O desgraçado verbo «haver»

Ao que isto chegou

      Nuno Carvalhinho, presidente da Associação Nacional de Pequenas e Médias Empresas (ANPME), considera as medidas positivas: «[...] e eu creio que vão haver empresas que vão aproveitar estes incentivos [...] e não deverão haver muitas empresas [...] eu acredito que sim, que vão haver empresas que vão fazer este tipo de investimentos.»
[Texto 2877]

«De encontro a/ao encontro de»

Sempre ao contrário

      Cecília Meireles, deputada do CDS: «Estas medidas vêm no momento possível, que é um momento que é difícil do ponto de vista da economia portuguesa, dos trabalhadores e das empresas e por isso mesmo são ainda mais necessárias e vêm de encontro àquilo que o CDS sempre defendeu.» Parece o falar trocado de outros tempos.
[Texto 2876]

Sobre «dramático»

Comovente

      «Nos estaleiros da Navaltagus, no Seixal, o Trafaria Praia sofreu mudanças dramáticas: o interior tem uma instalação têxtil em tons de azul que evoca a experiência do útero; no exterior, o barco será revestido com uma imagem inspirada pelo Grande Panorama de Lisboa (guardado no Museu do Azulejo, na capital), datado do primeiro quartel do século XVIII [...]» («Cortejo no Tejo para cacilheiro de Joana Vasconcelos», S. S. C., Visão, 2.05.2013, p. 11).
      Agora, para escreverem três linhas em português, pensa-se como se escreveria em inglês e traduz-se — mal. Dramático, sim.
[Texto 2875]

«Coincidir», uma acepção

Não se usa muito

      «Eu coincido com a sua análise. O País está bloqueado», disse António José Seguro a propósito das opiniões de Jorge Sampaio, entrevistado hoje na Antena 1. Não é de uso muito corrente esta acepção do verbo «coincidir (com»), que significa «concordar (com)».
      «Se neste ponto coincidimos com a “hipótese de trabalho” sugerida por Nuno Espinosa Gomes da Silva — e que referimos no número anterior desta nota —, já outro tanto não sucede quando este se mostra propenso a crer que “ambas [as edições] constituem impressão de um mesmo texto, confiado a dois diferentes impressores”» (Obras Esparsas, Vol. II, Guilherme Braga da Cruz. Coimbra: Universidade de Coimbra, p. 324).
[Texto 2874]

Símbolos de minuto e de segundo

Desalinhados

      Já todos vimos, referido a filmes, que têm tantos minutos e segundos, e os supostos símbolos: 44' 25". A cores, a preto-e-branco. Tudo muito bonito. Acontece, porém, que esses símbolos, chamados plicas ou linhas, dizem respeito a unidades de medida de ângulo plano e não a unidades de tempo. Convenção ou distracção? Há convenções contra outras convenções?
[Texto 2873]

Plural de «sopro»

São 80 euros da consulta

      O cardiologista pediátrico António Macedo esteve ontem no Bom Dia Portugal para falar de sopros no coração. O jornalista João Tomé de Carvalho começou por dizer: «Quarenta por cento das crianças saudáveis têm um sopro no coração. Este é de resto o motivo da maioria das consultas pediátricas.» O que foi logo desmentido pelo convidado: «Não há manifestações, é um dado auscultatório.» E como 90 e muitos por cento são sopros inocentes, está-se mesmo a ver que isto não é problema nenhum, mas alguém quer que seja. A meu ver, o único problema é o médico não saber pronunciar bem o plural de «sopro», que não é /sòpros/, como ele repetidamente disse. «Sopros» não é um plural metafónico — é /sôpros/.

[Texto 2872]

O plural de «órix»

Era poeta e sabia

      «Depois começamos a cair na monotonia e à 50.ª zebra já ninguém diz nada. Pelo meio, aparecem muitas gazelas, antílopes e órix» («As cores da Namíbia», Catarina Serra Lopes, «Tabu»/Sol, 19.04.2013, p. 54).
      Os dicionários afiançam que é invariável, mas lembro-me bem de ter lido numa obra de Ruy Duarte de Carvalho «órixes». Pelo menos em inglês tem dois plurais: oryx ou oryxes.

[Texto 2871]

«Arguência/arguição»

Coisa diversa

      Desta vez, e para compensar, veio o Jogo da Língua em boa hora alertar para uma confusão que por aí anda — sobretudo nas universidades —, e que é dizer e escrever «arguência» como se fosse sinónimo de «arguição». «Arguência de tese», lê-se aqui e ali. Erro, mas erro já com muitos anos. O acto ou efeito de arguir designa-se por arguição, que é um exame. «Arguência», se existisse, significaria outra coisa.

[Texto 2870]

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