxado para cima) esteve a acompanhar os últimos preparativos para a Feira do Livro. «Uma pequena precisão. Quando se fala aqui em 480 editoras, não são na realidade 480 editoras, são os selos que cada editora tem, porque tem sido uma tendência cada editora ter várias colecções e vários selos próprios.»
      É a criatividade a impor-se. A receita parece-me bem simples: pega-se nos sinónimos e lá vai: selo, rubrica, marca, sinete, cunho, estampilha...
[Texto 2879]

Pronúncia: «cutelo»

Na pronúncia como no demais

      Jornalista João Botas, no Telejornal de ontem: «No local do crime, a polícia procura pistas que possam ajudar a explicar o assassinato com golpes de cutelo de um soldado britânico em plena luz do dia num bairro do Sul de Londres.» Se há mais de uma forma, escolhem sempre a pior. Mas vamos antes falar da pronúncia do vocábulo «cutelo». É aberto aquele e, mas o jornalista pronunciou-o bem fechado: /cutêlo/. Em dicionários antigos, até aparece com acento agudo sobre o e. Merecia ir para o Prontuário Sonoro, mas mais urgente eram limparem os erros que lá estão, como aquela grande estupidez do «uxorcida». Há 26 semanas que os avisei, e nada. Muito diligentes.
[Texto 2878]

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