Ortografia: «paracomercial»

Solda, solda

      Reparem: «Uma brincadeira de miúdos, feita por gozo e para os amigos, transformar-se de repente num fenómeno para comercial é uma coisa inesperada, difícil de integrar» («A piada de fazer de parvo em vídeo», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 4.08.2012, p. 6).
      Até agora, apenas conhecíamos os fenómenos paranormais. O prefixo é o mesmo, e fica juntinho da palavra que se lhe segue, sem espaço nem hífenes a servirem de breve ponte. Near-commercial, cuasicomercial, paracomercial.
[Texto 1920]

Léxico: «ressarcitório»

Deixaram escapar esta

      «“O presidente da segunda maior câmara do país vir aqui, responder em tribunal se lhe chamam fanático dos popós e se é um fanático dos popós, em agosto, quando os tribunais estão fechados e só coisas urgentes é que são tratadas, revela o quadro em que a justiça e o regime político em que vivemos está”, criticou o edil. O advogado do autarca confirmou a existência de uma “ação principal para efeitos ressarcitórios”, mas não especificou o montante» («“Um energúmeno a dizer se é fanático dos popós”», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 4.08.2012, p. 17).
      Nem os dicionaristas mais espevitados lá chegaram. Estão, contudo, sempre a tempo.

[Texto 1919]


Anagrama, sim, mas

De outro nome

      «No topo da lista em termos de subscritores de canal YouTube e a fazer quase o ordenado mínimo nacional em cliques (“No primeiro mês ganhei 128 dólares, no segundo 400 – depende dos vídeos que faço. Não vou ficar rico, mas é melhor do que nada.”), Bruno Leça, 17 anos, (muito) mais conhecido pelo anagrama do nome próprio, Nurb, é sem dúvida a vedeta do grupo» («A piada de fazer de parvo em vídeo», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 4.08.2012, p. 6).
      Anagrama — com elisão, há-de ser. Não mereceria entrar no Jardim Anagramático de Divinas Flores Lusitanas, Hespanholas e Latinas.
[Texto 1918]

Changana, moluene, ronga...

Tão perto e tão longe

      Aqui precisamos de uma achega de Vítor Santos Lindegaard. Acabei de ler: «As ruas de Maputo estavam enxameadas de crianças sem família e sem tecto: meninos de rua ou moluwene, como lhes chamavam em Shangane, o dialecto predominante do Sul de Moçambique.»
      Comecemos então pelo fim: é changana que se escreve, a língua dos Changanas, «etnia de matriz banta, que vive na província de Gaza, em Moçambique, e na de Gaza N’Kulu, na África do Sul», lê-se no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Língua ou dialecto? E «moluwene»? O mesmo dicionário regista moluene: «Moçambique criança abandonada; criança vagabunda». E acrescenta que provém do ronga molwêni.
[Texto 1917]

Léxico: «microlete»

Isto é novo

      Sabia que, para chegar ao Parlamento Nacional timorense, pode apanhar a microlete n.º 2? Ah, não sabe o que é uma microlete... Também eu, há cinco minutos, desconhecia a palavra. Que é timorense, sim. Nos nossos dicionários, o mais próximo é «microlite», que é um mineral. Veja então aqui uma microlete. Acrescentem, por favor, ao vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa.
[Texto 1916]

Concordância

Nada de novo

      «Mas a ideia da empresa é homogeneizar a sua presença na Internet, demasiado dispersa (daí a decisão de eliminar os produtos com a marca Windows Live). O Outlook torna-se, segundo a Microsoft, “um e-mail moderno desenhado para as próximas mil milhões de caixas de correio”» («Um milhão de pessoas adere ao substituto do Hotmail», Ana Rita Guerra, Diário de Notícias, 3.08.2012, p. 46).
      Então o vocábulo «milhão» agora mudou de género, cara Ana Rita Guerra? Identifique o sujeito da frase, se faz favor.
[Texto 1915]

«Supernorte-americano»

Supernatural

      O super norte-americano nadou o percurso em 1.54.27 minutos, 63 centésimos à frente de Lochte (detentor do recorde mundial, de 1.54.00) e com quase dois segundos de vantagem sobre o terceiro classificado, o húngaro Laszlo Cseh. [...] Depois desta prova, o super-recordista ainda teve fôlego para bater toda a concorrência nas meias dos 100 m mariposa e entrar para a final de hoje com o melhor tempo dos oito concorrentes (50.86 s)» («Doce vingança para o insaciável Michael Phelps», Rui Frias e Sarah Saint-Maxent, Diário de Notícias, 3.08.2012, p. 31). Estranho? Mais estranho é o que está errado.

[Texto 1914]

Ortografia: «afición»

Mal consolidado

      «“A estrutura de Pequim era mais espetacular, mas a affición aqui é superior a todas as outras. Têm ligação ao remo através das universidades e colégios e isso percebe-se”, disse ao DN José Garcia, ex-canoísta português (6.º lugar em Barcelona 1992) e adjunto do chefe de Missão para o remo e a canoagem em Londres 2012» («No colégio de 19 primeiros-ministros», Diário de Notícias, 3.08.2012, p. 46).
      Já na semana passada tinha visto este erro numa revisão. É verdade que o étimo tem dois ff, affectĭo — mas eu não tenho a culpa. Qualquer que seja a língua, mas por maioria de razão com as alheias, que conhecemos menos bem, é preciso ter cuidado. Ainda há, apesar da crise, dicionários.
[Texto 1913]

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