Plural dos apelidos

Os Sousas na Baixa

      «Todos os anos pelo feriado, Ana e Loures vêm à Baixa para as compras de Natal. Mãe e filha cumprem a tradição, mas desta vez levam menos presentes para casa. A crise assustou os Sousas, que este ano decidiram trocar presentes apenas entre os membros mais chegados da família» (Jornal da Tarde, repórter Pedro Oliveira Pinto, RTP1, 8.12.2011).
[Texto 788]

«Alheta/façoila/ventrecha»

Obrigado

      «Graças ao Duarte [Guedes Vaz], aprendi hoje – ... está-se sempre a aprender – que o focinho do porco, a parte mais saborosa segundo ele, se chama “façoila” e a cabeça do peixe, o lado mais gostoso num bom pescado, se designa por “alheta”. Palavras que virão no dicionário?» (Diário de Paris – 2001-2003, Marcello Duarte Mathias. Lisboa: Oceanos, 2007, 2.ª ed., p. 333).
      Duarte Guedes Vaz, o primo de Otelo? Agradeça também em meu nome ao Sr. Dr. Eu pensava que só se lhe chamava «faceira». «Alheta» também desconhecia nessa acepção. Para a troca: à posta do peixe que se segue à cabeça dá-se o nome de ventrecha.
[Texto 787]

«Dor de cabeça»

Uma dor de cabeça

      O noticiarista, com ar de quem queria uma receita, perguntou ao Dr. António Vaz Carneiro, especialista em medicina interna, qual a diferença entre dor de cabeça e enxaqueca. «Bom, da última vez que vi, havia qualquer coisa como perto de trinta definições diferentes do que são dores de cabeça, ok?» Em língua inglesa, há-de ser mais fácil encontrar. Nos dicionários gerais da língua portuguesa, nem sequer consta como entrada autónoma. Temos cefaleias, enxaquecas, cefalalgia, hemicranias... Nada, salvo «enxaqueca», que se diga no dia-a-dia. Aos Espanhóis, ouço-os falar em dolor de cabeza, em jaqueca e em migraña, que o DRAE, para os académicos dormirem bem, jura que vem do latim hemicranĭa. E o francês migraine?
[Texto 786]

«Ciceronar»?

Servir de guia

      «O Narciso Pestanudo, amansado, partira com os inimigos para os ciceronar por bares e cabarés da cidade» (Já não Se Escrevem Cartas de Amor, Mário Zambujal. Revisão de Eda Lyra. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2008, 4.ª ed., p. 57).
      Não é que faltem gralhas, e gralhas improváveis, e erros na obra («galinha pedrez», «impropabilidades», «isensão», «cabelo frizado», «regorgitar» e outras), mas estranhei esta grafia. Há algumas abonações para esta variante, se o é, mas não me convence.
[Texto 785]

«Na medida em que»

Nunca usei

      «Gosto da chuva, na medida em que as secas prolongadas me deprimem» (Já não Se Escrevem Cartas de Amor, Mário Zambujal. Revisão de Eda Lyra. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2008, 4.ª ed., p. 75).
      Não sei, parece-me expressão antiliterária. E já foi bordão, lembra-o Edite Estrela, que serviu a muita gente. Creio que é o livro de estilo do Estadão que recomenda que se lhe substitua, sempre que se puder, por se, uma vez que, porque ou desde que. Até, como outros, confesso que não sei lá muito bem o que significa esta locução conjuntiva. E você?
[Texto 784]

Ortografia: «satiagrahis»

Assim não

      «Salazar nem deu troco e os jornais começavam a falar em surtidas de satriagrais» (Já não Se Escrevem Cartas de Amor, Mário Zambujal. Revisão de Eda Lyra. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2008, 4.ª ed., p. 108).
      Até no Boletim Geral do Ultramar ora se lê «satiagrahis» ora «satyagrahis», mas, que diacho!, sempre se percebe do que se trata. Esta grafia desfigura quase completamente a palavra.
[Texto 783]

«Onde/aonde/donde»

Vou para casa

      «A este propósito, a Isabel Amaral contou que o Manoel de Oliveira, intrigado perante tão inusitado êxito [do filme Vou para Casa], perguntou ao Paulo Branco: “Aonde é que a gente errou?!”» (Diário de Paris – 2001-2003, Marcello Duarte Mathias. Lisboa: Oceanos, 2007, 2.ª ed., p. 111).
      Manoel (obriguem-no lá a escrever o nome com u, vá lá) de Oliveira fala assim tão mal? Não acredito. Acho que, se leu o livro, ficou outra vez intrigado.
[Texto 782]

Revisão

Iconic British Luxury Brand Est. 1856

      «Velhos e velhas encasacados nos seus loddens, cor verde-escura, envoltos nos cachecóis axadrezados da Burberrys. Friorentos, estão com mais frio do que o frio que está. Burguesia de cabelos brancos, neta e bisneta de burgueses, anestesiada por décadas de bem-estar» (Diário de Paris – 2001-2003, Marcello Duarte Mathias. Lisboa: Oceanos, 2007, 2.ª ed., p. 24).
      É loden que se escreve, como já aqui vimos a propósito daquele que Freitas do Amaral usava. E, como o título mostra, é Burberry que se escreve. Um entre muitos erros e gralhas nesta quase de certeza falsa 2.ª edição. Fica para a próxima tiragem, ou, se com todos ou quase todos os erros e gralhas corrigidos, quem sabe se 3.ª edição.
[Texto 781]

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