AO na AR

Vamos ver o que respondem

      «Uma petição com cerca de 4400 assinaturas foi ontem entregue em Assembleia da República (AR) para desvincular Portugal do novo Acordo Ortográfico e exigir “de uma vez por todas”, que os deputados “tomem uma posição perante o eleitorado”. Ivo Barroso, um dos peticionários, defendeu que o governo “não pode, por decreto, mandar a AR aplicar o acordo”» («Depois vais ter pena», Inês Teotónio Pereira, i, 27.04.2013, p. 6).
[Texto 2787]

«Despensa/dispensa»

Dispensamos

      «A advertência sempre me assustou um pouco. Sempre me fez lembrar uma espécie de anúncio de uma catástrofe que se advinha: “Ui, nem sabes o que aí vem... Depois não digas que eu não avisei.” Como se tivéssemos de encher a dispensa de enlatados e preparar-nos para o pior» («Depois vais ter pena», Inês Teotónio Pereira, i, 27.04.2013, p. 12).
      Para Tristão da Cunha Portugal, na sua Orthographia da Lingoa Portugueza, é que «adivinhar» ou «advinhar» era igual. Mas isso foi em 1856. Já quanto à confusão entre «despensa» e «dispensa», nem ao século XIX se pode ir buscar desculpa.
[Texto 2786]

Para lembrar

Perguntado pelo Imperador Adriano

      «Para procedermos nesta matéria com a clareza que desejo, vamos consultar ao Sábio Filósofo Secundo. Este grande homem sendo perguntado pelo Imperador Adriano, que cousa era a mulher, respondeu assim: A mulher é naufrágio do homem, tempestade da casa, cativeiro da vida, leoa abraçando, animal malicioso, e mal necessário» (Frei Amador do Desengano).
[Texto 2785]

Como se escreve nos jornais

Falta o resto

      Acabam de me mandar este título da página 4 da edição de hoje do Público: «Seguro acusa Cavaco de não acreditar na capacidade do povo criar soluções». Toda a sanha contra o Acordo Ortográfico (o acto mais antiliberal destes anos pós-25 de Abril), e depois isto. Qual é o leitor são de espírito que não estabelece nenhuma relação? Trata-se em ambos os casos da língua.
[Texto 2784]

«Toque hepático»

É só um toque

      Na última semana e meia, fui a cinco médicos. Três trataram-me, e respectivas assistentes, por Dr. e dois por Eng. E porquê tanta deferência hipócrita? Ora, porque não era no Sistema Nacional de Saúde, mas em clínica privada. Foram unânimes: tenho um toque hepático. Não explicaram nada, mas gostaram de dizer «toque hepático». Os dicionários — ao contrário do que fazem, mal, com «caução carcerária» — não registam a locução.
[Texto 2783]

«Com certeza»

Mais atenção, caramba

      «“O que acho dramático é que diabolizemos quem tomou decisões sobre matérias que vistas hoje se reconhece que foram erros. À época, quem as tomou concerteza que tinha objetivos em vista. A generalização desse tipo de investimentos, na altura, era comum”, considerou [Guilherme Pinto, presidente da Câmara de Matosinhos], em declarações aos JN, à margem de uma cerimónia comemorativa da Revolução de Abril» (Jornal de Notícias, 26.04.2013, p. 32).
      Ando eu aqui há dez anos a ensinar qualquer coisinha, e os jornalistas saem-se com estes disparates de criança de escola primária. É triste. É uma locução adverbial, é com certeza. A juntar ao Acordo Ortográfico, apetece mesmo ler...
[Texto 2782]

«Possuir/ter»

Se fosse só isso

      Passa pela cabeça de alguém que saiba ler há mais de quatro anos substituir em todos os contextos o verbo ter pelo verbo possuir? Sim, pela cabeça de um jornalista: «Disse à polícia que pertencia à Al-Qaeda, mas certo apenas é possuir problemas psicológicos» («Tiroteio em Marselha faz três mortos e um ferido», Paulo Dentinho, Jornal da Tarde, 26.04.2013).
[Texto 2781]

«Caução carcerária»

Demasiado simples?

      «Terá sido essa a perceção do juiz de instrução de Mirandela que optou por uma caução que não deixa de ser carcerária, até pelo elevado montante estabelecido» («Liberdade provisória aplicável a todos os crimes», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 26.04.2013, p. 18).
      É interessante como subsistem estes termos. Caução carcerária é a que visa assegurar com eficácia a comparência do arguido a todos os termos do processo em que seja necessário e o cumprimento das obrigações impostas pelo juiz. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, a definição é muito (demasiado?) mais simples: «caução que permite ao arguido cumprir a sentença em liberdade».

[Texto 2780]

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