Léxico: «multiponto»

Do radioamadorismo


      «O exame, que pode ser requisitado e feito online, exige a resposta a perguntas relativas à legislação aplicável ao setor, procedimentos para a correta utilização do serviço e frequências autorizadas. Ao contrário dos telemóveis, as estações de amador não carecem de uma rede de suporte, podendo comunicar contraponto ou ponto-multiponto sem depender de infraestruturas de terceiros. Podem ser utilizadas em modo fixo, móvel ou portátil, com recurso a baterias próprias ou através do automóvel» («Apagão fez disparar procura por rádio amador», Vanessa Fidalgo, Correio da Manhã, 13.05.2025, p. 34).

    Pode, é claro, dicionarizar-se também o termo assinalado ➜ ponto-multiponto TELECOMUNICAÇÕES configuração de comunicação em que um único emissor transmite dados ou sinal para vários receptores, estabelecendo ligações simultâneas a partir de um ponto central para múltiplos pontos, sem necessidade de ligações dedicadas entre cada par de dispositivos.

      Contudo, é o polissémico multiponto, usado também na área das telecomunicações e da informática, além de termo geral, que se mostra mais prometedor.

[Texto 22 825]

Léxico: «efeito Flynn»

A qualquer hora se aprende


      Na terça-feira de madrugada, mencionaram na rádio o ➜ efeito Flynn PSICOLOGIA aumento gradual dos resultados médios em testes de inteligência (QI) observado ao longo do século XX em várias populações, associado a factores ambientais; em anos recentes, há indícios de estagnação ou inversão em alguns países. 

      Adivinhem onde se está a verificar essa estagnação ou mesmo regressão. Exactamente: nos países mais desenvolvidos do Ocidente, como Noruega, Dinamarca, Finlândia, Países Baixos, Reino Unido ou França, onde os resultados médios em testes de QI deixaram de subir, e, em alguns casos, começaram mesmo a descer, desde o final do século XX; já em vários países em desenvolvimento, a tendência de crescimento persistiu por mais tempo, o que sugere uma forte dependência de factores ambientais e do nível de desenvolvimento socioeconómico.

[Texto 22 824]

Léxico: «crista | geopotencial»

Incongruente, disse ele


      «Como já foi referido anteriormente noutras previsões da Meteored Portugal, o estado do tempo nos próximos dias vai mudar radicalmente em Portugal graças à rápida aproximação de uma poderosa crista anticiclónica subtropical que se instalará sobre toda a Península Ibérica» («Uma crista subtropical aproxima-se a toda a velocidade de Portugal: eis os fenómenos mais marcantes desta semana», Alfredo Graça, Meteored Portugal, 13.04.2026, 12h41). 

      A Porto Editora acolhe «crista anticiclónica», mas, como não acolhe «crista» na acepção meteorológica, não se pode dizer que esteja bem. Aliás, as cristas estão inerentemente associadas a anticiclones; logo, basta dicionarizar esta acepção de «crista». Além de que a definição não está inteiramente bem, em vários aspectos, mas sobretudo por dar ideia de que é o apêndice de um ciclone. Assim, proponho ➜ crista METEOROLOGIA região alongada de valores relativamente elevados de pressão atmosférica ou de altura geopotencial, correspondente a uma ondulação do campo de pressão com curvatura anticiclónica, associada, em geral, a subsidência do ar e a condições de tempo estável; opõe-se ao cavado.

[Texto 22 823]

Definição e etimologia: «apparatchik»

Último episódio


      Nos primeiros minutos do primeiro episódio da série Na Sombra, que passou na RTP2, o protagonista César Casalonga é apresentado, nas legendas, como burocrata — mas no original a palavra usada foi apparatchik. Nos últimos minutos do sexto e último episódio nas legendas já apareceu apparatchik. Não, não é o mesmo. Vamos pôr as coisas desta maneira subjectivíssima: não me importava de ser apparatchik; morreria de tédio se me visse na pele de burocrata. Se quiserem, sim, o apparatchik é uma espécie, mas muito particular, de burocrata. Não deve ter sido sem razão que a palavra, russa, veio para as línguas ocidentais. 

      Em geral, nos dicionários dessas línguas, aparece com UMA acepção, e serve bem para todos os fins. Se quisermos, e devemos querer sempre, ajudar o falante, duas. Está assim no dicionário da Porto Editora: «1. HISTÓRIA membro do aparelho do partido comunista da antiga União Soviética; 2. figurado indivíduo pertencente à estrutura burocrática de organização ou partido político; 3. depreciativo membro de organização política e/ou partidária que segue a linha oficial de forma acrítica e assume uma postura submissa face à estrutura de poder interno, geralmente com o objetivo de preservar e/ou conquistar vantagem pessoal». A minha primeira dúvida é que aquele seja um sentido figurado. Parece-me uma extensão de sentido, o que é diferente. Abreviando razões, essa carga depreciativa, que pode ou não haver, está presente desde o início, e lá onde surgiu o termo. Ninguém ganha nada em multiplicar, complicando, sentidos e acepções, quando está tudo lá logo na essência. Assim, proponho ➜ apparatchik POLÍTICA membro do aparelho de um partido, sobretudo no contexto da antiga União Soviética; por extensão, membro de organização política ou institucional que actua segundo a linha oficial de forma acrítica, com fidelidade à hierarquia e inserção na lógica interna do aparelho, geralmente com conotação pejorativa de submissão, conformismo ou oportunismo.

      Quanto à etimologia, vem do russo аппаратчик (apparátchik), de аппарат (apparát, «aparelho») + -чик (-čik, sufixo de agente), difundido nas línguas ocidentais através do inglês (e também do francês) durante a Guerra Fria.

[Texto 22 822]

Léxico: «confiança política»

Estão a ver mal a coisa


      Vi o vídeo da reunião de câmara em que Ana Abrunhosa, presidente da Câmara Municipal de Coimbra, diz retirar a confiança ao jornalista da Lusa. A confiança, não a «confiança política», como vejo escrito na imprensa e ouço, como na segunda-feira, na Rádio Observador. Basta que tenha dito «confiança» e já é um disparate, mas se dissesse «confiança política» ia parecer-me simplesmente uma parvoíce. A primeira conclusão é que se sobrevaloriza muito a experiência. Aproveitando este triste incidente, proponho, porque se usa com muitíssima frequência, e não são meras duas palavrinhas justapostas, a seguinte definição de ➜ confiança política POLÍTICA relação de natureza político-institucional que se estabelece entre titulares de cargos no interior de um órgão executivo, fundada na convergência de orientação política, na lealdade e na expectativa de execução das directrizes governativas, e que constitui fundamento para a nomeação, manutenção em funções ou exoneração de membros desse órgão. 

      Prescinde-se, em honra dos preceitos dicionarísticos — e para salvaguarda da minha sanidade mental —, de dizer o que não é.

[Texto 22 821]

Léxico: «síndrome do sobrevivente»

Então são duas


      Na sequência de um despedimento colectivo de grande escala na Oracle, que atingiu uma parte significativa da sua força de trabalho, a empresa manteve apenas os trabalhadores considerados essenciais, gerando um clima interno de incerteza e pressão acrescida entre os que permaneceram. É neste contexto que se enquadra o fenómeno descrito no excerto seguinte. «Organisational psychologists have a name for it: survivor syndrome. Research pioneered by Joel Brockner at Columbia Business School shows that layoff survivors consistently develop negative reactions like reduced productivity and creativity, erosion of trust in manage-ment, and significantly higher intentions to leave» («The 'survivor syndrome' in those left behind after a layoff», John Xavier, The Hindu, 12.04.2026, p. 12). 

      Mas, como se sabe, há um conceito prévio e mais difundido do que este de ➜ síndrome do sobrevivente 1. PSICOLOGIA (clínica) conjunto de reacções emocionais de quem sobrevive a um acontecimento traumático em que outros morreram, caracterizado sobretudo por sentimentos de culpa, ansiedade e tristeza persistente; 2. PSICOLOGIA (organizacional) reacção psicológica de trabalhadores que permanecem numa organização após despedimentos colectivos, caracterizada por insegurança, desmotivação e quebra de confiança, com impacto no desempenho e no envolvimento profissional.

[Texto 22 820]

Léxico: «albedo | flavedo»

De onde menos se espera


      Aqui uma autora (a que usou uma acepção de «botica» que o dicionário da Porto Editora não acolhia), numa receita, usa dois termos relativos (no caso) à casca da laranja que andam arredados de todos os dicionários, albedo e flavedo. Ora esta... Bem, é melhor acolhê-los, pelo que proponho ➜ albedo BOTÂNICA camada interna do pericarpo dos frutos cítricos (hesperídios), situada entre o flavedo e a polpa, de cor branca e textura esponjosa, constituída essencialmente pelo mesocarpo e geralmente pouco rica em óleos essenciais | ➜ flavedo BOTÂNICA camada externa do pericarpo dos frutos cítricos (hesperídios), correspondente à casca visível e colorida, rica em glândulas de óleos essenciais e responsável pelo aroma característico dos citrinos. É isso: quem não vê, não sabe. É melhor estar (quase) tudo nos dicionários, e depois logo se vê se é necessário.

[Texto 22 819]

Definição: «barcaça»

Mas podemos tratar do caso


      Não serve de desculpa, evidentemente, mas a verdade é que «barcaça» também não está rigorosamente definida nos nossos dicionários. De tudo o que sei e leio e vejo, diria assim ➜ barcaça embarcação de fundo chato, larga e robusta, geralmente sem propulsão própria ou de fraca autonomia, usada em rios, estuários e zonas portuárias para transporte de carga pesada ou para apoio a operações de carga e descarga de navios.

[Texto 22 818]

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